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— Sim, senhor.

— Os que estão amarrados são provavelmente bandidos ou wakos. Apresentaram-se como um grupo e se ofereceram voluntariamente para servi-lo sem medo, em troca de perdão por quaisquer crimes passados. Juraram ao Senhor Noboru — que selecionou todos estes homens por ordem do Senhor Toranaga — que nunca cometeram crime algum contra o Senhor Toranaga ou qualquer um dos samurais dele. O senhor pode aceitá-los individualmente, ou como um grupo, ou recusá-los. Compreende? — Posso recusar qualquer um deles?

— Por que faria isso? — perguntou Yabu. — O Senhor Noboru os escolheu cuidadosamente.

— Claro, sinto muito — disse Blackthorne a Yabu, consciente do crescente mau humor do daimio. — Compreendo totalmente. Mas os que estão amarrados... o que acontece se eu os recusar?

— A cabeça deles será cortada. Naturalmente. O que tem isso a ver?

— Nada. Sinto muito.

— Siga-me. — Yabu dirigiu-se empertigado para a liteira. Blackthorne deu uma olhada em Mariko. — Posso partir. Ouviu só!

— Sim.

— Isso significa ... É quase como um sonho. Ele disse... — Anjin-san!

Obedientemente Blackthorne se apressou na direção de Yabu. Agora a liteira servia de estrado. Um escrevente armara uma mesa baixa, sobre a qual havia rolos de pergaminho. A pouca distância, samurais vigiavam uma pilha de adagas e espadas longas, lanças, escudos, machados, arcos e flechas, que alguns carregadores estavam descarregando de cavalos. Yabu fez sinal a Blackthorne que se sentasse ao seu lado, Alvito bem em frente e Mariko do outro lado. O escrevente chamou nomes. Cada homem se aproximou, curvou-se com formalidade, deu seu nome e linhagem, jurou fidelidade, assinou o pergaminho que lhe correspondia, e selou com uma gota de sangue que o escrevente ritualmente picou-lhe do dedo. Cada um se ajoelhou para Blackthorne uma última vez, depois se levantou e correu ao alfageme. Primeiro recebeu a espada mortífera, depois a adaga. Cada um aceitou as duas lâminas com reverência e examinou-as meticulosamente, expressando orgulho ante a sua qualidade, e enfiou-as ao sash com uma alegria selvagem. Depois recebeu outras armas e um escudo de guerra. Quando os homens tomaram seus novos lugares, completamente armados agora, samurais de novo e não mais ronins, estavam mais fortes, mais eretos e pareciam ainda mais ferozes.

Os ronins amarrados ficaram por último. Blackthorne insistiu em cortar pessoalmente as amarras de cada um. Um a um juraram fidelidade, conforme tinham feito todos os outros: — Pela minha honra de samurai, juro que os seus inimigos são os meus inimigos, e total obediência.

Depois de ter jurado, cada homem foi apanhar suas armas. Yabu chamou: — Uraga-noh-Tadamasa!

O homem avançou. Alvito ficou desconcertado. Uraga — Irmão José — estivera despercebido entre os samurais agrupados por perto. Estava desarmado e usava um quimono simples e um chapéu de bambu. Yabu sorriu malicioso ante a agitação de Alvito e voltou-se para Blackthorne. — Anjin-san. Este é Uraga-noh-Tadamasa. Samurai, agora ronin. Reconhece-o? Compreende "reconhecer"?

— Sim, compreendo. Sim, reconheço. — Bom. Antes padre cristão, neh? — Sim.

— Agora não. Compreende? Agora ronin. — Compreendo, Yabu-sama.

Yabu observou Alvito. O padre olhava fixamente o apóstata, que o encarava com ódio. — Ah, Tsukku-san, também o reconhece?

— Sim. Reconheço-o, senhor.

— Está pronto para traduzir de novo... ou perdeu a vontade para isso?

— Por favor, continue, senhor.

— Bom. — Yabu apontou para Uraga. — Ouça, Anjin-san, o Senhor Toranaga lhe dá este homem, se o quiser. Ele antes era padre cristão, um padre noviço. Agora não é. Agora abjurou ao falso deus estrangeiro e reconverteu-se à verdadeira fé xintoísta e... — Fez uma pausa, porque o padre parara de falar. — Disse exatamente isso, Tsukku-san? Verdadeira fé xintoísta?

O padre não respondeu. Suspirou, depois traduziu exatamente, acrescentando: — É o que ele diz, Anjin-san, que Deus o perdoe. — Mariko deixou passar sem comentário, odiando Yabu ainda mais, prometendo a si mesma vingar-se dele num dia muito breve.

Yabu observou-os, depois continuou: — Então Uraga-san não é mais um cristão. Agora está preparado para servi-lo. Sabe falar bárbaro e a língua particular dos padres, e foi um dos quatro jovens samurais enviados para as suas terras. Até conheceu o cristão chefe de todos os cristãos, como eles dizem — mas agora ele os odeia a todos, exatamente como o senhor, neh? — Yabu observava Alvito, engodando-o, os olhos esvoaçando na direção de Mariko, que ouvia de modo igualmente atento. — O senhor odeia os cristãos, Anjin-san, neh?

— A maioria dos católicos são meus inimigos, sim — respondeu ele, completamente consciente de Mariko, que olhava fixamente o vazio. — A Espanha e Portugal são inimigos do meu país, sim.

-— Os cristãos são nossos inimigos também. Hein, Tsukku-san?

— Não, senhor. E o cristianismo dá a chave para a vida imortal.

— Dá mesmo, Uraga-san? — disse Yabu.

Uraga balançou a cabeça. Sua voz soou áspera. — Não penso mais assim, senhor. Não.

— Diga ao Anjin-san.

— Senhor Anjin-san — disse Uraga, com uma pronúncia pesada, mas as palavras portuguesas corretas e facilmente compreensíveis —, não acredito que o catolicismo seja a trava, perdão, a chave da imortalidade.

— Sim — disse Blackthorne. — Concordo.

— Bom — continuou Yabu. — Portanto o Senhor Toranaga oferece-lhe este ronin, Anjin-san. É renegado, mas de boa família samurai. Uraga jura, se for aceito, que será seu secretário, tradutor, e fará qualquer coisa que o senhor queira. O senhor terá que lhe dar as espadas. O que mais, Uraga? Diga-lhe.

— Senhor, por favor, desculpe-me. Primeiro... — Uraga tirou o chapéu. Seu cabelo era restolho, a cabeça raspada ao estilo samurai, mas ele ainda não tinha o rabo-de-cavalo. — Primeiro, estou envergonhado de que o meu cabelo não esteja correto e não tenho rabo-de-cavalo como um samurai deve ter. Mas o cabelo crescerá e não sou menos samurai por isso. — Recolocou o chapéu. Disse a Yabu o que havia dito, e os ronins que estavam próximos e conseguiam escutar também ouviram atentamente. — Segundo, por favor, desculpe-me enormemente, mas não sei usar espadas... ou qualquer arma. Eu... eu nunca fui treinado nelas. Mas aprenderei, acredite-me, aprenderei. Por favor, desculpe a minha vergonha. Juro-lhe absoluta fidelidade e peço que me aceite... — O suor lhe escorria pelo rosto e pelas costas.

Blackthorne disse compadecidamente: — Shikata ga nai, neh? Ukeru anata wa desu, Uraga-san. O que importa isso? Eu o aceito, Uraga-san.

Uraga curvou-se, depois explicou a Yabu o que dissera. Ninguém riu. Exceto Yabu. Mas a sua risada foi interrompida pelo começo de uma alteração entre os últimos dois ronins sobre a escolha das espadas remanescentes. — Vocês dois, calem-se! — gritou ele.

Os dois giraram sobre os calcanhares e um vociferou: — Você não é meu amo! Onde estão as suas maneiras? Diga "por favor", ou cale a boca você!

Imediatamente Yabu se pôs de pé com um pulo e se precipitou sobre o ronin, espada em riste. Homens se dispersaram e o ronin saiu na disparada. Perto do ancoradouro, o homem sacou a espada com um puxão e abruptamente se voltou para o ataque, com um diabólico grito de batalha. Imediatamente todos os seus amigos arremeteram em seu socorro, espadas preparadas, e Yabu foi encurralado. O homem atacou. Yabu evitou uma violenta estocada, revidou, e errou, enquanto o grupo se lançava maciço à matança. Tarde demais os samurais de Toranaga se precipitaram, sabendo que Yabu era um homem morto.

— Parem! — gritou Blackthorne em japonês. Todos ficaram paralisados ante a potência da sua voz. — Vão lá! — Apontou para o local onde os homens estavam alinhados antes. — Agora! Ordem!

Por um instante todos os homens no ancoradouro permaneceram imóveis. Depois começaram a se mover. O encanto rompeu-se. Yabu lançou-se ao homem que o insultara. O ronin saltou para trás, moveu-se para o lado, a espada levantada acima da cabeça, nas duas mãos, esperando sem medo pelo próximo ataque. Seus amigos hesitaram.