— Vão lá! Agora! Ordem!
Relutante mas obedientemente, o resto dos homens recuou para fora do caminho, embainhando as espadas. Yabu e o homem andavam lentamente em círculo.
— Você! — gritou Blackthorne. — Pare! Baixe a espada! Ordeno!
O homem mantinha os olhos furiosos em Yabu, mas ouviu a ordem e umedeceu os lábios. Simulou investir pela esquerda, depois pela direita. Yabu recuou, e o homem deslizou para fora do seu alcance, correu para perto de Blackthorne e colocou a espada diante deste. — Obedeço, Anjin-san. Eu não o ataquei. — Quando Yabu investiu, ele se desviou com um pulo e recuou sem medo, mais veloz do que Yabu, mais jovem do que Yabu, escarnecendo dele.
— Yabu-san — chamou Blackthorne. — Sinto muito... acho foi engano, neh? Talvez...
Mas Yabu esguichou um jorro de palavras japonesas e atacou o homem, que disparou de novo, sem medo.
Alvito agora estava friamente divertido. — Yabu-san disse que não há engano, Anjin-san. Esse cabrón tem que morrer, diz ele. Nenhum samurai poderia aceitar tal insulto!
Blackthorne sentia todos os olhos sobre si enquanto desesperadamente tentava decidir o que fazer. Observou Yabu se aproximar cauteloso do homem. Bem à esquerda, um samurai de Toranaga assestou o arco. O único ruído era o dos dois arquejando, correndo e gritando um para o outro. O ronin recuou, depois se voltou e saiu correndo, em torno da clareira, ziguezagueando, dando voltas e pulos, o tempo todo mantendo um fluxo gutural e sibilante de insultos.
— Ele está iludindo Yabu, Anjin-san — disse Alvito. — Ele diz "Sou samurai ... não mato homens desarmados como você... você não é samurai, você é um camponês, esterco fedorento... ah, então é isso, você não é samurai, é eta, neh? Sua mãe era eta, seu pai era eta e... " — O jesuíta parou quando Yabu soltou um urro de cólera e apontou para um dos homens e gritou alguma coisa. — Yabu disse: "Você! Dê-lhe a espada!" O ronin hesitou e olhou para Blackthorne.
Blackthorne pegou a espada. — Yabu-san, peço não lutar — disse ele, desejando o outro morto. — Por favor, peço não lutar...
— Dê-lhe a espada!
Um murmúrio encolerizado percorreu os homens de Blackthorne. Ele levantou a mão. — Silêncio! — Olhou para o seu vassalo ronin. — Venha cá. Por favor! — O homem observou Yabu, negaceou à direita, à esquerda, e a cada vez Yabu golpeou com uma cólera desvairada, mas o homem conseguiu se esquivar e correr para junto de Blackthorne. Desta vez Yabu não o seguiu. Simplesmente esperou e observou, como um touro enlouquecido preparando o ataque. O homem curvou-se para Blackthorne e pegou a espada. Depois voltou-se para Yabu e, com um uivante grito de batalha, se arremessou ao ataque. Espadas chocaram-se e chocaram-se de novo. Agora os dois homens circulavam em silêncio. Houve outra troca frenética, as espadas cantando. Então Yabu tropeçou e o ronin arremeteu para a matança fácil. Mas Yabu habilmente se desviou e investiu. As mãos do homem, ainda agarrando a espada, foram decepadas. Por um momento o ronin se manteve ali, uivando, os olhos fixos nos cotos, depois Yabu cortou-lhe a cabeça.
Houve silêncio. Então um troar de aplausos envolveu Yabu. O daimio golpeou uma vez o corpo que se contorcia. Então, com a honra vingada, pegou a cabeça pelo topete, cuspiu cuidadosamente no rosto e atirou-a ao chão. Calmamente caminhou de volta para junto de Blackthorne e curvou-se.
— Por favor, desculpe-me os maus modos, Anjin-san. Obrigado por ter dado a espada a ele — disse, em voz polida, Alvito traduzindo. — Peço desculpas por haver gritado. Obrigado por me permitir banhar a minha espada em sangue com honra. Baixou os olhos para o legado que Toranaga lhe oferecera. Cuidadosamente examinou-lhe a ponta. Ainda estava perfeita. Desatou o sash de seda para limpar o sangue. — Nunca toque uma lâmina com os dedos, Anjin-san, isso a arruinaria. Uma lâmina deve sentir apenas seda, ou o corpo de um inimigo. — Parou e levantou os olhos. — Posso polidamente sugerir que o senhor permita aos seus vassalos testarem suas lâminas? Será um bom presságio para eles.
Blackthorne voltou-se para Uraga. — Diga-lhes isso.
Quando Yabu retornou a casa, o dia estava quase findando. Criados tiraram-lhe as roupas suadas, deram-lhe um quimono limpo e lhe calçaram tabis limpos. Yuriko, sua esposa, o esperava ao frescor da varanda com chá e saquê, escaldantes, do modo como ele gostava.
— Saquê, Yabu-san? — Yuriko era uma mulher alta e magra, com cabelo raiado de cinza. Seu quimono escuro de pobre qualidade realçava-lhe agradavelmente a pele bonita.
— Obrigado, Yuriko-san. — Yabu tomou o vinho apreciando a raspadela doce e áspera enquanto a bebida lhe descia pela garganta ressecada.
— Foi tudo bem, ouvi dizer. — Sim.
— Que impertinência daquele ronin!
— Ele me serviu bem, senhora, muito bem. Sinto-me ótimo agora. Mergulhei em sangue a espada de Toranaga e a fiz realmente minha. — Yabu terminou o cálice e ela o encheu de novo. Sua mão acariciou o punho da espada. — Mas a senhora teria apreciado a luta. Ele era uma criança... caiu na primeira armadilha.
Ela o tocou ternamente. — Estou contente de que tenha feito isso, marido.
— Obrigado, mas quase não me deu trabalho. — Yabu riu. — A senhora devia ter visto o padre! Teria ficado encantada de ver aquele bárbaro transpirando — eu nunca o tinha visto tão zangado. Estava tão furioso que quase sufocava para se conter. Canibal! São todos canibais. Pena que não haja meio de aniquilá-los antes de partirmos desta terra.
— Acha que o Anjin-san poderia fazer isso?
— Ele vai tentar. Com dez daqueles navios e dez dele, eu poderia controlar os mares daqui até Kyushu. Com apenas ele eu poderia prejudicar Kiyama, Onoshi e Harima, e esmagar Jikkyu e conservar Izu! Só precisamos de um pouco de tempo e logo cada daimio estará combatendo com o seu inimigo especial. Izu estaria segura e seria minha de novo! Não compreendo por que Toranaga vai deixar o Anjin-san partir. Outro desperdício estúpido! — Fechou o punho e socou-o no tatami. A criada sobressaltou-se mas não disse nada. Yuriko não fez o menor movimento. Um sorriso esvoaçou-lhe pelo rosto.
— Como foi que o Anjin-san encarou sua liberdade, e seus vassalos? — perguntou ela.
— Ficou tão feliz que parecia um velho sonhando que tinha um Yang com quatro pontas. Ele... ah, sim... — Yabu franziu o cenho, lembrando-se. — Mas houve uma coisa que ainda não compreendo. Quando aqueles wakos me cercaram, eu era um homem morto. Não há dúvida quanto a isso. Mas o Anjin-san os deteve e me devolveu a vida. Não havia razão para que ele fizesse isso, neh? Pouco antes, eu tinha visto o ódio escrito nele inteiro. Tão ingênuo fingir outra coisa... como se eu confiasse nele.
— Ele lhe deu a vida?
— Oh, sim. Estranho, neh?
— Sim. Muitas coisas estranhas estão acontecendo, marido. — Ela dispensou a criada, depois perguntou baixinho: — O que Toranaga realmente queria?
Yabu inclinou-se para a frente e sussurrou: — Acho que ele quer que eu me torne comandante-chefe.
— Por que ele faria isso? Punho de Aço está morrendo? — perguntou Yuriko. — E o Senhor Sudara? Ou Buntaro? Ou o Senhor Noboru?
— Quem sabe, senhora? Estão todos em desgraça, neh? Toranaga muda de idéia com tanta freqüência, que ninguém pode predizer o que ele fará agora. Primeiro me pediu que fosse em seu lugar ao ancoradouro e detalhou como queria que cada coisa fosse dita, depois falou sobre Hiromatsu, de como ele estava envelhecendo, e perguntou o que eu realmente pensava sobre o Regimento de Mosquetes.
— Ele poderia estar preparando Céu Carmesim de novo? — Isso está sempre pronto. Mas ele perdeu a Fruta para isso. Isso necessitará de liderança e habilidade. Antes ele a tinha, agora não. Agora é uma sombra do Minowara que foi. Fiquei chocado com a aparência dele. Sinto muito, cometi um erro. Deveria ter ido com Ishido.