— Toranaga nunca ousaria fazer isso! O táicum tentou e falhou, e era todo-poderoso. Os bárbaros partirão furiosos. Nunca comerciaremos de novo.
— Sim. Se nós o fizermos. Mas desta vez é bárbaro contra bárbaro, neh? Não tem nada a ver conosco. E digamos que o Anjin-san ataque Nagasaki e lhe ateie fogo. Harima não é hostil agora, e Kiyama e Onoshi e, por causa deles, a maioria dos daimios de Kyushu? Digamos que o Anjin-san queime alguns dos seus outros portos, pilhe a navegação deles, e ao mesmo tempo... — E ao mesmo tempo Toranaga desencadeie Céu Carmesim! exclamou Yabu.
— Sim. Oh, sim — concordou Yuriko, exultante. — Isso não explica Toranaga? Essa intriga não se ajusta a ele como a própria pele? Não está fazendo o que sempre fez, apenas esperando como sempre, jogando para ganhar tempo como sempre, um dia aqui, um dia ali, e logo um mês se passa e novamente ele tem uma força esmagadora para arrasar toda oposição? Ele já ganhou quase um mês desde que Zataki trouxe a convocação a Yokosé.
Yabu podia ouvir o pulso explodindo-lhe nos ouvidos. — Então estamos salvos?
— Não, mas não estamos perdidos. Acredito que não haverá rendição. — Ela hesitou. — Mas todo mundo ficou desapontado. Oh, ele é tão inteligente, neh? Todo mundo logrado como nós. Até esta noite. Omi me deu as chaves. Todos nos esquecemos de que Toranaga é um grande ator, que pode usar o próprio rosto como uma máscara, se necessário, neh?
Yabu tentou ordenar os pensamentos, mas não conseguia. — Mas Ishido ainda tem o Japão inteiro contra nós!
— Sim. Menos Zataki. E deve haver outras alianças secretas. Toranaga e o senhor podem defender as passagens até o momento certo.
— Ishido tem o Castelo de Osaka, o herdeiro e o tesouro do táicum.
— Sim. Mas ficará escondido lá dentro. Alguém o trairá. — O que devo fazer?
— O contrário de Toranaga. Deixe-o esperar, o senhor deve apertar o passo.
— Como?
— O primeiro a fazer, senhor, é isto: Toranaga se esqueceu de uma coisa que o senhor notou esta tarde. A fúria do Tsukku-san! Por quê? Porque o Anjin-san ameaça o futuro dos cristãos, neh? Por isso o senhor tem que colocar o Anjin-san sob a sua proteção imediatamente, porque aqueles padres ou seus fantoches vão assassiná-lo dentro de horas. Depois: o Anjin-san necessita de que o senhor o proteja e guie, que o ajude a conseguir a nova tripulação em Nagasaki. Sem o senhor e seus homens, ele fracassará. Sem ele e o navio dele, os canhões e mais bárbaros, Nagasaki não arderá, e isso tem que acontecer, ou Kiyama, Onoshi e Harima, e os padres imundos não serão distraídos para temporariamente retirar seu apoio de Ishido. Nesse meio tempo, Toranaga, agora miraculosamente apoiado por Zataki e seus fanáticos, com o senhor comandando o Regimento de Mosquetes, atravessa os desfiladeiros de Shinano, descendo para as planícies de Kyoto. — Sim. Sim, tem razão, Yuriko-chan! Tem que ser assim. Oh, a senhora é tão inteligente, tão sábia!
— A sabedoria e a sorte não são boas sem os meios de pôr um plano em prática, senhor. Apenas o senhor pode fazer isso — o senhor é o líder, o lutador, o general de batalha, é o senhor que deve vê-lo esta noite.
— Não posso ir a Toranaga e dizer-lhe que vi por entre a astúcia dele, neh?
— Não, mas dirá que tem que razão plausível.
— Mas se o Anjin-san atacar Nagasaki e o Navio Negro, eles não vão parar de comerciar e partir?
— Sim. Possivelmente. Mas isso será no ano que vem. Pelo ano que vem Toranaga será um regente, presidente dos regentes. E o senhor o comandante-chefe dele.
Yabu caiu das nuvens. — Não — disse com firmeza. — Assim que tiver o poder, ele me ordenará que cometa seppuku.
— Muito antes disso o senhor terá o Kwanto. Os olhos dele piscaram. — Como?
— Toranaga na realidade nunca dará o Kwanto ao meio irmão. Zataki é uma ameaça perpétua. É um homem selvagem, cheio de orgulho, neh? Será muito difícil para Toranaga manobrar Zataki no sentido de que ele peça a posição avançada na batalha. Se Zataki não for morto... talvez uma bala ou seta extraviada? Provavelmente uma bala. O senhor deve comandar o Regimento de Mosquetes na batalha, senhor.
— Por que eu não seria atingido por uma bala extraviada, igualmente?
— Talvez seja, senhor. Mas não é parente de Toranaga e ameaça ao poder dele. O senhor se tornará o seu mais devoto vassalo. Ele precisa de generais de combate. O senhor merecerá o Kwanto, e esse deve ser o seu único objetivo. Ele o dará ao senhor quando Ishido for traído, porque tomará Osaka para si.
— Vassalo? Mas a senhora disse para esperar e logo eu...
— Agora o aconselho a apoiá-lo com todas as forças. Não seguir as ordens dele cegamente, como o velho Punho de Aço, mas com inteligência. Não se esqueça, Yabu-chan, balas extraviadas são coisas que acontecem. Enquanto comandar o regimento, o senhor poderá escolher, também... a qualquer momento, neh?
— Sim — disse ele, admirado com ela.
— Lembre-se, Toranaga é digno de ser seguido. É Minowara, Ishido é camponês. Ishido é o idiota. Posso ver isso agora. Ishido deve estar forçando os portões de Odawara agora, com chuva ou sem chuva. Omi-san não disse isso também, meses atrás. Odawara não é insuficientemente equipada? Toranaga não está isolado? Yabu martelou o punho no chão, encantado.
— Então é a guerra, afinal! Como a senhora é esperta de ver através dele! Ah, então esteve fazendo o papel de raposa o tempo todo, neh?
— Sim — disse ela, enormemente satisfeita.
Mariko chegara à mesma surpreendente conclusão, embora não a partir dos mesmos fatos. Toranaga deve estar fingindo, jogando um jogo secreto, raciocinou ela. É a úmica explicação possível para o seu comportamento inacreditável — dar ao Anjin-san o dinheiro, o navio, todos os canhões e a liberdade na frente do Tsukku-san. Agora o Anjin-san com certeza irá contra o Navio Negro. Ele o tomará, e ameaçará o do próximo ano, e em conseqüência prejudicará a Santa Igreja e forçará os santos padres a conpelirem Kiyama e Onoshi a traírem Ishido...
Mas por quê? Se isso for verdade, pensou ela, perplexa, e Toranaga estiver considerando um plano de longo alcance assim, então é claro que ele não pode ir a Osaka e se curvar diante de Ishido, neh? Ele deve... Ah! E o adiamento de hoje que Hiromatsu convenceu Toranaga a fazer? Oh, minha Nossa Senhora nas alturas, Toranaga nunca pretendeu se render! É tudo um truque.
Por quê? Para ganhar tempo. Para conseguir o que? Esperar e tramar não importa o quê, só que Toranaga tem mil truques mais, e é mais uma vez o que sempre foi: o todo-poderoso titeriteiro.
Quanto tempo até que a paciência de Ishido se esgote e ele levante o estandarte de batalha e se mova contra nós? Um mês. Não mais do que isso. — No máximo dois meses? Não sei — Então, só pelo nono mês deste quinto ano de Keicho, a batalha pelo Kwanto começa.
Mas o que Toranaga ganhou foi para os dois, sei que agora meu filho tem uma chance de herdar os seus dez mil kokus, e de viver e ter filhos, e agora, talvez, a estirpe de meu pai não desaparecerá da face da Terra.
Ela saboreou o seu conhecimento recém-descoberto, brincando com ele, examinando-o, considerando a sua lógica impecável.
Mas o que fazer até lá? perguntou-se ela. Nada além do que você tem feito — e decidiu fazer. Neh?
— Ama?
— Sim, Chimmoko?
— Gyoko-san está aqui. Ela diz que tem um encontro.
— Ah, sim. Esqueci de lhe dizer. Primeiro aqueça o saquê, depois traga-o para cá, e depois ela.