Mariko refletiu sobre a tarde. Lembrou-se dos braços dele ao seu redor, tão seguros, quentes e fortes. — Posso vê-Ia esta noite? — perguntara ele cautelosamente, depois que Yabu e Tsukku-san se tinham ido.
— Sim — dissera ela impulsivamente. — Sim, meu querido. Oh, como sou feliz por você. Diga a Fujiko-san... peça-lhe que me mande chamar depois da hora do Javali.
No silêncio da casa, sua garganta se contraiu. Tanta tolice e risco.
Examinou a maquilagem e o penteado no espelho e tentou se compor. Passos se aproximaram. A shoji se abriu. — Ah, senhora — disse Gyoko, curvando-se profundamente. -— Que gentil da sua parte me receber.
— Seja bem-vinda, Gyoko-san. Tomaram saque, Chimmoko servindo-as. — Que louça adorável, senhora. Tão bonita.
Tiveram algum tempo de conversação polida, depois Chimmoko foi mandada embora.
— Sinto muito, Gyoko-san, mas o nosso amo não foi esta tarde. Não o vi, embora eu espere vê-lo antes de partir.
— Sim, ouvi dizer que Yabu-san foi ao embarcadouro no lugar dele.
— Quando eu vir Toranaga-sama, pedirei a ele mais uma vez. Mas receio que sua resposta seja a mesma. — Mariko serviu saque para ambas. — Sinto muito, ele não concederá o meu pedido.
— Sim, acredito. A menos que haja uma grande pressão. — Não há pressão que eu possa usar. Sinto muito.
— Sinto muito também, senhora.
Mariko pousou o cálice. — Então a senhora resolveu que algumas línguas não são seguras.
— Se eu fosse cochichar segredos a seu respeito — disse Gyoko asperamente —, diria isso na sua cara? Considera-me tão ingênua?
— Talvez seja melhor que a senhora vá embora, sinto muito. Tenho muito o que fazer.
— Sim, senhora, eu também tenho! — replicou Gyoko, a voz ríspida. — O Senhor Toranaga me perguntou, na minha cara, o que eu sabia sobre a senhora e o Anjin-san. Esta tarde. Eu lhe disse que não existia nada entre os dois. Eu disse: "Oh, sim, senhor, também ouvi os abomináveis rumores, mas não há verdade neles. Juro pela cabeça do meu filho, senhor, e pelos filhos dele. Se houvesse alguém para saber, com certeza seria eu. O senhor pode crer que é tudo uma mentira maliciosa — tagarelice, tagarelice invejosa, senhor..." Oh, sim, senhora, pode acreditar que fiquei convenientemente chocada, minha atuação foi perfeita e ele ficou convencido. — Gyoko tragou o saque, e acrescentou amarga: — Agora estamos todos arruinados se ele conseguir provas... o que não seria difícil de conseguir. Neh?
— Como?
— Ponha o Anjin-san à prova... com métodos chineses. Chimmoko — com métodos chineses. Eu, Kiku-san. Yoshinaka... sinto muito, até a senhora — com métodos chineses.
Mariko tomou fôlego profundamente. — Posso... posso lhe perguntar... por que decidiu correr esse risco?
— Porque em certas situações as mulheres devem se proteger mutuamente contra os homens. Porque na realidade eu não vi nada. Porque a senhora não me fez mal. Porque eu gosto da senhora e do Anjin-san e acredito que ambos têm seus próprios karmas. E porque prefiro tê-la viva como amiga a tê-la morta, e é excitante vê-los fazer circular a chama da vida.
— Não acredito na senhora.
Gyoko riu suavemente. — Obrigada, senhora. — Controlada agora, disse com completa sinceridade: — Muito bem, eu lhe direi a razão real. Preciso da sua ajuda ainda. Sim. Toranaga-sama não me concederá o pedido, mas talvez a senhora possa pensar num jeito. A senhora é a única chance que jamais tive, que jamais terei nesta vida, e não posso perdê-la levianamente. Pronto, agora sabe. Por favor, humildemente lhe peço que me ajude com a minha solicitação. — Colocou as duas mãos sobre os futons e se curvou profundamente. — Por favor, desculpe a minha impertinência, Senhora Toda, mas tudo o que tenho será posto ao seu dispor se me ajudar. — Depois acomodou-se sobre os calcanhares, arrumou as dobras do quimono, e terminou o saque.
Mariko tentou pensar direito. Sua intuição lhe dizia que confiasse na mulher, mas sua mente ainda estava parcialmente aturdida com a compreensão recente sobre Toranaga e com o alívio por Gyoko não a ter denunciado, conforme esperara, por isso resolveu pôr a decisão de lado, para consideração posterior.
— Sim, tentarei. A senhora tem que me dar tempo, por favor.
— Posso lhe dar coisa melhor. Eis um fato: conhece os Amida Tong? Os assassinos?
— O que há com eles?
— Lembra-se daquele no Castelo de Osaka, senhora? Ia atacar o Anjin-san mesmo, não Toranaga-sama. O copeiro-chefe do Senhor Kiyama deu dois mil kokus por aquele atentado.
— Kiyama? Mas por quê?
— Ele é cristão, neh? O Anjin-san era o inimigo até então, neh? Se era naquela altura, o que não se dirá de agora? Agora que o Anjin-san é samurai e está livre, com seu navio.
— Outro Amida? Aqui?
Gyoko sacudiu os ombros. — Quem sabe? Mas eu não daria a tanga de um eta pela vida do Anjin-san se ele for descuidado fora do castelo.
— Onde está ele agora?
— Nos seus aposentos, senhora. Vai visitá-lo logo, neh? Talvez fosse bom preveni-lo.
— A senhora parece saber de tudo o que acontece, Gyoko-san!
— Conservo os ouvidos abertos, senhora, e os olhos. Mariko controlou a preocupação com Blackthorne. — Falou isso a Toranaga-sama?
— Oh, sim, falei. — Os cantos dos olhos de Gyoko se enrugaram enquanto ela sorvia o saquê. — Na realidade, não acho que ele tenha ficado surpreso. Interessante, não acha?
— Talvez a senhora se tenha enganado.
— Talvez. Em Mishima ouvi um boato de que havia uma trama para envenenar o Senhor Kiyama. Terrível, neh?
— Que trama?
Gyoko contou-lhe os detalhes.
— Impossível! Um daimio cristão nunca faria isso a outro! Mariko encheu os cálices.
— Posso perguntar o que mais foi dito, pela senhora e por ele?
— Em parte, senhora, a minha súplica para recuperar o favor dele e sair daquela hospedaria infestada de pulgas, e com isso ele concordou. Agora devemos ter alojamentos adequados dentro do castelo, perto do Anjin-san, numa das casas de hóspedes, e posso ir e vir como quiser. Ele pediu que Kiku-san o distraísse esta noite e isso é outra melhora, embora nada o vá tirar daquela melancolia. Neh? — Gyoko observava Mariko especulativamente. Mariko mantinha o rosto inocente, e simplesmente assentiu. A mulher suspirou e continuou. — Sim, ele está muito triste. É uma pena. Parte de tempo foi gasto com os três segredos. Ele me pediu que repetisse o que eu sabia.
Ah, pensou Mariko, outra peça que se encaixa perfeitamente. Ochiba? Então foi essa a isca para Zataki. E Toranaga também tem um porrete sobre a cabeça de Omi, se necessário, e uma arma a usar contra Onoshi com Harima, ou mesmo Kiyama.
— Está sorrindo, senhora?
Oh sim, queria Mariko dizer, desejando compartilhar o seu júbilo com Gyoko. Como a sua informação deve ter sido valiosa para o nosso amo, queria ela dizer a Gyoko. Agora ele deve recompensá-la! A senhora mesma devia ser promovida a daimio! E como Toranaga-sama é fantástico: ouviu com tanto desinteresse aparente! Como ele é maravilhoso!
Mas Toda Mariko-noh-Buntaro apenas meneou a cabeça e disse calmamente: — Sinto muito que a sua informação não o tenha animado.
— Nada do que eu disse lhe melhorou o humor, que estava sombrio e derrotado. Triste, neh?
— Sim, sinto muito.
— Sim. — Gyoko fungou. — Outra informação antes de partir, para interessá-la, senhora, para cimentar a nossa amizade. É muito possível que o Anjir-san seja muito fértil.
— O quê?
— Kiku-san está grávida. — Do Anjin-san?
— Sim. Ou do Senhor Toranaga. Possivelmente de Omi-san. Todos estiveram dentro do período de tempo correto. Naturalmente ela tomou precauções depois de Omi-san, como sempre, mas como a senhora sabe, nenhum método é perfeito, nada é garantido sempre, os enganos acontecem, neh? Ela acha que esqueceu depois do Anjin-san, mas não tem certeza. Foi no dia em que o mensageiro chegou a Anjiro e na animação de partir para Yokosé e da compra do contrato dela pelo Senhor Toranaga — é compreensível, neh? — Gyoko ergueu as mãos, grandemente perturbada. — Depois do Senhor Toranaga, por sugestão minha, ela fez o contrário. Também acendemos bastões de incenso, nós duas, e rezamos por um menino.