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Mariko estudou a estampa do seu leque. — Quem? Quem a senhora acha que foi?

— Esse é o problema, senhora. Não sei. Eu ficaria grata pelo seu conselho.

— Esse começo deve ser interrompido. Naturalmente. Não há risco para ela.

— Concordo. Infelizmente Kiku-san não concorda.

— O quê? Estou abismada, Gyoko-san! Claro que ela deve. Ou o Senhor Toranaga deve ser informado. Afinal de contas, aconteceu depois de ele...

— Talvez tenha acontecido, senhora.

— O Senhor Toranaga terá que ser informado. Por que Kiku-san é tão desobediente e tola?

— Karma, senhora. Ela quer um filho. — Filho de quem?

— Ela não dirá. Tudo o que disse foi que qualquer um dos três tinha vantagens.

— Ela seria prudente em deixar esse ir-se e ter certeza na próxima vez.

— Concordo. Pensei que a senhora devia saber para o caso... Há muitos e muitos dias antes que qualquer coisa apareça ou antes que um aborto fosse risco para ela. Talvez mude de idéia. Nisso não posso forçá-la. Não é mais propriedade minha, embora, por enquanto, eu esteja tentando tomar conta dela. Seria esplêndido se a criança fosse do Senhor Toranaga. Mas digamos que tenha olhos azuis... Um último conselho, senhora: diga ao Anjin-san que confie nesse Uraga-noh-Tadamasa apenas por enquanto, e nunca em Nagasaki. Nunca lá. A lealdade final desse homem será sempre para o tio, o Senhor Harima.

— Como descobre essas coisas, Gyoko-san?

— Os homens precisam cochichar segredos, senhora. É isso o que os faz diferentes de nós — precisam compartilhar segredos, mas nós, mulheres, só os revelamos para obter alguma vantagem. Com um pouco de prata e um ouvido preparado — e eu tenho os dois, é tudo muito fácil. Sim. Os homens precisam compartilhar segredos. É por isso que lhes somos superiores e eles estarão sempre em nosso poder.

CAPÍTULO 51

Na escuridão, pouco antes do amanhecer, o rastrilho de um portão lateral ergueu-se sem ruído e dez homens atravessaram rapidamente a estreita ponte levadiça do fosso interno. A grade de ferro fechou-se atrás deles. Na extremidade oposta da ponte, as sentinelas alertas deliberadamente voltaram as costas e permitiram que os homens passassem ilesos. Todos usavam quimonos escuros e chapéus cônicos, e seguravam com firmeza as espadas: Naga, Yabu, Blackthorne, Uraga-noh-Tadamasa, e seis samurais. Naga ia na dianteira, Yabu atrás dele, conduzindo-os certeiramente através de um labirinto de desvios laterais, escadas acima e escadas abaixo, e por passagens pouco usadas. Quando topavam com patrulhas ou sentinelas — sempre alerta, Naga levantava um símbolo de prata e o grupo era autorizado a passar, sem estorvo e sem perguntas.

Por tortuosos caminhos secundários, Naga levou-os ao portão principal sul, que era o único caminho sobre o primeiro grande fosso do castelo. Ali uma companhia de samurais os aguardava.

Silenciosamente esses homens rodearam o grupo de Naga, protegendo-o, e juntos atravessaram a ponte às pressas. Sempre sem serem interceptados. Prosseguiram, descendo a leve elevação que levava à Primeira Ponte, mantendo-se tão próximos quanto possível das sombras deixadas pelos archotes que abundavam perto do castelo. Uma vez do outro lado da Primeira Ponte, tomaram a direção sul e desapareceram num labirinto de vielas, rumando para o mar.

Exatamente junto ao cordão que cercava o atracadouro do Erasmus, os samurais acompanhantes pararam e fizeram sinal aos dez que avançassem, depois saudaram, deram meia-volta e se fundiram na escuridão de novo.

Naga tomou a dianteira por entre as barreiras. Foram admitidos sobre o molhe sem comentários. Havia mais archotes e guardas ali do que antes.

— Está tudo pronto? — perguntou Yabu, assumindo o comando agora.

— Sim, senhor — respondeu o samurai mais velho. — Bom. Anjin-san, o senhor compreendeu?

— Sim, obrigado, Yabu-san. — Bom. É melhor se apressar. Blackthorne viu seus próprios samurais alinhados descuidadamente de um lado, e com um gesto mandou Uraga juntar-se a eles conforme fora combinado previamente. Seus olhos percorreram o navio, examinando e reexaminando enquanto corria para bordo e exultante se erguia no seu tombadilho. O céu ainda estava escuro, sem sinal de alvorecer. Todos os sinais indicavam um ótimo dia, com mares calmos.

Olhou para o embarcadouro, atrás, Yabu e Naga mergulhados numa conversa, Uraga explicando aos seus vassalos o que estava acontecendo. Então as barreiras se abriram de novo e Baccus van Nekk e o resto da tripulação, todos obviamente apreensivos, entraram aos tropeções na clareira, rodeados de guardas cáusticos. Blackthorne dirigiu-se à amurada e gritou: — Ei! Subam a bordo!

Quando o viram, seus homens pareceram menos receosos, e começaram a correr, mas os guardas os cobriram de imprecações e eles pararam.

— Uraga-san! — gritou Blackthorne. — Diga-lhes que deixem meus homens subir a bordo. Imediatamente. — Uraga obedeceu com vivacidade. Os samurais ouviram e se curvaram na direção do navio, e soltaram a tripulação.

Vinck foi o primeiro a chegar, Baccus arrastando-se por último. Os homens ainda estavam assustados, mas nenhum subiu ao tombadilho, que era domínio exclusivo de Blackthorne.

— Grande Jesus, piloto! — arquejou Baccus, por sobre o tumulto de perguntas.

— O que está acontecendo?

— O que há de errado, piloto? — ecoou Vinck, com os outros. — Cristo, estávamos dormindo, e de repente tudo explodiu, a porta se escancarou e os macacos estavam nos fazendo marchar para cá...

Blackthorne ergueu a mão. — Ouçam! — Quando houve silêncio, começou calmamente: — Vamos levar o Erasmus para uma enseada segura do outro lado do...

— Não temos homens suficientes, piloto — exclamou Vinck, ansioso. — Nunca...

— Ouça, Johann! Vamos ser rebocados. O outro navio estará aqui a qualquer momento. Ginsel, vá para a proa — você indicará o rumo. Vinck, tome o leme, Jan Roper e Baccus, cuidem da cabresteira de proa, Salamon e Croocq à popa. Sonk, desça e verifique as nossas provisões. Providencie um pouco de grogue, se conseguir encontrar. Mãos à obra!

— Espere um minuto, piloto! — disse Jan Roper. — Para que toda a pressa? Aonde vamos e por quê?

Blackthorne sentiu uma onda de indignação por ser questionado, mas lembrou-se de que eles tinham o direito de saber, não eram vassalos nem etas, mas a sua tripulação, seus companheiros de bordo e, em alguns aspectos, quase sócios. — Este é o começo da estação das tempestades. Que eles chamam de tai-funs, grandes tempestades. Este atracadouro não é seguro. Do outro lado da enseada, algumas léguas ao sul, fica o melhor e mais seguro ancoradouro deles. É perto de uma aldeia chamada Yokohama. O Erasmus estará seguro lá e poderá enfrentar qualquer tempestade. Agora mãos à obra!

Ninguém se moveu.

— Apenas algumas léguas, piloto? — disse Van Nekk. — Sim.

-— Para quê, então? E, bem, para que a pressa?

— O Senhor Toranaga concordou em me deixar fazer isso agora — respondeu Blackthorne, dizendo meia verdade. — Quanto mais depressa, melhor, pensei eu. Ele pode mudar de idéia novamente, neh? Em Yokohama... — Desviou o olhar quando Yabu subiu a bordo, com seus seis guardas. Os homens saíram às pressas do seu caminho.

— Jesus — exclamou Vinck, a voz sufocada. — É ele! É o bastardo que liquidou Pieterzoon!

Yabu aproximou-se do tombadilho, sorrindo largamente, sem notar o terror que contaminou a tripulação ao reconhecê-lo. Apontou para o mar. — Anjin-san, olhe! Lá! Está tudo perfeito, neh?

Uma galera parecida com uma monstruosa lagarta marinha movia-se silenciosamente na direção deles, saída da escuridão. — Bom, Yabu-sama! Quer subir aqui?