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— Sim — dissera ela, igualmente feliz. — Podemos confiar nele.

O ancoradouro em Yedo estava deserto agora. Os últimos guardas samurais estavam desaparecendo pelas vielas, retornando ao castelo. O Padre Alvito surgiu das sombras, com o Irmão Miguel ao lado. Alvito olhou na direção do mar. — Que Deus o amaldiçoe e a todos os que navegam nele.

— Menos um, padre. Um dos nossos navega no navio. E Naga-san jurou que se tornará cristão no primeiro mês do próximo ano.

— Se houver um próximo ano para ele — disse Alvito, sombrio. — Não sei sobre Naga, talvez fale a sério, talvez não. Aquele navio vai nos destruir e não há nada que possamos fazer. — Deus nos ajudará.

— Sim, mas enquanto isso somos soldados dele e temos que ajudá-lo. O padre-inspetor deve ser prevenido imediatamente, e o capitão-mor. Já encontrou um pombo-correio para Osaka?

— Não, padre, por dinheiro algum. Nem para Nagasaki. Meses atrás Toranaga-sama ordenou que todos os pombos fossem colocados sob a sua guarda.

O abatimento de Alvito se acentuou. — Deve haver alguém que tenha um! Pague o que for necessário. O herege vai nos prejudicar terrivelmente, Miguel.

— Talvez não, padre.

— Por que eles estão levando o navio? Claro que por segurança, mas mais para colocá-lo fora do nosso alcance. Por que Toranaga deu ao herege duzentos wakos e o seu dinheiro de volta? Claro que para usá-lo como uma força de combate, e o dinheiro é para comprar mais piratas atiradores e marujos. Por que dar a liberdade a Blackthorne? Para nos destruir através do Navio Negro. Deus nos ajude, Toranaga também nos abandonou! — Nós o abandonamos, padre.

— Não há nada que possamos fazer para ajudá-lo! Tentamos tudo com os daimios. Estamos indefesos.

— Talvez, se orássemos mais intensamente, Deus nos mostrasse um caminho.

— Eu rezo e rezo, mas... talvez Deus nos tenha abandonado, Miguel, com razão. Talvez não sejamos dignos da sua mercê. Eu sei que não sou.

— Talvez o Anjin-san não encontre atiradores ou marujos. Talvez nunca chegue a Nagasaki.

— A prata que ele tem comprará todos os homens de que necessita. Até católicos — até portugueses. Os homens tolamente pensam mais neste mundo do que no outro. Não vão abrir os olhos. Vendem a alma facilmente demais, todos eles. Sim. Rezo para que Blackthorne não chegue nunca lá. Ou os emissários dele. Não se esqueça, não há necessidade alguma de que ele vá até lá. Os homens poderiam ser contratados e trazidos a ele. Venha, vamos para casa agora.— Desanimado, Alvito tomou a dianteira na direção da missão jesuítica, que ficava a uma milha e pouco a oeste, perto dos cais, atrás de um dos grandes depósitos que normalmente abrigavam as sedas e o arroz da estação, e formavam parte do complexo comercial que os jesuítas dirigiam em nome de comprador e vendedor.

Caminharam um pouco pela praia, então Alvito parou e olhou para o mar de novo. A manhã estava rompendo. Ele não conseguiu ver nada dos navios. — Que chance tem a nossa mensagem de ser entregue? — Na véspera Miguel descobrira que um dos novos vassalos de Blackthorne era cristão. Quando, na noite passada, correra a notícia, através da rede clandestina de Yedo, de que alguma coisa ia acontecer com o Anjin-san e o seu navio, Alvito rapidamente escrevera uma mensagem cifrada para Dell'Aqua, dando todas as últimas notícias, e implorara ao homem que a entregasse secretamente, se conseguisse atingir Osaka.

— A mensagem chegará — acrescentou o Irmão Miguel calmamente. — O nosso homem sabe que navega com o inimigo. — Que Deus olhe por ele e lhe dê forças e amaldiçoe Uraga. — Alvito olhou de soslaio para o homem mais jovem. — Por quê? Por que ele se tornou apóstata?

— Ele lhe disse, padre — respondeu o Irmão Miguel. — Queria ser padre, ordenado na nossa Companhia. Isso não era pedir muito, para um orgulhoso servidor de Deus.

— Ele era orgulhoso demais, irmão. Deus, na sua sabedoria, tentou-o e encontrou-o desejando.

— Sim. Rezo para não ser encontrado desejando, quando chegar a minha vez.

Alvito desviou da missão, tomando a direção do grande terreno que fora designado por Toranaga para a catedral que logo se ergueria do chão para a glória de Deus. O jesuíta já conseguia vê-Ia mentalmente, alta, majestosa embora delicada, dominando a cidade, sinos incomparáveis trazidos de Macau ou Goa, ou até de Portugal, tocando as mudanças de hora, as imensas portas de bronze sempre escancaradas para a aristocracia fiel. Podia sentir o odor do incenso e ouvir o som dos cânticos em latim.

Mas a guerra destruirá esse sonho, disse a si mesmo. A guerra virá de novo para assolar este país, e será como nunca foi antes. — Padre! — sussurrou o Irmão Miguel, chamando-lhe a atenção.

Uma mulher estava à frente deles, olhando para as fundações iniciais que já tinham sido marcadas e parcialmente escavadas. A seu lado estavam duas criadas. Alvito esperou sem fazer ruído, observando na meia-luz. A mulher estava velada e ricamente vestida. Então o Irmão Miguel se moveu ligeiramente. Seu pé tocou uma pedra e a fez chocar-se ruidosamente contra uma pá de ferro, invisível na escuridão. A mulher voltou-se, surpresa. Alvito reconheceu-a.

— Mariko-san? Sou eu, o Padre Alvito.

— Padre? Oh, eu ia... eu estava mesmo indo vê-lo. Vou partir brevemente, mas queria conversar com o senhor antes. Alvito aproximou-se. — Estou contente em vê-Ia, Mariko-san. Sim. Ouvi dizer que vai partir. Tentei vê-Ia diversas vezes, mas, no momento, o castelo ainda me está proibido. — Sem dizer palavra, Mariko baixou os olhos para as bases da catedral. Alvito olhou para o Irmão Miguel, que também estava espantado de que uma senhora de tanta importância estivesse tão insuficientemente acompanhada, vagando por ali tão cedo e sem ser anunciada.

— Veio aqui apenas para me ver, Mariko-san? — Sim. E para ver o navio partir.

— O que posso fazer pela senhora? — Gostaria de me confessar.

— Então que seja aqui — disse ele. — Que a sua confissão seja a primeira neste lugar, embora o terreno mal esteja consagrado.

— Por favor, desculpe-me, mas o senhor poderia dizer missa aqui, padre?

— Não há igreja ou altar ou paramentos ou eucaristia. Eu poderia fazer isso na nossa capela se a senhora...

— Não poderíamos tomar chá numa xícara vazia, padre? Por favor — pediu ela, numa voz minúscula. — Sinto muito por pedir, padre. Há tão pouco tempo.

— Sim — concordou ele, compreendendo-a imediatamente. Então caminhou para o ponto onde um dia, talvez, ficaria o altar, dentro da nave magnífica, sob um teto em abóbada. Naquele dia o céu clareando era o teto, e os pássaros e o som da rebentação, o coro majestoso. Começou a entoar a beleza solene da missa e o Irmão Miguel ajudou, e juntos trouxeram o infinito à terra.

Mas antes de oferecer o simulacro de sacramento, ele parou e disse: — Agora devo ouvir a confissão, Maria. — Fez sinal ao Irmão Miguel para que se afastasse, sentou-se sobre uma pedra, dentro de um confessionário imaginário, e fechou os olhos. Ela se ajoelhou. — Diante de Deus...

— Antes de começar, padre, quero pedir um favor. — Meu ou de Deus, Maria?

— Peço um favor, diante de Deus. — Qual é o favor?

— A vida do Anjin-san em troca de informação.

— A vida dele não é minha para que eu a dê ou retire.

— Sim. Sinto muito, mas poderia ser divulgada uma ordem entre todos os cristãos de que a vida dele não deve ser tirada como sacrifício a Deus.

— O Anjin-san é o inimigo. Um terrível inimigo da nossa fé. — Sim. Ainda assim, peço pela vida dele. Em troca ... em troca talvez eu possa ser de grande auxílio.

— Como?

— Meu favor está concedido, padre? Diante de Deus?

— Não posso conceder tal favor. Não cabe a mim dar ou retirar. A senhora não pode negociar com Deus.

Mariko hesitou, ajoelhada sobre a terra dura diante dele. Depois se curvou e começou a se levantar. — Muito bem. Então, por favor, descu...