— Apresentarei a solicitação ao padre-inspetor — disse Alvito.
— Isso não basta, padre, por favor, desculpe-me.
— Apresentarei o pedido a ele e lhe rogarei em nome de Deus que o considere.
— Se o que eu lhe disser for muito valioso, o senhor, diante de Deus, jurará que fará tudo o que estiver em seu poder, tudo para socorrê-lo e protegê-lo, desde que não seja diretamente contra a Igreja?
— Sim. Se não for contra a Igreja.
— E, sinto muito, concorda em apresentar a minha solicitação ao padre-inspetor?
— Diante de Deus, sim.
— Obrigada, padre. Ouça, então... — Contou-lhe seu raciocínio sobre Toranaga e o embuste.
De repente tudo se encaixou no lugar para Alvito. — A senhora tem razão, tem que ter razão! Deus me perdoe, como pude ser tão estúpido?
— Por favor, ouça, padre, há mais segredos sobre Zataki e Onoshi.
— Isso não é possível!
— Também há os rumores de que o Senhor Onoshi planeja envenenar o Senhor Kiyama. — Impossível!
— Por favor, desculpe-me, é muito possível. Eles são inimigos de longa data.
— Quem lhe contou tudo isso, Maria? — O boato é que Onoshi envenenará durante a festa de São Bernardo, este ano — o Senhor Kiyama disse Mariko, cansada, deliberadamente não respondendo à pergunta. — O filho de Onoshi será o novo senhor de todas as terras de Kiyama. O General Ishido concordou com isso, desde que meu amo já tenha partido para o Grande Vazio.
— Prova, Mariko-san? Onde está a prova?
— Sinto muito, não tenho nenhuma. Mas o Senhor Harima está a par da informação.
— Como a senhora sabe disso? Como Harima sabe? Diz que ele faz parte da conspiração?
— Não, padre. Apenas parte do segredo.
— Impossível! Onoshi é fechado demais e esperto demais. Se ele planejou isso, ninguém jamais saberia. A senhora deve estar enganada. Quem lhe deu a informação?
Alvito deixou a mente correr sobre as possibilidades. Então: — Uraga! Uraga era o confessor de Onoshi! Oh, mãe de Deus, Uraga quebrou a santidade do confessionário e contou ao seu suserano...
— Talvez o segredo não seja verdadeiro, padre. Mas acredito que sim. Só Deus conhece a verdade, neh?
Mariko não levantara os véus e Alvito não podia ver nada do rosto dela. Acima, o amanhecer estava se espalhando pelo céu. Ele olhou para o mar. Agora conseguia divisar os dois navios rumando para o sul, os remos da galera mergulhando em uníssono, o vento bom e o mar calmo. Seu peito doía e a cabeça ecoava com a enormidade do que lhe fora revelado. Rezou por ajuda e tentou separar os fatos da fantasia. No íntimo sabia que os segredos eram autênticos e o raciocínio dela impecável.
— A senhora está dizendo que o Senhor Toranaga vai superar Ishido... que ele vencerá?
— Não, padre. Ninguém vencerá, mas sem a sua ajuda o Senhor Toranaga perderá. O Senhor Zataki não merece confiança. Será sempre uma grande ameaça ao meu senhor. Zataki saberá disso e que todas as promessas de Toranaga são vazias, porque Toranaga deve tentar eliminá-lo no final. Se eu fosse Zataki, destruiria Sudara, a Senhora Genjiko e os filhos deles no momento em que se entregassem às minhas mãos, e imediatamente me moveria contra as defesas setentrionais de Toranaga. Lançaria as minhas legiões contra o norte, o que arrancaria Ishido, Ikawa Jikkyu e todos os outros da sua estúpida letargia. Toranaga pode ser arrasado com muita facilidade, padre.
Alvito esperou um momento e disse: — Levante os véus, Maria.
Viu que o rosto dela estava tenso. — Por que me disse tudo isso?
— Para salvar a vida do Anjin-san.
— A senhora comete traição por ele, Maria? A senhora, Toda Mariko-noh-Buntaro, filha do General Akechi Jinsai, comete traição por causa de um estrangeiro? Pede-me que acredite nisso?
— Não, desculpe, também... também para proteger a Igreja. Primeiro para proteger a Igreja, padre... não sei o que fazer. Pensei que o senhor poderia... o Senhor Toranaga é a única esperança da Igreja. Talvez de algum modo o senhor possa ajuda-lo... para proteger a Igreja, o Senhor Toranaga precisa de ajuda agora, ele é um homem bom e sábio e a Igreja prosperará com ele. Sei que Ishido é o verdadeiro inimigo.
— Muitos daimios cristãos acreditam que Toranaga destruirá a Igreja e o herdeiro, se dominar Ishido e conseguir o poder.
— Talvez, mas duvido. Ele tratará a Igreja com justiça. Sempre fez isso. Ishido é violentamente anti-cristão. Assim como a Senhora Ochiba.
— Todos os grandes cristãos estão contra Toranaga.
— Ishido é um camponês. Toranaga-sama é justo e sábio, e quer o comércio.
— Tem que haver comércio, governe quem governar.
— O Senhor Toranaga sempre foi seu amigo, e se o senhor for honesto com ele, ele sempre o será com o senhor. — Ela apontou para as fundações. — Isto não é uma medida da justiça dele? Deu esta terra voluntariamente — quando o senhor lhe falhou e ele perdeu tudo, até a sua amizade.
— Talvez.
— Finalmente, padre, apenas Toranaga-sama pode impedir uma guerra perpétua, o senhor deve saber disso. Como mulher, peço que não haja uma guerra para sempre.
— Sim, Maria. Ele é o único que poderia fazer isso, talvez. Os olhos dele se desviaram dela. O Irmão Miguel estava ajoelhado, perdido em oração, as duas criadas mais perto da praia, esperando pacientemente. O jesuíta sentia-se oprimido, embora exaltado, exausto, embora cheio de vigor. — Estou contente de que a senhora tenha vindo aqui e me contado isso. Agradeço-lhe. Pela Igreja e por mim, um servo da Igreja. Farei tudo o que combinei.
Ela curvou a cabeça e não disse nada.
— A senhora levará uma mensagem, Mariko-san? Para o padre-inspetor?
— Sim. Se ele estiver em Osaka. — Uma mensagem particular? — Sim.
— A mensagem é oral. A senhora lhe dirá tudo o que disse e o que eu disse à senhora. Tudo.
— Muito bem.
— Tenho a sua promessa? Diante de Deus?
— O senhor não precisa dizer isso a mim, padre. Eu concordei.
Ele a olhou nos olhos, firme e forte. — Por favor, desculpe-me, Maria. Agora vamos ouvir a sua confissão.
Ela desceu os véus de novo. — Por favor, desculpe-me, padre, não sou digna sequer de me confessar.
— Todo mundo é digno à vista de Deus. — Menos eu. Não sou digna, padre.
— Deve confessar-se, Maria. Não posso prosseguir com a sua missa. Deve apresentar-se diante de Deus purificada.
Ela se ajoelhou. — Perdoe-me, padre, pois pequei, mas só posso confessar que não sou digna de me confessar — sussurrou ela, a voz entrecortada.
Compadecido, o Padre Alvito pousou a mão levemente sobre a cabeça dela. — Filha de Deus, deixe-me implorar o perdão de Deus pelos seus pecados. Deixe-me, em seu nome, absolvê-la e torná-la íntegra aos olhos dele. — Abençoou-a e depois continuou a missa, na catedral imaginária, sob o céu se abrindo... o serviço mais real e mais belo que jamais houvera, para ele e para ela.
O Erasmus estava ancorado na melhor enseada que Blackthorne jamais vira, longe o suficiente da praia para ter muito espaço para a manobra e ao mesmo tempo próximo o bastante para ter segurança. Seis braças de água clara sobre um forte leito marítimo estavam abaixo e, com exceção da estreita garganta de entrada, montanhas a toda volta, o que manteria qualquer frota protegida da cólera do oceano.
A viagem diurna de Yedo fora sem incidentes, embora cansativa. A galera estava atracada a um quebra-mar perto da aldeia de pesca de Yokohama, e agora estavam sozinhos a bordo, Blackthorne e todos os seus homens, tanto os holandeses quanto os japoneses. Yabu e Naga estavam em terra inspecionando o Regimento de Mosquetes, e antes de desembarcar haviam dito a Blackthorne que se juntasse a eles logo. A oeste o sol estava baixo no horizonte e o céu vermelho prometia que o dia seguinte seria igualmente ótimo.