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— Por que agora, Uraga-san? — estava Blackthorne perguntando do tombadilho, os olhos estriados de vermelho devido à falta de sono. Ele acabara de ordenar que a tripulação e todo mundo descesse para o convés inferior e Uraga pedira que adiasse isso um momento para descobrir se havia algum cristão entre os vassalos.

— Isso não pode esperar até amanhã?

— Não, senhor, sinto muito. — Uraga olhava-o diante de todos os vassalos samurais reunidos, a tripulação holandesa amontoada num grupo nervoso perto do parapeito do tombadilho. — Por favor, desculpe-me, mas é muito importante que o senhor descubra imediatamente. O senhor é o principal inimigo deles. Portanto deve saber, pela sua proteção. Só desejo protegê-lo. Não vai levar muito tempo, neh?

— Estão todos ao convés? — Sim, senhor.

Blackthorne chegou mais perto do parapeito e gritou em japonês: — Alguém aqui é cristão? — Não houve resposta. — Ordeno que qualquer cristão dê um passo à frente. — Ninguém se moveu. Então se voltou para Uraga: — Escolha dez guardas de convés, depois dispense-os.

— Com a sua permissão, Anjin-san. — De sob o quimono Uraga tirou um pequeno ícone pintado que comprara em Yedo e atirou-o de face para cima sobre o convés. Depois, deliberadamente, pisou sobre a imagem. Blackthorne e a tripulação ficaram grandemente perturbados com a profanação. Menos Jan Roper. — Por favor, mande cada vassalo fazer o mesmo — disse Uraga. — Por quê?

— Conheço os cristãos. — Os olhos de Uraga estavam meio ocultos pela aba do chapéu. — Por favor, senhor. É importante que cada homem faça o mesmo. Agora, esta noite.

— Está bem — concordou Blackthorne, relutante.

Uraga voltou-se para os vassalos reunidos. — Por sugestão minha, nosso amo solicita que cada um de nós faça isso.

Os samurais resmungaram entre si e um interrompeu: — Já dissemos que não somos cristãos, neh? O que prova pisar na figura de um deus bárbaro? Nada!

— Os cristãos são inimigos do nosso amo. Os cristãos são traiçoeiros — mas cristãos são cristãos. Por favor, desculpem-me, mas conheço os cristãos — para minha vergonha, eu abandonei os nossos verdadeiros deuses. Sinto muito, mas acredito que isto é necessário para a segurança do nosso amo.

Imediatamente um samurai na frente declarou: — Nesse caso, não há nada mais a ser dito. — Avançou e pisou na figura.

— Não adoro religião bárbara alguma! Vamos, vocês todos, façam o que foi pedido!

Avançaram um a um. Blackthorne olhava, achando a cerimônia inútil.

Preocupado, Van Nekk disse: — Não parece direito.

Vinck olhou para o tombadilho: — Bastardos imbecis. Eles nos cortariam o pescoço sem um pensamento sequer. Tem certeza de que pode confiar neles, piloto?

— Sim.

— Nenhum católico jamais faria isso, hein, Johann? — disse Ginsel. — Esse Uraga-san é esperto.

— Que diferença faz que esses pederastas sejam papistas ou não, são todos samurais cheios de merda!

— Sim — disse Croocq.

— Ainda assim, não é direito fazer isso — repetiu Van Nekk.

Os samurais continuaram a pisar sobre o ícone no convés um a um, e moviam-se para grupos meio dispersos. Era uma atividade tediosa e Blackthorne se arrependeu de ter concordado, pois havia coisas mais importantes a fazer antes do crepúsculo. Seus olhos fitaram a aldeia e os promontórios. Centenas de cabanas de sapé, do acampamento do Regimento de Mosquetes, pontilhavam os contrafortes das montanhas. Tanto o que fazer, pensou ele, ansioso por desembarcar, querendo ver a terra, ufano com o feudo que Toranaga lhe dera, que continha Yokohama. Senhor Deus nas alturas, disse a si mesmo, sou dono de uma das maiores enseadas do mundo.

Abruptamente um homem desviou do ícone, sacou a espada e saltou para Blackthorne. Uma dúzia de alarmados samurais se lançaram corajosamente no caminho dele, protegendo o tombadilho enquanto Blackthorne girava rápido sobre os calcanhares, uma pistola engatilhada e apontada. Outros se dispersaram, acotovelando-se, tropeçando, empurrando-se no alvoroço. O samurai vacilou, berrando de raiva, depois mudou de direção e atacou Uraga, que de algum modo conseguiu evitar o golpe. O homem rodopiou quando outros samurais arremeteram contra ele, combateu ferozmente um instante, depois disparou para o lado e se atirou na água.

Quatro samurais que sabiam nadar atiraram de lado as espadas mortíferas, colocaram as facas curtas na boca, e saltaram atrás dele, o resto e os holandeses se amontoando contra a amurada. Blackthorne lançou-se para a amurada. Não conseguiu ver nada lá embaixo. Então divisou algumas sombras rodopiando na água. Um homem veio à tona para respirar e mergulhou de novo. Logo quatro cabeças surgiram à superfície. Entre elas um cadáver, com uma faca no pescoço.

— Sinto muito, Anjin-san, foi a faca dele mesmo — gritou um por sobre os urros de aplauso dos outros.

— Uraga-san, diga-lhes que o revistem e depois o deixem aos peixes.

A busca não revelou nada. Quando estavam todos de volta ao convés, Blackthorne apontou para o ícone mais uma vez. — Todos os samurais, mais uma vez!

Foi obedecido instantaneamente e se certificou de que cada homem passava pelo teste. Depois, por causa de Uraga, e como cumprimento a ele, ordenou à tripulação que fizesse o mesmo. Houve o início de um protesto.

— Vamos — falou Blackthorne, ríspido. — Depressa ou meto o pé nas costas de vocês!

— Não é preciso falar assim, piloto — disse Van Nekk. — Não somos bastardos pagãos e fedorentos!

— Eles não são bastardos pagãos e fedorentos! São samurais, por Deus!

Eles o olharam fixamente. Raiva, junto com medo, encrespou por entre eles. Van Nekk começou a dizer alguma coisa, mas Ginsel intrometeu-se.

— Sarmirais são bastardos pagãos e eles — ou homens como eles — assassinaram Pieterzoon, o nosso capitão-mor e Maetsukker!

— Sim, mas sem estes samurais nunca voltaremos para casa — compreendeu?

Agora todos os samurais observavam. Agourentamente aproximaram-se mais de Blackthorne, a título de proteção. — Vamos dar o caso por encerrado, hein? — disse Van Nekk. — Estamos todos um pouco melindrosos e exaustos. Foi uma longa noite. Não somos senhores de nós mesmos aqui, nenhum de nós. Nem o piloto. O piloto sabe o que está fazendo, ele é o comandante, é o capitão-mor agora.

— Sim, é. Mas não é direito que tome o lado deles contra nós, e por Deus, ele não é um rei, somos iguais a ele — sibilou Jan Roper. — Estar armado como eles e vestido como eles e saber falar com os bastardos não o faz nosso rei. Temos direitos e essa é a nossa lei e a lei dele, por Deus, embora seja inglês.

Fez juramentos sagrados de respeitar as regras — não jurou, piloto?

— Sim — disse Blackthorne. — É a nossa lei nos nossos mares, onde somos senhores e em maioria. Agora não somos. Por isso façam o que eu estou dizendo e depressa.

Resmungando, obedeceram. — Sonk! Encontrou grogue? — Não, senhor, nem uma maldita gota!

— Vou mandar trazer saquê para bordo. — Depois, em português, acrescentou: — Uraga-san, venha à praia comigo e traga alguém para remar. Vocês quatro — disse em japonês, apontando para os homens que haviam mergulhado, vocês quatro agora capitães. Compreendem? Tomem cinqüenta homens cada um.

— Hai, Anjin-san.

— Qual é o seu nome? — perguntou a um deles, um homem alto e quieto com uma cicatriz no rosto.

— Nawa Chisato, senhor.

— Você é o capitão hoje. O navio todo. Até eu voltar. — Sim, senhor.

Blackthorne dirigiu-se para a escada de embarque. Um bote estava amarrado lá embaixo.

— Aonde vai, piloto? — perguntou Van Nekk ansioso. — A terra. Volto mais tarde.

— Bom, vamos todos!

— Por Deus, voltarei com... — E eu. Vou...

— Jesus Cristo, não me deixem... — Não! Vou sozinho!

— Mas, pelo amor de Deus, e nós! — exclamou Van Nekk. — O que vamos fazer, piloto? Não nos abandone, piloto. O que... — Vocês simplesmente esperam! — disse Blackthorne. — Providenciarei para que mandem comida e bebida a bordo.