Выбрать главу

Estavam todos certos sobre Yabu, pensou Blackthorne, diga ele o que disser, prometa o que prometer. Cometi um grave erro chamando os meus homens de volta quando ele estava encurralado. Esse bastardo me cortará o pescoço assim que eu tenha esgotado a minha utilidade, por mais que finja o contrário. E no entanto Yabu também tem razão: preciso dele. Nunca entrarei em Nagasaki, e sairei de novo, sem sua proteção. Ele com certeza poderia ajudar a convencer Toranaga. Com ele comandando dois mil fanáticos mais, poderíamos arrasar Nagasaki toda e talvez até Macau ...

Nossa Senhora! Sozinho estou indefeso.

Então se lembrou do que Gyoko dissera a Mariko sobre Uraga, sobre não confiar nele. Gyoko errou sobre ele, pensou. No que mais terá errado?

LIVRO CINCO

CAPÍTULO 52

Mais uma vez nas apinhadas estradas costeiras de Osaka, após a longa viagem de galera, Blackthorne sentiu de novo o mesmo peso esmagador da cidade que sentira ao vê-Ia a primeira vez. Grandes setores tinham sido devastados pelo tai-fun e algumas áreas ainda estavam enegrecidas pelo fogo, mas sua imensidade permanecia quase intacta e ainda dominada pelo castelo. Mesmo daquela distância, mais de uma légua, ele podia ver o colossal cinturão da primeira muralha, as ameias sobranceiras, tudo diminuído pela pairante malignidade do torreão.

— Cristo — disse Vinck nervosamente, em pé ao lado dele na proa, parece impossível ser tão grande. Amsterdam seria um cocozinho de mosca ao lado dela.

— Sim. A tempestade danificou a cidade, mas não seriamente. Nada poderia tocar o castelo.

O tai-fun açoitara violentamente de sudoeste duas semanas atrás. Tinham tido sinais em profusão, com céu baixo, lufadas e chuva, e haviam impelido a galera para uma enseada segura a fim de esperar passar a tempestade. Esperaram cinco dias. Para além da enseada, o oceano se encrespara e os ventos foram os mais violentos e fortes que Blackthorne experimentara.

— Cristo — repetiu Vinck. — Gostaria que estivéssemos em casa. Deveríamos estar em casa há um ano.

Blackthorne trouxera Vinck consigo de Yokohama e mandara os outros de volta a Yedo, deixando o Erasmus ancorado em segurança e guardado sob o comando de Naga. A tripulação ficara feliz em partir — assim como ele ficara feliz de ver o último deles. Houvera mais contendas naquela noite e uma violenta discussão sobre a prata do navio. O dinheiro era da companhia, não dele. Van Nekk era o tesoureiro da expedição e mercador-chefe e, juntamente com o capitão-mor, tinha jurisdição legal sobre ele. Depois de terem contado e recontado, e de se descobrir que faltavam mil moedas, Van Nekk, apoiado por Jan Roper, discutira sobre a quantia que Blackthorne poderia levar para contratar novos homens.

— Está querendo demais, piloto! Terá que oferecer-lhes menos!

— Jesus Cristo! Seja quanto for, temos que pagar. Preciso de marujos e atiradores. — Esmurrara a mesa da grande cabina. — De que outro modo vamos poder voltar para casa?

Finalmente acabara convencendo-os a deixá-lo levar o suficiente, e ficara aborrecido de que eles o tivessem feito perder a calma com toda aquela rabularia.

No dia seguinte embarcara-os de volta a Yedo, um décimo do tesouro dividido entre eles, o resto sob guarda no navio.

— Como sabemos que estará seguro aqui? — perguntou Jan Roper, carrancudo.

— Fique e vigie-o você mesmo, então!

Mas nenhum deles quisera ficar a bordo. Vinck concordara em ir com ele.

— Por que ele, piloto? — perguntara Van Nekk. — Porque é um marinheiro e precisarei de ajuda. Blackthorne ficara contente em ver o último deles. Uma vez ao largo, começou a modificar Vinck segundo hábitos japoneses. Vinck enfrentou isso estoicamente, confiando em Blackthorne, tendo navegado anos demais com ele para não lhe conhecer a fibra. — Piloto, pelo senhor eu tomarei banho e me lavarei todos os dias, mas serei amaldiçoado diante de Deus antes de usar uma dessas camisolas sifilíticas!

Dentro de dez dias Vinck estava alegremente indicando o rumo, semidespido, o largo cinturão de couro sobre a pança, uma adaga enfiada na bainha e presa às costas e uma das pistolas de Blackthorne segura dentro da camisa esfarrapada, mas limpa. — Não temos que ir ao castelo, temos, piloto?

— Não.

— Jesus Cristo... eu prefiro mesmo ficar longe de lá.

O dia estava ótimo, o sol alto fazendo tremeluzir o mar calmo. Os remadores ainda estavam fortes e disciplinados.

— Vinck, ali é que foi a emboscada!

— Jesus Cristo, olhe aqueles bancos de areia!

Blackthorne lhe contara sobre a dificuldade da sua fuga, os sinais de fogo naqueles parapeitos, as pilhas de cadáveres na praia, a fragata inimiga caindo-lhe em cima por barlavento.

— Ah, Anjin-san. — Yabu juntou-se a eles. — Bom, neh? — Apontou para a devastação.

— Mau, Yabu-sama. — É inimigo, neh?

— O povo não é inimigo. Apenas lshido e samurais são inimigos, neh?

— O castelo é inimigo — disse Yabu, refletindo seu desassossego e o de todos a bordo. — Aqui todos são inimigos. Blackthorne observou Yabu mover-se para a proa, o vento agitando-lhe o quimono sobre o torso rijo.

Vinck baixou a voz. — Quero matar esse bastardo, piloto. — Sim. Também não me esqueci do velho Pieterzoon, não se preocupe.

— Nem eu, Deus seja o meu juiz! É de espantar o modo como o senhor fala a língua deles. O que foi que ele disse?

— Só estava sendo polido. — Qual é o plano?

— Atracamos e esperamos. Ele vai desembarcar por um dia ou dois e nós baixamos a cabeça e esperamos. Toranaga disse que enviaria mensagens para os salvo-condutos de que necessitaríamos, mas ainda assim, vamos ficar a bordo. — Blackthorne examinou as águas à procura de perigos, mas não descobriu nada. No entanto, disse a Vinck: — É melhor calcular as braças agora, só como precaução!

— Sim!

Por um instante Yabu observou Vinck indicando o rumo, depois, meio a esmo, voltou para junto de Blackthorne. — Anjin-san, talvez fosse melhor o senhor tomar a galera e seguir até Nagasaki. Não esperar, hein?

— Está bem — disse Blackthorne cordialmente, sem morder a isca.

Yabu riu. — Gosto do senhor, Anjin-san! Mas, sinto muito, sozinho morrerá logo. Nagasaki é muito ruim para o senhor!

— Osaka ruim, todo lugar ruim!

— Karma. — Yabu sorriu de novo. Blackthorne fingiu compartilhar da piada.

Tinham tido variações da mesma conversa muitas vezes durante a viagem. Blackthorne aprendera muito sobre Yabu. Odiava-o ainda mais, desconfiava ainda mais, respeitava-o mais, e sabia que seus karmas estavam interligados.

— Yabu-san tem razão, Anjin-san — dissera Uraga. — Ele pode protegê-lo em Nagasaki, eu não.

— Por causa do seu tio, o Senhor Harima?

— Sim. Talvez eu já esteja declarado criminoso, neh? Meu tio é cristão, embora eu o ache um cristão de arroz.

— O que é isso?

— Nagasaki é feudo dele. Nagasaki tem uma grande enseada sobre a costa de Kyushu, mas não a melhor. Então ele rapidamente vê a luz, neh? Torna-se cristão e ordena que todos os seus vassalos façam o mesmo. Ordenou-me que me tornasse cristão e que fosse para a escola jesuítica, depois me mandou como um dos enviados cristãos ao papa. Deu terra aos jesuítas e — como o senhor diria — adula-os. Mas o coração dele é apenas japonês. — Os jesuítas sabem o que você pensa?

— Sim, claro.

— Acreditam nessa história de cristãos de arroz?

— Eles não dizem a nós, convertidos deles, no que é que realmente acreditam, Anjin-san. Nem a si mesmos na maioria das vezes. São treinados para terem segredos, usá-los, acolhê-los, mas nunca para revelá-los. Nisso são muito japoneses.

— É melhor que fique aqui em Osaka, Uraga-san.

— Por favor, desculpe-me, senhor, sou seu vassalo. Se o senhor for a Nagasaki, eu irei.