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Blackthorne sabia que Uraga estava se tornando um auxiliar inestimável. O homem estava revelando muitos dos segredos dos jesuítas: o como, porquê e quando das suas negociações comerciais, seus funcionamentos internos e inacreditáveis maquinações internacionais. E era igualmente informativo sobre Harima e Kiyama e sobre como pensavam os daimios cristãos, e por que, provavelmente, permaneceriam do lado de Ishido. Deus, sei coisas agora que não teriam preço em Londres, pensava ele, e ainda há muito a aprender. Como posso passar a informação? Por exemplo, que o comércio da China com o Japão, só de seda, vale dez milhões em ouro por ano, e que, bem agora, os jesuítas têm um dos seus padres na corte do imperador da China em Pequim, honrado com dignidade de corte, um confidente dos governantes, falando chinês perfeitamente. Se ao menos eu pudesse mandar uma carta... se ao menos tivesse um mensageiro.

Em troca de todo o conhecimento, Blackthorne começou a ensinar Uraga sobre navegação, sobre o grande cisma religioso, e sobre o parlamento. Também ensinou a ele e a Yabu como disparar uma arma de fogo. Uraga é um bom homem, pensava ele. Não há problema. Exceto a vergonha que ele tem pela falta do rabo-de-cavalo de samurai. Isso crescerá logo.

Houve um grito de advertência do vigia de popa.

— Anjin-san! — O capitão japonês apontava para a frente, para um elegante cúter, remado por vinte homens, que se aproximava por estibordo. No topo do mastro estava o emblema de Ishido. Junto dele, o emblema do conselho de regentes, o mesmo sob o qual Nebara Jozen e seus homens tinham viajado para Anjiro, para a morte.

— Quem é? — perguntou Blackthorne, sentindo a tensão por todo o navio, todos os olhos perscrutando a distância.

— Ainda não consigo enxergar, sinto muito — disse o capitão.

— Yabu-san?

Yabu sacudiu os ombros. — Um oficial.

Quando o cúter chegou mais perto, Blackthorne viu um ancião sentado sob o dossel de popa, usando um traje cerimonial enfeitado e o manto com asas. Não usava espadas. Ao seu redor estavam os cinzentos de Ishido.

O mestre do tambor cessou a batida para permitir ao cúter emparelhar. Homens acorreram para ajudar o oficial a subir a bordo. Um piloto japonês pulou atrás dele e após numerosas mesuras assumiu o comando formal da galera.

Yabu e o ancião também foram formais e meticulosos. Finalmente se sentaram sobre almofadas de nível desigual, o oficial tomando a posição mais favorecida na popa. Samurais, cinzentos e de Yabu, rodearam-nos, sentando-se de pernas cruzadas ou ajoelhando-se no convés principal, em lugares ainda mais inferiores. — O conselho lhe dá as boas-vindas, Kasigi Yabu, em nome de Sua Alteza Imperial — disse o homem. Era baixo e atarracado, um tanto acabado, um conselheiro graduado de protocolo junto aos regentes, que também tinha posição na corte imperial. Chamava-se Ogaki Takamoto, era um príncipe de sétimo grau, e sua função era agir como um dos intermediários entre a corte de Sua Alteza Imperial, o Filho do Céu, e os regentes. Seus dentes eram tingidos de preto, à maneira que todos os cortesãos da corte imperial, por costume, haviam adotado há séculos.

— Obrigado, Príncipe Ogaki. É um privilégio estar aqui em nome do Senhor Toranaga — disse Yabu, enormemente impressionado com a honra que lhe estava sendo feita.

— Sim, estou certo de que é. Naturalmente o senhor está em seu próprio nome também, neh? — disse Ogaki secamente. — Naturalmente — retrucou Yabu. — Quando chega o Senhor Toranaga? Sinto muito, mas o tai-fun me atrasou cinco dias e não recebo notícias desde que parti.

— Ah, sim, o tai-fun. Sim, o conselho ficou muito feliz ao saber que a tempestade não o atingiu. — Ogaki tossiu. — Quanto ao seu amo, lamento dizer-lhe que ainda nem chegou a Odawara. Houve adiamentos intermináveis e algumas doenças. Lamentável, neh?

— Oh, sim, muito... nada sério, espero? — perguntou Yabu às pressas, imensamente contente por estar a par do segredo de Toranaga.

— Não, afortunadamente, nada de sério. — Novamente a tosse seca. — O Senhor Ishido tomou conhecimento de que o seu amo chegará a Odawara amanhã.

Yabu ficou convenientemente surpreso. — Quando parti, vinte e um dias atrás, estava tudo pronto para a sua partida imediata, então o Senhor Hiromatsu adoeceu. Sei que o Senhor Toranaga ficou gravemente preocupado, mas ansioso por dar início à sua viagem, assim como eu estou ansioso por começar os preparativos para a sua chegada.

— Está tudo preparado — disse o homenzinho.

— Naturalmente o conselho não fará objeções se eu verificar as providências, neh? — Yabu foi expansivo. — É essencial que a cerimônia seja digna do conselho e da ocasião, neh?

— Digna de Sua Majestade Imperial, o Filho do Céu. A convocação é dele agora.

— Naturalmente mas... — A sensação de bem-estar de Yabu extinguiu-se. — O senhor que dizer... quer dizer que Sua Alteza Imperial estará lá?

— O Exaltado concordou com a humilde solicitação dos regentes de aceitar pessoalmente a obediência do novo conselho, de todos os principais daimios, inclusive do Senhor Toranaga, sua família e vassalos. Os conselheiros superiores de Sua Alteza Imperial foram solicitados a escolher um dia auspicioso para esse... esse ritual. O vigésimo segundo dia deste mês, neste quinto ano da era Keicho.

Yabu ficou estupidificado. — Dentro de... de dezenove dias?

— Ao meio-dia. — Enfastiado, Ogaki tirou um lenço de papel da manga e delicadamente assoou o nariz. — Por favor, desculpe-me. Sim, ao meio-dia. Os presságios foram perfeitos. O Senhor Toranaga foi informado por um mensageiro imperial há catorze dias. Sua humilde e imediata aceitação chegou aos regentes faz três dias. — Ogaki puxou um pequeno pergaminho. — Aqui está o seu convite, Senhor Kasigi Yabu, para a cerimônia. Yabu estremeceu ao ver o selo imperial com o crisântemo de dezesseis pétalas, sabendo que ninguém, nem mesmo Toranaga, poderia recusar tal convocação. Uma recusa seria insulto impensável à Divindade, uma rebelião declarada, e como toda a terra pertencia ao imperador reinante, resultaria em perda imediata de toda a terra, junto com o convite imperial para se cometer seppuku no mesmo instante, emitido em seu nome pelos regentes, também selado com o Grande Selo. Tal convite seria absoluto e teria que ser obedecido.

Aflito, Yabu tentou recuperar a compostura.

— Desculpe, o senhor está indisposto? — perguntou Ogaki solicitamente.

— Sinto muito — balbuciou Yabu, mas nunca, nem nos meus sonhos mais desvairados... Ninguém poderia ter imaginado que o Exaltado nos... nos honraria tanto, neh?

— Concordo, oh, sim. Extraordinário!

— Surpreendente... que Sua Alteza Imperial considere a... possibilidade de sair de Kyoto e ... e vir a Osaka.

— Concordo. Ainda assim, no vigésimo segundo dia, o Exaltado e a Insígnia Imperial estarão aqui. — A Insígnia Imperial, sem a qual nenhuma sucessão era válida, eram os Três Tesouros Sagrados, considerados divinos, que todos acreditavam terem sido trazidos à terra pelo deus Ninigi-no-Mikoto e passado por ele, pessoalmente, ao seu neto, Jimmu Termo, o primeiro imperador humano, e por este, pessoalmente, ao seu sucessor, até o detentor atual, o Imperador Go-Nijo: a Espada Sagrada, a Jóia e o Espelho. A Espada Sagrada e a Jóia sempre viajavam formalmente com o imperador, toda vez que ele tivesse que pernoitar fora do palácio; o Espelho era conservado dentro do santuário interno no grande relicário xintoísta de Ise. A Espada, o Espelho e a Jóia pertenciam ao Filho do Céu. Eram símbolos divinos da autoridade legítima, da sua divindade, de que quando ele estava em movimento, o trono divino movia-se com ele. E assim, de que com ele ia todo o poder.

Com a voz áspera e baixa, Yabu disse: — É quase impossível acreditar que os preparativos para a chegada dele possam ser feitos em tempo.

— Oh, o Senhor General Ishido, em nome dos regentes, solicitou ao Exaltado no momento em que foi informado pelo Senhor Zataki em Yokosé de que o Senhor Toranaga concordara, de modo igualmente surpreendente, em vir a Osaka curvar-se ao inevitável. Apenas a grande honra que o seu amo concede aos regentes os prontificou a solicitar ao Filho do Céu que agraciasse a ocasião com a Presença. — Novamente a tosse seca. — Por favor, desculpe-me, o senhor me daria talvez a sua aceitação formal por escrito, tão logo seja conveniente?