— Posso fazê-lo imediatamente? — perguntou Yabu, sentindo-se fraco.
— Estou certo de que os regentes apreciariam isso. Debilmente Yabu mandou buscar material para escrever. Dezenove martelava-lhe o cérebro. Dezenove dias! Toranaga pode adiar apenas dezenove dias e então tem que estar aqui também. Tempo suficiente para eu chegar a Nagasaki e voltar em segurança a Osaka, mas não o suficiente para desferir o ataque por mar contra o Navio Negro e tomá-lo, portanto tempo insuficiente para pressionar Harima, Kiyama ou Onoshi, ou os padres cristãos, em conseqüência, tempo insuficiente para desencadear Céu Carmesim, em conseqüência o esquema inteiro de Toranaga é apenas outra ilusão ... oh, oh, oh!
Toranaga fracassou. Eu deveria ter sabido que ele fracassaria. A resposta ao meu dilema está clara: ou confio cegamente em Toranaga para forçar passagem para fora desta rede e ajudo o Anjin-san, conforme o planejado, a conseguir os homens e tomar o Navio Negro ainda mais depressa, ou tenho que me dirigir a Ishido e contar-lhe tudo o que sei e tentar negociar pela minha vida e por Izu.
Qual?
Papel, pincel e tinta chegaram. Yabu pôs de lado a angústia um momento e se concentrou em escrever de modo tão perfeito e bonito quanto podia. Era impensável responder à Presença com uma mente desordenada. Quando concluiu a aceitação, havia tomado a decisão crítica: seguiria completamente o conselho de Yuriko. Imediatamente o peso rolou de sobre a sua wa e ele se sentiu grandemente purificado. Assinou com um floreio arrogante.
Como ser o melhor vassalo de Toranaga? Muito simples: remova Ishido desta terra.
Como fazer isso e contar com tempo suficiente para escapar? Então ouviu Ogaki dizer: — O senhor está convidado para uma recepção formal, amanhã, oferecida pelo Senhor General Ishido em honra do aniversário da Senhora Ochiba.
Ainda com trajes de viagem, Mariko abraçou Kiri primeiro, depois a Senhora Sazuko, admirou o bebê, e abraçou Kiri de novo. Criadas particulares se apressavam, alvoroçadas, ao redor delas, trazendo chá e saquê, levando embora as bandejas, correndo para dentro e para fora com almofadas e ervas aromáticas, abrindo e fechando as shojis que davam para o jardim interno naquela seção do Castelo de Osaka, abanando leques, tagarelando, e também chorando.
Finalmente Kiri bateu palmas, dispensou as criadas, e dirigiu-se pesadamente para a sua almofada especial, dominada pela excitação e felicidade. Estava muito corada. Rápidas, Mariko e a Senhora Sazuko abanaram-na e serviram-na e só depois de três xícaras grandes de saquê ela conseguiu recuperar o fôlego.
— Oh, assim está melhor — disse ela. — Sim, obrigada, criança, sim, tomarei mais um pouco! Oh, Mariko-chan, você está aqui de verdade?
— Sim, sim. De verdade, Kiri-san!
Sazuko, parecendo muito mais jovem do que os seus dezessete anos, disse: — Oh, estivemos tão preocupadas apenas com rumores e...
— Sim, nada além de rumores, Mariko-chan — interrompeu Kiri. — Oh, há tanta coisa que quero saber, sinto-me fraca. — Pobre Kiri-san, tome, beba um pouco de saquê — disse Sazuko solicitamente. — Talvez devesse afrouxar o obi e...
— Estou perfeitamente bem agora! Por favor, não se incomode, criança. — Kiri exalou e cruzou as mãos sobre o amplo estômago. — Oh! Mariko-san, é tão bom ver um rosto amigo de novo, vindo de fora do Castelo de Osaka.
— Sim — ecoou Sazuko, chegando mais perto de Mariko, e disse num turbilhão: — Sempre que saímos pelo nosso portão, cinzentos enxameiam à nossa volta como se fôssemos abelhas rainhas. Não temos autorização de deixar o castelo, exceto com permissão do conselho — nenhuma das senhoras, nem as do Senhor Kiyama, e o conselho quase nunca se reúne e eles só falam por meias palavras, portanto nunca há permissão alguma, e o médico ainda diz que não devo viajar por enquanto, mas estou ótima e o bebê está ótimo e... Mas primeiro conte-nos...
Kiri interrompeu: — Antes diga-nos como vai nosso amo. A garota riu, com a mesma vivacidade. — Eu ia perguntar isso, Kiri-san!
Mariko respondeu conforme Toranaga ordenara: — Está comprometido com a sua linha de ação, está confiante e contente com a decisão que tomou. — Ela ensaiara muitas vezes durante a viagem. Ainda assim, a força da tristeza que criou quase a fez querer irromper com a verdade. — Sinto muito — disse.
— Oh! — Sazuko tentou não soar assustada.
Kiri se ajeitou, tomando uma posição mais confortável. — Karma é karma, neh?
— Então... então não houve mudança... esperança alguma? — perguntou a garota.
Kiri deu-lhe tapinhas na mão. — Acredite que karma é karma, criança, e que o Senhor Toranaga é o maior e o mais sábio homem vivo. Isso basta, o resto é ilusão. Mariko-chan, tem mensagens para nós?
— Oh, desculpe. Sim, tome. — Mariko tirou os três pergaminhos da manga. — Dois para a senhora, Kiri-chan, um do nosso amo e outro do Senhor Hiromatsu. Este é para você, Sazuko, do nosso senhor, mas ele me pediu que lhe dissesse que está com saudades e quer ver o filho mais novo. Ele me fez memorizar três coisas para lhe dizer. Ele sente muita saudade de você e quer ver o filho mais novo. Ele sente muita saudade... da garota.
Lágrimas rolaram pelas faces. Murmurou um pedido de desculpas e saiu correndo da sala, apertando o pergaminho nas mãos.
— Pobre criança. É muito duro para ela aqui. — Kiri não rompeu os lacres dos seus pergaminhos. — Você sabe que Sua Majestade Imperial estará presente?
— Sim. — Mariko foi igualmente grave. — Um mensageiro do Senhor Toranaga me alcançou há uma semana. A mensagem não dava detalhes além disso, e citava o dia em que ele chegará aqui. Recebeu notícias dele?
— Diretamente não... nada de particular, já faz um mês. Como está ele? Realmente?
— Confiante. — Ela tomou um gole de saquê. — Oh, posso servi-Ia?
— Obrigada.
— Dezenove dias não é muito tempo, é, Kiri-chan?
— É tempo suficiente para ir a Yedo e voltar se você se apressar, tempo suficiente para viver uma vida, se você quiser, mais que suficiente para realizar uma batalha ou perder um império — tempo para um milhão de coisas, mas não o suficiente para comer todos os pratos raros e tomar todo o saquê... — Kiri sorriu levemente. — Eu certamente não vou fazer dieta nos próximos vinte dias. Estou... — Parou. — Oh, por favor, desculpe-me... ouvir-me tagarelar e você ainda nem se trocou ou tomou banho.
— Oh, por favor, não se preocupe. Não estou cansada. — Mas deve estar. Vai ficar na sua casa?
— Sim. É lá que o passe do Senhor General Ishido me permite ir. — Mariko sorriu atravessado. — A acolhida dele foi brilhante.
Kiri fez uma carranca. — Duvido de que ele fosse bem-vindo mesmo no inferno.
— Oh? Sinto muito, o que foi agora?
— Nada mais do que antes. Sei que ele ordenou que o Senhor Sugiyama fosse torturado e assassinado, embora não tenha provas. Na semana passada uma das consortes do Senhor Oda tentou safar-se com os filhos, disfarçada de varredora de rua. As sentinelas atiraram neles "por engano".
— Que horror!
— Naturalmente, grandes "desculpas"! Ishido alega que a segurança é tudo o que há de importante. Houve um atentado forjado contra o herdeiro, é a desculpa dele.
— Por que as senhoras não partem abertamente?
— O conselho ordenou que esposas e famílias esperem pelos maridos, que devem retornar para a cerimônia. O grande senhor general sente "com grande gravidade a responsabilidade pela segurança delas para permitir-lhes vagar por aí". O castelo está mais fechado do que uma ostra velha.