Muito cansado agora, Uraga subiu ao convés principal.
— Uraga-san — chamou baixinho Blackthorne, do tombadilho. — Aqui em cima.
Uraga semicerrou os olhos para se adaptar à escuridão. Viu Blackthorne e sentiu o antigo e forte cheiro de corpo e teve certeza de que a segunda sombra ali era o outro bárbaro, de nome impronunciável, que também sabia falar português. Ele quase se esquecera de como era estar longe do odor bárbaro, que era parte da sua vida. O Anjin-san era o único que ele conhecera que não tresandava, o que era uma razão pela qual podia servi-lo.
— Ah, Anjin-san — sussurrou, e aproximou-se saudando rapidamente os dez guardas que estavam dispersos em torno do convés.
Esperou ao pé da escada até que Blackthorne lhe fizesse sinal para subir ao tombadilho. — Foi muito...
— Espere — advertiu Blackthorne igualmente baixo, e apontou. — Olhe na praia. Ali, perto do depósito. Está vendo? Não, um pouco ao norte ... ali, vê agora? — Uma sombra moveu-se rapidamente, depois mergulhou na escuridão de novo.
— Quem era?
— Eu estive observando você desde que apareceu na estrada. Ele o vinha seguindo. Nunca o viu?
— Não senhor — respondeu Uraga, sentindo de novo o pressentimento. — Não vi ninguém, não senti ninguém.
— Ele não tinha espadas, portanto não era samurai. Um jesuíta?
— Não sei. Acho que não. Fui muito cuidadoso lá. Por favor, desculpe-me por não tê-lo visto.
— Não tem importância. — Blackthorne olhou para Vinck. — Desça agora, Johann. Terminarei este turno e o acordarei ao amanhecer. Obrigado por esperar.
Vinck tocou o topete e desceu. O cheiro pegajoso partiu com ele. — Eu estava ficando preocupado com você — disse Blackthorne. -— O que aconteceu?
— O mensageiro de Yabu-sama foi lento, Anjin-san. Eis o meu relatório: fui com Yabu-sama e esperei do lado de fora do castelo do meio-dia até pouco depois de escurecer, quando... — O que ficou fazendo esse tempo todo? Exatamente?
— Exatamente, senhor? Escolhi um lugar tranqüilo perto do mercado, dando para a Primeira Ponte, e coloquei a mente em meditação — a prática jesuítica, Anjin-san, mas não sobre Deus, só sobre o senhor e Yabu-sama e o seu futuro, senhor. — Uraga sorriu. — Muitos passantes puseram moedas na minha tigela de pedinte. Deixei meu corpo descansar e a mente vagar, embora vigiasse a Primeira Ponte o tempo todo. O mensageiro de Yabu-sama veio após o escurecer e fingiu rezar comigo até ficarmos completamente sozinhos. Ele sussurrou isto: "Yabu-sama diz que ficará no castelo esta noite e que retornará amanhã de manhã. Haverá uma função oficial no castelo amanhã à noite, oferecida pelo General Ishido, para a qual o senhor será convidado. Finalmente o senhor deve considerar ‘setenta'". — Uraga o examinou, atento. — O samurai repetiu isso duas vezes, de modo que presumo que seja um código particular, senhor.
Blackthorne assentiu mas não esclareceu que aquele era um dos muitos sinais pré-combinados entre ele e Yabu. "Setenta" significava que ele devia providenciar que o navio estivesse preparado para uma retirada imediata. Mas com todos os seus samurais, marujos e remadores confinados a bordo, o navio estava pronto. E como todos estavam muito conscientes de que se encontravam em águas inimigas e todos muito perturbados, Blackthorne sabia que não exigiria esforço pôr o navio ao largo.
— Continue, Uraga-san.
— Isso foi tudo, exceto que eu devia lhe dizer que Toda Mariko-san chegou hoje.
— Ah! Ela... Não foi muito rápida essa viagem por terra de Yedo até aqui?
— Sim, senhor. Na realidade, enquanto esperava, vi o destacamento dela cruzar a ponte. Foi durante a tarde, na metade da hora do Bode. Os cavalos estavam cobertos de suor e lama, e os carregadores muito cansados. Yoshinaka-san os comandava. — Algum deles viu você?
— Não, senhor. Acho que não. — Quantos eles eram?
— Cerca de duzentos samurais, com carregadores e cavalos de bagagem. A escolta de cinzentos tinha duas vezes esse número. Um dos cavalos de bagagem tinha cestos de pombos-correio. — Bom. E depois?
— Assim que pude, parti. Há uma casa de talharim perto da missão, que muitos mercadores freqüentam, corretores de seda e arroz, gente da missão. Eu... eu estive lá, comi e ouvi. O padre-inspetor está de novo exercendo aqui. Muitos convertidos mais na área de Osaka. Foi concedida permissão para uma missa enorme dentro de vinte dias, em honra dos senhores Kiyama e Onoshi.
— Isso é importante?
— Sim, e surpreendente que um serviço assim seja permitido abertamente. É para celebrar a festa de São Bernardo. Vinte dias é o dia, após a cerimônia de obediência diante do Exaltado.
Yabu contara a Blackthorne sobre o imperador por intermédio de Uraga. A notícia correra pelo navio inteiro, aumentando a premonição de catástrofe de todo mundo.
— O que mais?
— No mercado ouvi muitos rumores. Muitos de mau agouro. Yodoko-sama, a viúva do táicum, está muito doente. Isso é grave, Anjin-san, porque o conselho dela é sempre ouvido e sempre razoável. Alguns dizem que o Senhor Toranaga já está perto de Nagoya, outros dizem que ainda não atingiu Odawara, por isso ninguém sabe no que acreditar. Todos concordam em que a colheita será terrível este ano, aqui em Osaka, o que significa que o Kwanto se torna muitíssimo mais importante. A maioria das pessoas acha que a guerra civil começará assim que o Senhor Toranaga estiver morto, quando os grandes daimios começarão a combater entre si. O preço do ouro está muito alto e os índices de juros subiram a setenta por cento...
— Isso é impossivelmente alto, você deve estar enganado. — Blackthorne se levantou, descontraiu as costas, depois se debruçou cautelosamente à amurada. Polidamente Uraga e todos os samurais também se levantaram. Teria sido falta de boas maneiras que eles continuassem sentados com o amo em pé.
— Por favor, desculpe-me, Anjin-san — disse Uraga — nunca é menos do que cinqüenta por cento, e geralmente de sessenta e cinco a setenta, até oitenta. Há quase vinte anos, o padre-inspetor solicitou a Sua Sant... solicitou ao papa que nos permitisse... que permitisse à Sociedade emprestar a dez por cento. Ele tinha razão ao afirmar que a sugestão — foi aprovada, Anjin-san — traria resplendor e muitos convertidos ao cristianismo, pois, naturalmente, apenas os cristãos podiam conseguir empréstimos, sempre modestos. Não se pagam taxas assim no seu país?
— Raramente. Isso é usura! Compreende "usura"?
— Compreendo a palavra, sim. Mas usura não começaria para nós abaixo de cem por cento. Eu também ia lhe dizer que o arroz está muito caro e que é um mau presságio — está o dobro do que estava quando estive aqui há poucas semanas. A terra está barata. Agora seria uma boa ocasião para comprar terra aqui. Ou uma casa. Com o tai-fun e os incêndios, talvez dez mil casas se tenham perdido e duas, três mil pessoas morrido. Isso é tudo, Anjin-san.
— Isso é muito bom. Você agiu muito bem. Errou de vocação!
— Senhor?
— Nada — disse Blackthorne, ainda sem saber até que ponto podia arreliar Uraga. — Você fez muito bem.
— Obrigado, senhor.
Blackthorne pensou um instante, depois perguntou sobre a comemoração do dia seguinte e Uraga aconselhou-o da melhor maneira que pôde. Finalmente Uraga lhe contou como escapara da patrulha.
— O seu cabelo o teria traído? — perguntou Blackthorne. — Oh, sim. Seria o suficiente para que eles me levassem consigo. — Uraga enxugou o suor da testa. — Sinto muito, está quente, neh?
— Muito — concordou Blackthorne polidamente, e deixou a mente classificar as informações. Olhou para o mar, inconscientemente examinando o céu, o mar e o vento. Estava tudo ótimo e em ordem, os barcos de pesca complacentemente à deriva com a maré, por perto e afastados, um lanceiro na proa de cada um, sob uma lanterna, espetando de tempos em tempos, e quase sempre trazendo na volta uma bela bruma-do-mar, um mugem ou um vermelho que se contorciam e agitavam na lança. — Uma última coisa, senhor. Fui à missão... perto da missão. Os guardas estavam muito alerta e eu nunca conseguiria entrar... pelo menos, acho que não, a não ser que passasse ao lado de um deles. Espiei algum tempo, mas antes de vir embora vi entrar Chimmoko, a criada da Senhora Toda.