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— Tem certeza?

— Sim. Havia outra criada com ela. Acho... — A Senhora Mariko? Disfarçada?

— Não, senhor. Tenho certeza de que não era... essa segunda criada era alta demais.

Blackthorne olhou o mar novamente e murmurou, meio consigo mesmo: — Qual é o significado disso?

— A Senhora Mariko é crist... é católica, neh? Conhece muito bem o padre-inspetor. Foi ele quem a converteu. A Senhora Mariko é a dama mais importante, mais famosa do reino, depois das três mais altas: a Senhora Ochiba, a Senhora Genjiko e Yodoko-sama, a esposa do táicum.

— Mariko-san poderia querer se confessar? Ou uma missa? Ou uma consulta? Ela mandou Chimmoko para arranjar isso? — Qualquer uma dessas coisas, Anjin-san, ou todas elas. Todas as damas dos daimios, tanto dos amigos do senhor general quanto as dos que poderiam se opor a ele, estão confinadas no castelo, neh? Uma vez lá dentro, ficam lá, como peixes num aquário dourado, esperando para serem pescados.

— Basta! Chega de conversa agourenta.

— Sinto muito. Ainda assim, Anjin-san, acho que agora a Senhora Toda não sairá mais. Até o décimo nono dia.

— Eu lhe disse que basta! Tomei conhecimento dos reféns e de que há um último dia. — Estava silencioso no convés, todas as vozes abafadas. A guarda descansava tranqüila, esperando pelo turno. A água batia molemente no casco e as cordas rangiam agradavelmente.

Após um momento, Uraga disse: — Talvez Chimmoko tenha levado um convite ... uma solicitação para que o padre-inspetor vá vê-la. Ela estava realmente sob guarda quando cruzou a Primeira Ponte. Certamente Toda Mariko-noh-Buntaro-noh-Jinsai esteve sob guarda desde o primeiro momento em que atravessou as fronteiras do Senhor Toranaga. Neh?

— Podemos saber se o padre-inspetor vai ao castelo? — Sim. Isso é fácil.

— Como saber o que é dito... ou feito?

— Isso é muito difícil. Sinto muito, mas eles falariam português ou latim, neh? E quem fala essas duas línguas além de mim e do senhor? Eu seria reconhecido por ambos. — Uraga apontou para o castelo e a cidade. — Há muitos cristãos lá. Qualquer um obteria grande favor eliminando o senhor, ou a mim... neh?

Blackthorne não respondeu. Não era necessário resposta. Estava vendo o torreão delineado contra as estrelas e lembrou-se de Uraga falando-lhe do lendário e ilimitado tesouro que o torreão protegia, o saque-arrecadação do império, do táicum. Mas agora sua mente estava no que Toranaga poderia estar fazendo, pensando ou planejando, e exatamente onde Mariko estava e qual era a finalidade de ir a Nagasaki. — Então o senhor está dizendo que o décimo nono dia é o último, um dia de morte, Yabu-san? — repetira ele, quase nauseado com a informação de que a armadilha estava lançada sobre Toranaga. E portanto sobre ele e o Erasmus.

— Shikata ga nai! Vamos rapidamente a Nagasaki e voltamos. Depressa, compreende? Apenas quatro dias para conseguir homens. Depois voltamos.

— Mas por quê? Toranaga aqui, todos morrem, neh? — dissera ele. Mas Yabu desembarcara, dizendo-lhe que partiriam dois dias depois. Agitado, ele o observara afastando-se, desejando ter trazido o Erasmus e não a galera. Se tivesse o Erasmus, sabia que de algum modo teria desviado de Osaka e rumado direto para Nagasaki, ou ainda mais provavelmente, teria investido para o horizonte a fim de encontrar alguma enseada de boa conformação e teria tirado tempo da eternidade para treinar seus vassalos a lidar com o navio.

Você é um imbecil, repreendeu-se ele. Com os poucos tripulantes que tem, você não teria conseguido atracá-lo aqui, quanto mais encontrar essa enseada para esperar passar a tempestade do demônio. Você já estaria morto.

— Não se preocupe, senhor. Karma — estava dizendo Uraga.

— Sim. Karma. — Então Blackthorne ouviu perigo vindo do mar, seu corpo se moveu antes que a mente o ordenasse, e ele estava girando quando a seta passou zunindo, errando-o por uma distância mínima para ir se fincar no tabique. Saltou para Uraga para fazê-lo se abaixar quando outra seta da mesma saraivada sibilou na direção de Uraga, cravando-se na sua garganta. Os dois se encolheram em segurança sobre o convés, Uraga guinchando e samurais gritando e perscrutando o mar por sobre a amurada. Cinzentos da guarda na praia subiram a bordo. Outra saraivada veio da noite, do mar, e todos se dispersaram para se proteger. Blackthorne rastejou até a amurada, espreitou através de um embornal e viu um barco de pesca próximo apagando o seu archote para sumir na escuridão. Todos os botes estavam fazendo o mesmo, e numa fração de segundo ele viu remadores puxando freneticamente, a luz cintilando nas suas espadas e arcos.

O uivo de dor de Uraga transformou-se numa agonia balbuciante, enquanto os cinzentos se precipitavam para o tombadilho, arcos preparados, o navio todo em tumulto agora. Vinck subiu depressa ao convés, pistola pronta, correndo em ziguezague. — Cristo, o que está acontecendo, o senhor está bem, piloto? — Sim. Cuidado, eles estão em barcos de pesca! — Blackthorne escorregou para junto de Uraga, que estava segurando a flecha, sangue vazando-lhe pelo nariz, boca e ouvidos.

— Jesus — arquejou Vinck.

Blackthorne agarrou a farpa da seta com a mão, colocou a outra sobre a carne quente e pulsante, e puxou com toda a força. A seta saiu habilmente, mas no seu rastro o sangue esguichou num jorro pulsante. Uraga começou a sufocar.

Agora cinzentos e samurais de Blackthorne os rodeavam. Alguns haviam trazido escudos e protegiam Blackthorne, descuidados da própria segurança. Outros tremiam, embora o perigo tivesse passado. Outros soltavam imprecações contra a noite, disparando na noite, ordenando que os desaparecidos barcos do pesca voltassem.

Blackthorne segurou Uraga nos braços, impotente, sabendo que havia alguma coisa que ele devia fazer, mas não sabendo o quê, sabendo que nada podia ser feito, o nauseante cheiro adocicado da morte obstruindo-lhe as narinas, o cérebro berrando como sempre "Jesus Cristo, graças a Deus não é o meu sangue, não o meu, graças a Deus".

Viu os olhos de Uraga implorando, a boca movendo-se em emitir som algum, o peito arfando, depois viu seus próprios dedos moverem-se por si mesmos e fazerem o sinal-da-cruz diante dos olhos, sentiu o corpo de Uraga estremecendo, palpitando, a boca gritando sem som, fazendo-o lembrar-se dos peixes fisgados. Uraga levou um tempo atroz para morrer.

CAPÍTULO 53

Agora Blackthorne estava entrando no castelo com a sua guarda de honra de vinte vassalos rodeada por uma escolta de cinzentos com dez vezes esse número. Usava orgulhosamente um uniforme novo, um quimono marrom com os cinco emblemas de Toranaga e, pela primeira vez, um manto formal, com asas imensas. Seu cabelo dourado e ondulado estava amarrado num rabo esmerado. As espadas que Toranaga lhe dera sobressaíam do sash corretamente. Os pés calçavam tabis novos e sandálias com correias.

Havia cinzentos em abundância a cada intersecção, protegendo cada muralha, numa vasta demonstração da força de Ishido, pois cada daimio, cada general e cada oficial samurai de importância em Osaka fora convidado aquela noite ao Grande Saguão que o táicum construíra dentro do anel interno de fortificações. O sol estava baixo e a noite se aproximava rapidamente.

É um azar terrível perder Uraga, estava pensando Blackthorne, ainda sem saber se o ataque fora contra Uraga ou contra ele mesmo. Perdi a melhor fonte de conhecimento que poderia ter tido.