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— Ao meio-dia o senhor vai ao castelo, Anjin-san — dissera Yabu aquela manhã, quando retornara à galera. — Os cinzentos vêm buscá-lo. Compreende?

— Sim, Yabu-sama.

— Completamente seguro agora. Sinto muito pelo ataque. Shikata ga nai! Os cinzentos o levam a lugar seguro. Esta noite o senhor fica no castelo. Na parte do castelo que é de Toranaga. Amanhã vamos a Nagasaki.

— Temos permissão? — perguntara ele.

Yabu sacudira a cabeça, exasperado. — Fingimos ir a Mishima buscar o Senhor Hiromatsu. Também o Senhor Sudara e família. Compreende?

— Sim.

— Bom. Durma agora, Anjin-san. Não se preocupe com o ataque. Agora todos os botes receberam ordem de se manter longe daqui. Aqui, agora, é kinjiru.

— Compreendo. Por favor, desculpe-me, o que acontece esta noite? Por que eu no castelo?

Yabu dera o seu sorriso retorcido e lhe dissera que ele seria exibido, que Ishido estava curioso por vê-lo de novo. — Como hóspede o senhor estará seguro — e deixara a galera de novo.

Blackthorne descera, deixando Vinck de guarda, mas, no momento em que se encontrou profundamente adormecido, sentiu Vinck a sacudi-lo e correu para o convés de novo.

Uma pequena fragata portuguesa, de vinte canhões, vinha entrando na enseada, o freio entre os dentes, adernando sob a pressão do velame todo desfraldado.

— O bastardo está com pressa — disse Vinck, estremecendo.

— Tem que ser Rodrigues. Mais ninguém poderia entrar na enseada a toda vela assim.

— Se eu fosse o senhor, piloto, daria o fora daqui com a maré ou sem a maré. Jesus Cristo, estamos como mariposas numa garrafa de grogue. Vamos embora...

— Vamos ficar! Não consegue enfiar isso na cabeça? Ficamos até sermos autorizados a partir. Ficamos até que Ishido diga que podemos ir, mesmo que o Papa e o rei da Espanha desembarquem aqui junto com a maldita Armada inteira!

Descera novamente, mas perdera o sono. Ao meio-dia, os cinzentos chegaram. Pesadamente escoltado, foi com eles para o castelo. Insinuaram-se através da cidade, passando pelo pátio de execução, as cinco cruzes ainda lá, vultos ainda sendo amarrados e trazidos para baixo, cada cruz com os seus dois lanceiros, a multidão assistindo. Ele revivera aquela agonia e o terror da emboscada, e a sensação da mão sobre o punho da espada, o quimono sobre a pele, seus próprios vassalos com ele não lhe diminuíram o temor.

Os cinzentos o conduziram à parte de Toranaga no castelo, que ele visitara na primeira vez, onde Kiritsubo, a Senhora Sazuko e o filho dela ainda estavam abrigados, junto com o remanescente dos samurais de Toranaga. Ali ele tomara um banho e encontrara as roupas novas que haviam sido estendidas para ele.

— A Senhora Mariko está aqui?

— Não, senhor, sinto muito — dissera-lhe a criada.

— Então onde posso encontrá-la, por favor? Tenho uma mensagem urgente.

— Sinto muito, Anjin-san, não sei. Por favor, desculpe-me. Nenhum dos criados o ajudou. Todos diziam: "Sinto muito, não sei".

Ele se vestira, depois recorrera ao seu dicionário, para recordar palavras-chave de que precisaria, e preparara-se da melhor maneira que pudera. Em seguida dirigira-se para o jardim, para observar as rochas crescendo. Mas elas não cresciam nunca. Agora estava atravessando o fosso interno. Havia archotes por toda parte.

Pôs de lado a ansiedade e avançou pela ponte de madeira. Havia outros convidados acompanhados de cinzentos a toda volta, encaminhando-se na mesma direção. Ele podia senti-los a observá-lo dissimuladamente.

Seus pés levaram-no por sob o último rastrilho e os seus cinzentos o conduziram através do labirinto novamente até a grande porta. Ali o deixaram. Assim como seus próprios homens. Foram para um lado com outros samurais, para esperá-lo. Ele avançou para a entrada iluminada de archotes.

Era uma sala imensa, de vigas altas e um teto dourado ornamentado. Colunas apaineladas de ouro sustentavam as vigas, que eram feitas de madeira rara, polida e tratada, assim como os reposteiros nas paredes. Quinhentos samurais e suas damas encontravam-se lá, usando todas as cores do arco-íris, seus perfumes misturando-se com a fragrância de incenso que vinha das madeiras preciosas queimando em minúsculos braseiros de parede. Os olhos de Blackthorne percorreram a multidão para encontrar Mariko, ou Yabu, ou qualquer rosto amistoso. Mas não encontraram ninguém. A um lado estava uma fila de convidados que esperavam para se curvar diante da plataforma elevada na extremidade oposta. O cortesão, Príncipe Ogaki Takamoto, estava em pé ali. Blackthorne reconheceu Ishido — alto, magro e autocrático —, também ao lado da plataforma, e lembrou-se vividamente da força ofuscante do golpe do homem no seu rosto, e depois dos seus próprios dedos agarrados ao pescoço do homem.

Sobre a plataforma, sozinha, estava a Senhora Ochiba, confortavelmente sentada sobre uma almofada. Mesmo daquela distância, ele podia ver a rara riqueza do seu quimono, fios de ouro sobre uma seda do azul-negro mais raro. "A Mais Alta", chamara-a Uraga com admiração, contando-lhe muita coisa sobre ela e sua história durante a viagem.

Era delgada, quase infantil de compleição, com um brilho luminoso na pele magnífica. Seus olhos negros eram grandes sob as sobrancelhas arqueadas, pintadas, o cabelo penteado como um elmo alado.

A procissão de convidados arrastou-se para a frente. Blackthorne erguia-se a um lado, num ponto inundado de luz, uma cabeça mais alta do que os que lhe estavam próximos. Polidamente deu um passo para o lado, para sair do caminho de alguns convidados passando, e viu os olhos de Ochiba voltarem-se para ele. Ishido também o estava olhando. Disseram alguma coisa entre si e o leque dela moveu-se. Os olhos dos dois voltaram a pousar sobre ele. Constrangido ele se dirigiu para uma parede, a fim de se tornar menos proeminente, mas um cinzento barrou-lhe o caminho. — Dozo — disse polidamente esse samurai, apontando para a fila.

— Hai, domo — disse Blackthorne, e lá se postou.

Os que estavam à frente se curvaram, e outros que vinham atrás dele também. Ele retribuiu as mesuras. Logo toda conversa se extinguiu. Todos o olhavam.

Embaraçados, homens e mulheres à sua frente na fila saíram-lhe do caminho. Num instante não havia ninguém entre ele e a plataforma. Momentaneamente ele se enrijeceu. Depois, sob silêncio completo, avançou.

Diante da plataforma, ajoelhou-se e curvou-se formalmente, uma vez para ela, uma vez para Ishido, como vira outros fazerem. Levantou-se, petrificado com a possibilidade de suas espadas caírem ou de ele escorregar e estar desgraçado, mas tudo correu de modo satisfatório e ele começou a recuar.

— Por favor, espere, Anjin-san — disse ela.

Ele esperou. Sua luminosidade parecia ter aumentado, assim como sua feminilidade. Ele sentiu a extraordinária sensualidade que a rodeava, sem esforço consciente da parte dela.

— Diz-se que o senhor fala a nossa língua? — A voz dela era inexplicavelmente pessoal.

— Por favor, desculpe-me, Alteza — começou Blackthorne, usando sua já antiga frase de reserva, vacilando ligeiramente devido ao nervosismo. — Sinto muito, mas tenho que usar palavras curtas e respeitosamente peço-lhe que use palavras muito simples, de modo que eu possa ter a honra de compreendê-la. — Sabia que, sem dúvida alguma, sua vida podia facilmente depender das suas respostas. Toda a atenção na sala estava voltada para eles agora. Então notou Yabu movendo-se cuidadosamente através da massa, aproximando-se mais. — Possa eu respeitosamente cumprimentá-la pelo seu aniversário e orar para que a senhora viva para gozar de mais mil.

— Dificilmente, se poderia dizer que essas palavras sejam simples, Anjin-san — disse a Senhora Ochiba, muito impressionada.

— Por favor, desculpe-me. Alteza. Aprendi a noite passada. O modo correto de dizer, neh?

— Quem lhe ensinou isso?

— Uraga-noh-Tadamasa, meu vassalo.

Ela franziu o cenho, depois olhou para Ishido, que se inclinou para a frente e falou, rapidamente demais para que Blackthorne pudesse compreender alguma coisa além da palavra "setas".