— Ah, o padre cristão renegado que foi morto a noite passada no seu navio?
— Alteza?
— O homem... o samurai que foi morto, neh? A noite passada no navio. Compreende?
— Ah, desculpe. Sim, ele. — Blackthorne olhou para Ishido, depois para ela de novo. — Por favor, desculpe-me, Alteza, sua permissão para saudar o senhor general?
— Sìm, o senhor tem permissão.
— Boa noite, senhor general — disse Blackthorne com polidez estudada. — A última vez encontramos, eu muito terrível louco. Sinto muito.
Ishido correspondeu à mesura superficialmente. — Sim, estava. E muito descortês. Espero que o senhor não enlouqueça esta noite ou em qualquer outra noite.
— Muito louco aquela noite, por favor, desculpe-me. — Essa loucura é habitual entre bárbaros, neh?
Tal grosseria pública com um convidado era muito séria. Os olhos de Blackthorne relampejaram para a Senhora Ochiba um instante e notaram surpresa nela também. Então arriscou. — Ah, senhor general, tem toda a razão. Bárbaros sempre a mesma loucura. Mas, sinto muito, agora sou samurai — hatamoto — isso grande, muita honra para mim. Não sou mais bárbaro. — Ele usou a sua voz de tombadilho, potente mas não gritada, e encheu os quatro cantos da sala. — Agora compreendo maneiras de samurai, e um pouco de bushido. E wa. Não sou mais bárbaro, por favor, desculpe-me. Neh? — Pronunciou a última palavra como um desafio, sem medo. Sabia que os japoneses compreendiam a masculinidade e o orgulho e respeitavam-nos.
Ishido riu. — Ora, samurai Anjin-san — disse, jovial agora. — Sim, aceito o seu pedido de desculpas. Os boatos sobre a sua coragem são verdadeiros. Bom, muito bom. Também devo me desculpar. Terrível que ronins imundos pudessem fazer uma coisa assim, compreende? Atacar de noite?
— Sim, compreendo, senhor. Muito ruim. Quatro homens mortos. Um dos meus, três cinzentos.
— Ouça, ruim, muito ruim. Não se preocupe, Anjin-san. Não mais. — Ishido correu os olhos pela sala atentamente. Todo mundo o compreendeu com muita clareza. — Agora ordenei guardas. Compreende? Guardas muito cuidadosos. Não mais ataques assassinos. Nenhum. O senhor está muito cuidadosamente guardado agora. Completamente seguro no castelo.
— Obrigado. Desculpe o incômodo.
— Não há incômodo. O senhor importante, neh? O senhor samurai. O senhor tem um lugar especial de samurai com o Senhor Toranaga. Não esqueço. Não receie.
Blackthorne agradeceu a Ishido novamente e voltou-se para a Senhora Ochiba. — Alteza, no meu país nós tem rainha... nós temos uma rainha. Por favor, desculpe o meu japonês... Sim, meu país governado por uma rainha. Na minha terra temos o costume sempre dar a uma senhora um presente de aniversário. Mesmo uma rainha... — do bolso da manga tirou um botão de camélia cor-de-rosa que cortara de uma árvore no jardim. Pousou-o diante dela, receanda estar exagerando. — Por favor, desculpe-me se não for boas maneiras dar.
Ela olhou a flor. Quinhentas pessoas esperavam sem fôlego para ver como ela responderia à ousadia e à galanteria do bárbaro — e à armadilha em que ele, talvez sem perceber, a colocara.
— Não sou uma rainha, Anjin-san — disse ela lentamente. — Apenas a mãe do herdeiro e viúva do senhor táicum. Não penso aceitar o seu presente como uma rainha, pois não sou rainha, nunca poderia ser rainha, não simulo ser rainha e não desejo ser rainha. — Depois sorriu para a sala e disse a todos: — Mas como uma senhora no seu aniversário, talvez eu possa ter a permissão de todos para aceitar o presente do Anjin-san?
A sala explodiu em aplausos. Blackthorne curvou-se e agradeceu-lhe, tendo compreendido apenas que o presente fora aceito. Quando a multidão ficou em silêncio de novo, a Senhora Ochiba exclamou: — Mariko-san, o seu aluno é uma honra para a senhora, neh?
Mariko estava vindo por entre os convidados, com um jovem ao lado. Junto deles ele reconheceu Kiritsubo e a Senhora Sazuko. Viu o jovem sorrir para uma garota e depois, embaraçado, alcançar Mariko. — Boa noite, Senhora Toda — disse Blackthorne, e acrescentou perigosamente em latim, inebriado pelo próprio sucesso: — A noite está mais bela por causa da sua presença. — Obrigada, Anjin-san — respondeu ela em japonês, as faces colorindo-se. Dirigiu-se para a plataforma, mas o jovem ficou dentro do círculo de assistentes. Mariko curvou-se para Ochiba. — Fiz pouco, Ochiba-sama. Foi tudo trabalho do Anjin-san e do livro de palavras que os padres cristãos lhe deram.
— Ah, sim, o livro de palavras! — Ochiba fez Blackthorne mostrá-lo a ela e, com a ajuda de Mariko, explicá-lo elaboradamente. Ficou fascinada. Assim como Ishido. — Precisamos providenciar cópias, senhor general. Por favor, ordene-lhes que nos dêem cem livros. Com eles, os nossos jovens poderiam aprender bárbaro logo, neh?
— Sim. É uma boa idéia, senhora. Quanto mais depressa tivermos nossos próprios intérpretes, melhor. — Ishido riu. — Vamos deixar os cristãos quebrarem o seu próprio monopólio, neh?
Um samurai grisalho por volta dos sessenta anos, que se encontrava à frente dos convidados, disse: — Os cristãos não possuem monopólio, senhor general. Pedimos aos padres cristãos... na realidade insistimos em que eles sejam intérpretes e negociadores porque são os únicos que sabem conversar com os dois lados e merecem confiança dos dois lados. O Senhor Goroda deu início ao costume, neh? E depois o táicum continuou.
— Naturalmente, Senhor Kiyama, não tive a intenção de desrespeitar os daimios ou samurais que se tornaram cristãos. Referi-me apenas ao monopólio dos padres cristãos — disse Ishido. — Seria melhor para nós se a nossa gente e não padres estrangeiros — quaisquer padres, no que diz respeito ao assunto — controlassem o nosso comércio com a China.
— Nunca houve um caso de fraude, senhor general — disse Kiyama. — Os preços são justos, o comércio é fácil e eficiente, e os padres controlam a sua gente. Sem os bárbaros meridionais, não há seda, não há comércio com a China. Sem os padres poderíamos ter muitos problemas. Muitíssimos, sinto muito. Por favor, desculpe-me por mencionar isso.
— Ah, Senhor Kiyama — disse a Senhora Ochiba. — Estou certa de que o Senhor Ishido ficou honrado de o senhor o ter corrigido, não é assim, senhor general? O que o conselho seria sem as sugestões do Senhor Kiyama?
— Naturalmente — disse Ishido.
Kiyama curvou-se rigidamente, não descontente. Ochiba olhou para o jovem e agitou o leque. — E você, Saruji-san? Talvez gostasse de aprender bárbaro?
O menino corou com o exame deles. Era esbelto e bonito, e tentava arduamente aparentar mais idade que os seus quase quinze anos. — Oh, espero não ter que fazer isso, Ochiba-sarna, oh, não... mas se for ordenado, tentarei. Sim, tentarei arduamente. Eles riram com a sua ingenuidade. Mariko disse orgulhosamente em japonês: — Anjin-san, este é o meu filho, Saruji. — Blackthorne estivera concentrado na conversa, a maior parte da qual era rápida e vernacular demais para que ele compreendesse. Mas ouvira "Kiyama" e um alarma soou. Curvou-se para Saruji e a mesura foi formalmente retribuída. — Ele é um homem muito vistoso, neh? Sorte ter um filho tão vistoso, Mariko-sama. — Seus olhos disfarçadamente fitavam a mão direita do jovem. Era permanentemente retorcida. Então se lembrou de que uma vez Mariko dissera que o nascimento do filho fora prolongado e difícil. Pobre rapaz, pensou ele. Como poderia usar uma espada? Desviou os olhos. Ninguém notara a direção do seu olhar, exceto Saruji. Viu o embaraço e sofrimento no rosto do jovem. — Sorte ter filho vistoso — disse a Mariko. — Mas com certeza impossível, Mariko-sama, a senhora ter filho tão grande... não idade suficiente, neh?
— O senhor é sempre tão galante. Anjin-san? — disse Ochiba. — Sempre diz coisas tão inteligentes?
— Por favor?
— Ah, sempre tão inteligente? Elogios? Compreende?