— Sim. Compreendo.
— Você pedirá desculpas amanhã. Convocarei uma reunião dos regentes e eles darão uma orientação sobre esse assunto todo. Então você será autorizada a partir com Kiritsubo e a Senhora Sazuko.
— Por favor, desculpe-me, quanto tempo isso levará? — Não sei. Uns poucos dias.
— Sinto muito, não tenho uns poucos dias, tenho ordem de partir imediatamente.
— Olhe para mim! — Ela obedeceu. — Eu, Kiyama Ukonnoh-Odanaga, senhor de Higo, Satsuma e Osumi, regente do Japão, da linhagem Fujimoto, daimio cristão chefe do Japão, peço-lhe que fique.
— Sinto muito. Meu suserano me proíbe de ficar. — Você não entende o que estou dizendo?
— Sim, senhor. Mas não tenho escolha, por favor, desculpe-me.
Ele apontou para o filho dela. — O acordo de casamento entre minha neta e Saruji... Mal posso permitir que isso vá em frente se você ficar em desgraça.
— Sim, sim, senhor — replicou Mariko, sofrimento nos olhos. — Compreendo isso. — Viu o desespero no menino. — Sinto muito, meu filho. Mas devo cumprir o meu dever.
Saruji começou a dizer alguma coisa, mas mudou de idéia e depois, após um momento, disse: — Por favor, desculpe-me, Mãe, mas... o seu dever para com o herdeiro não é mais importante do que o seu dever para com o Senhor Toranaga? O herdeiro é o nosso verdadeiro suserano, neh?
Ela pensou nisso. — Sim, meu filho. E não. O Senhor Toranaga tem jurisdição sobre mim, o herdeiro não.
— Então isso não significa que o Senhor Toranaga também tem jurisdição sobre o herdeiro?
— Não, sinto muito.
— Por favor, desculpe-me, Mãe, não compreendo, mas parece-me que se o herdeiro dá uma ordem, ele deve prevalecer sobre o nosso Senhor Toranaga.
Ela não respondeu.
— Responda a ele — vociferou Kiyama.
— O pensamento foi seu, meu filho? Ou alguém o colocou na sua cabeça?
Saruji franziu o cenho, tentando se lembrar. — Nós... o Senhor Kiyama e... e a senhora dele... nós discutimos. E o padre-inspetor. Não me lembro. Acho que pensei nisso sozinho. O padre-inspetor disse que eu estava certo, não disse, senhor? — Ele disse que o herdeiro é mais importante do que o Senhor Toranaga no reino. Legalmente. Por favor, responda a ele diretamente, Mariko-san.
Mariko disse: — Se o herdeiro fosse um homem, maior de idade, kwampaku, dirigente legal do reino como o táicum, pai dele, era, então eu lhe obedeceria antes de ao Senhor Toranaga neste caso. Mas Yaemon é uma criança, de fato e legalmente, portanto incapaz. Legalmente. Isso responde à sua pergunta?
— Mas... mas ele ainda é o herdeiro, neh? Os regentes ouvem a ele ... O Senhor Toranaga o honra. O que... o que significa um ano, alguns anos, Mãe? Se a senhora não se desc... Por favor, desculpe-me, tenho medo pela senhora. — A boca do menino tremia.
Mariko teve vontade de abraçá-lo e protegê-lo. Mas não o fez. — Eu não estou com medo, meu filho. Não temo nada neste mundo. Temo apenas o julgamento de Deus — disse ela, voltando-se para Kiyama.
— Sim — disse Kiyama. — Sei disso. Que Nossa Senhora a abençoe por isso. — Fez uma pausa. — Mariko-san, você pedirá desculpas publicamente ao senhor general?
— Sim, de bom grado, desde que ele publicamente retire todas as tropas do meu caminho e dê a mim, à Senhora Kiritsubo e à Senhora Sazuko permissão por escrito para partir amanhã. — Você obedecerá a uma ordem dos regentes?
— Por favor, desculpe-me, senhor, neste assunto, não. — Você respeitará um pedido deles?
— Por favor, desculpe-me, senhor, neste assunto, não.
— Você atenderá a um pedido do herdeiro e da Senhora Ochiba?
— Por favor, desculpe-me, que pedido?
— Para visitá-los, para ficar com eles por alguns dias, enquanto resolvemos este assunto.
— Por favor, desculpe-me, senhor, mas o que há para se resolver?
A contenção de Kiyama se rompeu e ele gritou: — O futuro e a boa ordem do reino de um lado, o futuro da Madre Igreja de outro, e você de outro! Está claro que o seu contato íntimo com o bárbaro a contaminou e aturdiu o seu cérebro, como eu sabia que faria!
Mariko não disse nada, simplesmente sustentou-lhe o olhar. Com um esforço Kiyama recuperou o controle.
— Por favor, desculpe a... a minha irritação. E minha falta de educação — disse, rígido. — Minha única justificativa é que estou gravemente preocupado. — Curvou-se com dignidade. — Peço desculpas.
— A culpa foi minha, senhor. Por favor, desculpe-me por lhe destruir a harmonia e lhe causar um problema. Mas não tenho alternativa.
— Seu filho deu-lhe uma, eu lhe dei diversas. Ela não respondeu.
O ar na sala se tornara sufocante para todos eles, embora a noite estivesse fria e uma brisa atiçasse os archotes.
— Está resolvida, então?
— Não tenho escolha, senhor.
— Muito bem, Mariko-san. Não há mais nada a se dizer. Além de lhe repetir que lhe ordeno não forçar a questão, e pedir-lhe isso.
Ela inclinou a cabeça.
— Saruji-san, por favor, espere por mim lá fora — ordenou Kiyama.
O jovem estava perturbado, quase incapaz de falar. — Sim, senhor. — Curvou-se para Mariko. — Por favor, com licença, Mãe.
— Que Deus o conserve em suas mãos por toda a eternidade. — E à senhora.
— Amém — disse Kiyama. — Boa noite, meu filho. — Boa noite, Mãe.
Quando ficaram sozinhos, Kiyama disse: — O padre-inspetor está muito preocupado.
— Comigo, senhor?
— Sim. E com a Santa Igreja — e o bárbaro. E com o navio bárbaro. Primeiro fale-me sobre ele.
— Ele é um homem singular, muito forte e muito inteligente. Ao mar é... ele pertence ao mar. Parece tornar-se parte de um navio e de mar e, ao largo, não existe homem que se aproxime dele em bravura e astúcia.
— Nem o Rodrigues-san?
— O Anjin-san superou-o duas vezes. Uma aqui e uma quando nos dirigíamos para Yedo. — Contou-lhe sobre a chegada de Rodrigues à noite, durante a estada deles perto de Mishima, e sobre as armas escondidas, e tudo o que acontecera. — Se os navios deles fossem iguais, o Anjin-san venceria. Mesmo que não fossem, acho que ele venceria.
— Fale-me sobre o navio dele. Ela obedeceu.
— Fale-me sobre os vassalos dele. Ela lhe contou, conforme acontecera.
— Por que o Senhor Toranaga lhe daria o navio, dinheiro, vassalos e liberdade?
— Meu amo nunca me revelou, senhor. — Por favor, dê-me a sua opinião.
— A fim de lançar o Anjin-san contra seus inimigos — disse Mariko de imediato, e acrescentou sem se desculpar: — Já que me pergunta, neste caso os inimigos particulares do Anjin-san são os mesmos do meu senhor: os portugueses, os santos padres que instigam os portugueses, e os senhores Harima, Onoshi, e o senhor mesmo.
— Por que o Anjin-san nos consideraria seus inimigos especiais?
— Nagasaki, comércio, e o seu controle costeiro de Kyushu, senhor. E porque o senhor é o daimio cristão chefe.
— A Igreja não é inimiga do Senhor Toranaga. Nem os santos padres.
— Sinto muito, mas penso que o Senhor Toranaga acredita que os santos padres apóiam o Senhor General Ishido, assim como o senhor.
— Eu apóio o herdeiro. Estou contra o seu amo porque ele não o apóia e porque arruinará a nossa Igreja.
— Desculpe, mas isso não é verdade, senhor, meu amo é muito superior ao senhor general. O senhor combateu vinte vezes mais como aliado dele do que contra ele, sabe que ele pode merecer confiança. Por que se alinhar com esse inimigo confesso? O Senhor Toranaga sempre desejou o comércio e simplesmente não é anticristão como o senhor general e a Senhora Ochiba.
— Por favor, desculpe-me, Mariko-san, mas diante de Deus acredito que o Senhor Toranaga secretamente detesta a nossa fé cristã, secretamente tem aversão à nossa Igreja, e secretamente está empenhado em destruir a sucessão e aniquilar o herdeiro e a Senhora Ochiba. O que o atrai é o xogunato — apenas isso! Secretamente ele deseja ser xógum, trama para tornar-se xógum, e tudo está apontado unicamente para esse fim.