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— Diante de Deus, senhor, não acredito nisso.

— Eu sei... mas isso não lhe dá razão. — Observou-a um momento, depois disse: — Conforme você mesma admitiu, esse Anjin-san e o seu navio são perigosos para a Igreja, neh? O Rodrigues concorda com você que se o Anjin-san pegasse o Navio Negro ao mar seria muito sério.

— Sim, também acredito nisso, senhor.

— Isso prejudicaria muitíssimo a nossa Madre Igreja, neh? — Sim.

— Mas ainda assim você não ajudará a Igreja contra esse homem?

— Ele não é contra a Igreja, senhor, nem realmente contra os padres, embora desconfie deles. Só é contra os inimigos da sua rainha. E o Navio Negro é o seu objetivo — por lucro.

— Mas opõe-se à verdadeira fé e portanto é um herege. Neh?

— Sim. Mas não creio que tudo o que os padres nos contaram seja verdadeiro. E muita coisa nunca nos foi revelada. Tsukku-san admitiu muitas coisas. Meu suserano ordenou-me que me tornasse confidente e amiga do Anjin-san, que lhe ensinasse a nossa língua e costumes, que aprendesse com ele o que poderia ser de valor para nós. Descobri...

— Você quer dizer valioso para Toranaga. Neh?

— Senhor, a obediência a um suserano é o pináculo da vida de um samurai. Não é obediência o que o senhor exige de todos os seus vassalos?

— Sim. Mas heresia é terrível e parece que você se aliou ao bárbaro contra a sua Igreja e está contaminada por ele. Rezo para que Deus lhe abra os olhos, Mariko-san, antes que você perca a sua própria salvação. Agora, por último, o padre-inspetor disse que você tinha uma informação particular para mim.

— Senhor? — Aquilo era totalmente inesperado.

— Ele disse que havia uma mensagem de Tsukku-san alguns dias atrás. Um mensageiro especial de Yedo. Você tem uma informação sobre... sobre os meus aliados.

— Pedi para ver o padre-inspetor amanhã de manhã. — Sim. Ele me disse. Bem?

— Por favor, desculpe-me, depois que eu o tiver visto amanhã, eu...

— Não amanhã, agora! O padre-inspetor disse que tinha alguma coisa a ver com o Senhor Onoshi e interessava à Igreja, e que você devia me contar imediatamente. Diante de Deus, foi isso o que ele disse. Terão as coisas chegado a um ponto tão vil que você não confiará nem em mim?

— Sinto muito. Fiz um acordo com o Tsukku-san. Ele me pediu que falasse abertamente com o padre-inspetor, isso é tudo, senhor.

— O padre-inspetor disse que você falasse comigo agora. Mariko percebeu que não tinha alternativa. Os dados estavam lançados. Contou-lhe sobre a conspiração contra a sua vida.

Tudo o que sabia. Ele, também, escarneceu do boato até que ela lhe revelasse de onde procedia a informação.

— O confessor dele? Ele? — Sim. Sinto muito.

— Lamento que Uraga esteja morto — disse Kiyama, ainda mais mortificado de que o ataque noturno contra o Anjin-san tivesse sido um fiasco tão grande — como a emboscada anterior — e agora tivesse matado o homem que podia provar que seu inimigo Onoshi era um traidor. — Uraga arderá no inferno para sempre por esse sacrilégio. É terrível o que ele fez. Merece excomunhão e as chamas do inferno, mas ainda assim prestou-me um serviço revelando o segredo... se for verdade. — Kiyama olhou para ela, repentinamente um homem velho. — Não posso acreditar que Onoshi faria isso. Ou que o Senhor Harima estivesse a par.

— Sim. O senhor poderia... poderia perguntar ao Senhor Harima se é verdade?

— Sim, mas ele nunca revelaria uma coisa assim. Eu não o faria, você sim? Muito triste, neh? Como são terríveis os caminhos do homem.

— Sim.

— Não vou acreditar, Mariko-san. Uraga está morto, portanto nunca poderemos obter provas. Tomarei precauções mas... mas não posso crer.

— Sim. Um pensamento, senhor. Não é muito estranho que o senhor general coloque uma guarda em torno do Anjin-san? — Por que estranho?

— Por que protegê-lo? Quando ele o detesta? Muito estranho, neh? Poderia ser que agora o senhor general também veja o Anjin-san como uma possível arma contra os daimios cristãos? — Não estou acompanhando o raciocínio.

— Se, Deus o livre, o senhor morrer, senhor, o Senhor Onoshi torna-se supremo em Kyushu, neh? O que o senhor general poderia fazer para refrear Onoshi? Nada — exceto, talvez, usar o Anjin-san.

— É possível — disse Kiyama lentamente.

— Há apenas uma razão para proteger o Anjin-san: usá-lo. Onde? Apenas contra os portugueses — e assim os daimios cristãos de Kyushu. Neh?

— É possível.

— Creio que o Anjin-san é tão valioso para o senhor quanto para Onoshi, Ishido ou o meu amo. Vivo. O conhecimento dele é enorme. Apenas o conhecimento pode nos proteger dos bárbaros, mesmo dos portugueses.

— Podemos esmagá-los — disse Kiyama com desdém —, expulsá-los no momento em que quisermos. São mosquitos num cavalo, mais nada.

— Se a Santa Madre Igreja vencer e o país todo se tornar cristão, como rezamos para que ocorra, o que acontecerá? A nossa lei sobreviverá? O bushido sobreviverá? Contra os mandamentos? Suponho que não, como em todos os lugares do mundo católico, não quando os santos padres são supremos, não a menos que estejamos preparados.

Ele não respondeu.

Em seguida ela disse: — Senhor, imploro-lhe, pergunte ao Anjin-san o que aconteceu por toda parte no mundo.

— Não farei isso. Acho que ele a enfeitiçou, Mariko-san. Acredito nos santos padres. Acho que o seu Anjin-san foi instruído por Satã, e imploro-lhe que perceba que a heresia dele já a contaminou. Você usou "católico" três vezes referindo-se a cristão. Isso não sugere que você concorda com ele em que existam duas fés, duas versões igualmente verdadeiras da verdadeira fé? A sua ameaça desta noite não é uma faca no ventre do herdeiro? E contra os interesses da Igreja? — Ele se levantou. — Obrigado pela sua informação. Vá com Deus.

Mariko tirou da manga um pequeno e delgado rolo de papel lacrado. — O Senhor Toranaga pediu-me que lhe entregasse isto. Kiyama olhou para o selo intacto. — Você sabe o que contém, Mariko-san?

— Sim. Recebi ordem de destruí-lo e passar a mensagem verbalmente se fosse interceptada.

Kiyama rompeu o lacre. A mensagem reiterava o desejo de Toranaga de que houvesse paz entre eles, seu apoio total ao herdeiro e à sucessão, e dava brevemente a informação sobre Onoshi. Terminava: "Não tenho provas sobre o Senhor Onoshi, mas Uraga-noh-Tadamasa terá e, deliberadamente, foi colocado à sua disposição em Osaka, para interrogá-lo caso o deseje. Contudo, tenho provas de que Ishido também traiu o acordo secreto entre o senhor e ele, de dar-lhe o Kwanto, e aos seus descendentes, assim que eu estiver morto. O Kwanto foi secretamente prometido ao meu irmão, Zataki, em troca de que este me traia, como já o fez. Por favor, desculpe-me, velho camarada, mas o senhor também foi traído. Assim que eu estiver morto, o senhor e a sua linhagem serão isolados e destruídos, assira como a Igreja cristã inteira. Imploro-lhe que reconsidere. Dentro em breve terá provas da minha sinceridade".

Kiyama releu a mensagem e ela o observou conforme lhe fora ordenado. — Observe-o muito cuidadosamente, Mariko-san — dissera-lhe Toranaga. — Não tenho certeza do acordo dele com Ishido sobre o Kwanto. Espiões relataram isso, mas não tenho certeza. Você saberá pelo que ele fizer — ou não fizer —, se lhe entregar a mensagem no momento correto.

Ela vira Kiyama reagir. Então isso também é verdade, pensou.

O velho daimio levantou os olhos e disse inexpressivamente: — E você é a prova da sinceridade dele, neh? O holocausto, o cordeiro sacrifical?

— Não, senhor.

— Não acredito em você. E não acredito nele. A traição de Onoshi, talvez. Mas o resto... o Senhor Toranaga está apenas lidando com os seus velhos truques de misturar meias verdades com mel e veneno. Receio que você é que tenha sido traída, Mariko-san.