Ele assentiu do modo adequado a um samurai e se dirigiu para o banho. Não era costume tomar banho quente de manhã. Mas todas as manhãs ele ia lá e derramava água fria pelo corpo todo. — Iiiiih, Anjin-san — sempre diziam os seus guardas ou observadores —, isso com certeza faz muito bem para a sua saúde.
Vestiu-se e rumou para as ameias que davam para o adro daquela ala do castelo. Estava usando um quimono marrom e espadas, a pistola escondida no sash. Marrons de sentinela saudavam-no como a um deles, embora muito apreensivos pela presença dos cinzentos que o seguiam. Outros cinzentos amontoavam-se nas ameias opostas, olhando-os de cima, e fora do portão deles.
— Muitos cinzentos, muito mais do que o habitual. Compreende, Anjin-san? — disse Yoshinaka, saindo para o balcão. — Sim.
O capitão dos cinzentos aproximou-se. — Por favor, não chegue muito perto da beirada, Anjin-san. Sinto muito.
O sol estava no horizonte. O seu calor causou uma sensação agradável na pele de Blackthorne. Não havia nuvens no céu e a brisa estava se extinguindo.
O capitão dos cinzentos apontou para a espada de Blackthorne. — Essa é a Vendedor de Óleo, Anjin-san?
— Sim, capitão.
— Posso ter permissão de ver a lâmina?
Blackthorne puxou a espada parcialmente da bainha. O costume decretava que uma espada não devia ser totalmente sacada a menos que fosse para ser usada.
— Iiiiih, linda, neh? — disse o capitão. Os outros, marrons e cinzentos, amontoaram-se ao redor, igualmente impressionados. Blackthorne empurrou a espada de volta, não descontente. — Honra usar Vendedor de Óleo.
— Sabe usar uma espada, Anjin-san? — perguntou o capitão. — Não, capitão. Não como samurai. Mas aprendo.
— Ah, sim. Isso é muito bom.
No adro, dois andares abaixo, marrons treinavam, ainda na sombra. Blackthorne observou-os. — Quantos samurais aqui, Yoshinaka-san?
— Quatrocentos e três, Anjin-san, incluindo os duzentos que vieram comigo.
— E lá fora?
— Cinzentos? — Yoshinaka riu. — Muitos... muitíssimos. O capitão dos cinzentos mostrou os dentes com o sorriso. — Quase cem mil. Compreende, Anjin-san, "cem mil"?
— Sim. Obrigado.
Todos olharam à distância quando uma coluna de carregadores, cavalos de carga e três palanquins contornaram a esquina oposta, vindo sob guarda da extremidade do acesso. A avenida ainda estava profundamente obscurecida entre os altos muros vigiados. Archotes ainda ardiam nos suportes de parede. Mesmo àquela distância, eles podiam ver o nervosismo dos carregadores. Os cinzentos do outro lado pareceram mais silenciosos e atentos, o mesmo acontecendo com os marrons de guarda.
Os altos portões se abriram para dar passagem ao grupo, a escolta de cinzentos ficando de fora com os camaradas, depois se fecharam de novo. A grande barra de ferro retiniu de volta aos grandes apoios cravados bem fundo nos muros de granito. Não havia rastrilho guardando esse portão.
— Anjin-san — disse Yoshinaka —, por favor, desculpe-me. Preciso ver se tudo está bem. Tudo pronto, neh?
— Espero aqui.
— Sim. — Yoshinaka afastou-se.
O capitão dos cinzentos foi até o parapeito e olhou para baixo. Jesus Cristo, estava pensando Blackthorne, espero que ela tenha razão. Toranaga também. Não falta muito agora, hein? Avaliou a altura do sol e murmurou vagamente consigo mesmo em português: — Não falta muito para partir.
Inconscientemente o capitão grunhiu sua aquiescência e Blackthorne percebeu que o homem o compreendia claramente em português, era portanto católico e outro possível assassino. Sua mente precipitou-se de volta à noite passada, e ele se lembrou de que tudo o que dissera a Mariko fora em latim.
Foi mesmo? Mãe de Deus, e ela dizendo "... posso mandar mata-los"? Foi em latim? Será que ele também fala latim, como aquele outro capitão, o que foi morto durante a primeira fuga de Osaka?
O sol reunia forças agora e Blackthorne desviou os olhos do capitão. Se não me assassinou durante a noite, talvez nunca o faça, pensou ele, colocando aquele católico num compartimento.
Viu Kiri sair para o adro abaixo. Supervisionava criadas carregando cestos e baús até os cavalos de carga. Parecia minúscula, em pé nos degraus principais onde Sazuko fingira escorregar, colaborando para a fuga de Toranaga. Ao norte ficava o agradável jardim e a minúscula casa rústica onde vira Mariko e Yaemon, o herdeiro, pela primeira vez. Mentalmente acompanhou o cortejo do meio-dia saindo do castelo, serpeando através do labirinto, depois em segurança através dos bosques e descendo até o mar. Rezou para que ela estivesse em segurança e todos estivessem seguros. Uma vez que elas tivessem partido, Yabu e ele poderiam voltar à galera e zarpar.
Dali das ameias o mar parecia muito perto. Chamava-o. E o horizonte.
— Konbanwa, Anjin-san.
— Mariko-san! — Ela estava tão radiante como sempre. — Konbanwa — disse ele, depois em latim, com indiferença: — Cuidado com este homem cinzento, ele compreende — continuando instantaneamente em português para dar tempo a ela de se resguardar —, sim, não compreendo como pode estar tão bela tendo dormido tão pouco. — Pegou-lhe o braço e colocou-a de costas para o capitão, trazendo-a mais para perto do parapeito. — Olhe, lá está Kiritsubo-san!
— Obrigada. Sim, sim, eu... obrigada. — Por que não acena a Kiritsubo-san?
Ela fez o que lhe era pedido e chamou o nome da outra. Kiri os viu e retribuiu o aceno.
Após um momento, novamente descontraída e controlada, Mariko disse: — Obrigada, Anjin-san. O senhor é inteligente e muito sábio. — Cumprimentou o capitão casualmente e caminhou a esmo até uma saliência onde se sentou, depois de se certificar de que estava limpa. — Vai fazer um dia excelente, neh?
— Sim. Como dormiu?
— Não dormi, Anjin-san. Kiri e eu tagarelamos o resto da noite afora e eu vi o dia amanhecer. Adoro amanheceres. E o senhor?
— Meu descanso foi perturbado, mas... — Oh, sinto muito.
— Estou bem agora, realmente. Vai partir agora?
— Sim, mas voltarei ao meio-dia para buscar Kiri-san e a Senhora Sazuko. — Desviou o rosto do capitão e disse em latim: — Você. Lembra-se da Hospedaria das Flores?
— Certamente. Como poderia esquecer?
— Se houver um adiamento... esta noite será tão perfeita quanto cheia de paz.
— Ah, gostaria de que isso fosse possível. Mas prefiro vê-Ia em segurança a caminho.
Mariko continuou em português: — Agora tenho que ir, Anjin-san. O senhor me dá licença?
— Acompanho-a até o portão.
— Não, por favor, olhe daqui. O senhor e o capitão podem olhar daqui, neh?
— Naturalmente — disse Blackthorne no mesmo instante, compreendendo. — Vá com Deus.
— Você também — retrucou ela em latim.
Ele ficou junto ao parapeito. Enquanto esperava, a luz do sol incidiu sobre o adro, expulsando as sombras. Mariko apareceu lá embaixo. Viu-a saudar Kiri e Yoshinaka e conversarem os três, sem cinzentos inimigos por perto. Depois se curvaram. Ela levantou os olhos para ele, e acenou alegremente. Ele correspondeu. Os portões foram puxados para os lados e, com Chimmoko alguns discretos passos atrás, ela saiu, acompanhada pela sua escolta de dez marrons. Os portões giraram nos gonzos mais uma vez. Por um momento ele a perdeu de vista. Quando reapareceu, cinqüenta cinzentos da multidão que se encontrava fora dos muros rodearam-na como outra guarda de honra. O cortejo marchou pela avenida sem sol. Ele a observou até que ela dobrasse a última esquina. Sem se voltar nem uma vez.
— Vou comer agora, capitão — disse ele. — Sim, naturalmente, Anjin-san.
Blackthorne dirigiu-se para os seus aposentos e comeu arroz, vegetais em conserva e pedacinhos de peixe cozido, seguidos de frutas de Kyushu — pequenas maçãs ácidas, abricós e ameixas de polpa dura. Saboreou as frutas amargas e o chá.
— Mais, Anjin-san? — perguntou a criada.
— Não, obrigado. — Ofereceu frutas aos guardas, que aceitaram agradecidos, e quando terminaram ele voltou às ensolaradas ameias. Teria gostado de examinar a escorva de sua pistola escondida, mas achou melhor não chamar atenção para a arma. Examinara-a uma vez, durante a noite, da melhor maneira que pudera, sob o mosquiteiro, sob o lençol. Mas, sem ver realmente, não podia ter certeza quanto à bucha ou à pederneira.