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- Sinto muito. Não houve nada que eu pudesse fazer -  disse o padre com uma grande tristeza. - Não acho que ele me reconhecesse ou a qualquer outro no momento em que o puseram na água. Já havia perdido o juízo. Dei-lhe absolvição e rezei por ele. Talvez, com a piedade de Deus... In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amém. - Fez o sinal-da-cruz sobre a cela. - Imploro-lhes que renunciem às suas heresias e serão aceitos de   volta na fé de Deus. Piloto, você tem que subir.

- Não nos deixe, piloto, pelo amor de Deus! - gritou Croocq.

Vinck cambaleou rumo à escada e começou a subir.

- Podem pegar a mim, não ao piloto. Eu, não ele. Diga-lhe... - Parou, desamparado, os dois pés nos degraus. Uma longa lança   estava a uma polegada de sua cabeça. Tentou agarrar-lhe o cabo, mas o samurai estava preparado e se Vinck não tivesse saltado, teria sido empalado.

Esse mesmo samurai apontou para Blackthorne e fez-lhe sinal que subisse. Rudemente. Blackthorne continuou imóvel. Outro samurai empurrou um longo bastão farpado para dentro da cela e tentou fisgar Blackthorne.

Ninguém se moveu para ajudar Blackthorne exceto o samurai na cela. Agarrou a fisga rapidamente e disse alguma coisa, ríspido, ao homem lá em cima, que hesitou; depois olhou para Blackthorne, deu de ombros e falou:

- Que foi que ele disse?

O padre respondeu:

- É um dito japonês: "O destino de um homem é o destino de um homem, e a vida não passa de uma ilusão".

Blackthorne fez um gesto de cabeça ao samurai e se dirigiu para a escada sem olhar para trás. Subiu. Quando se viu em plena luz do sol, semicerrou os olhos por causa da dolorosa claridade, os joelhos cederam e ele desabou sobre a terra arenosa. Omi estava de um lado. O padre e Mura erguiam-se perto dos quatro samurais. Alguns aldeães a distância olharam um momento, depois deram as costas e se foram.

Ninguém o ajudou.

Oh, Deus, dê-me força, orou Blackthorne. Tenho que me pôr de pé e fingir ser forte. É a única coisa que eles respeitam. Ser forte. Não demonstrar medo. Por favor, ajude-me.

Rangeu os dentes, tomou impulso contra a terra e levantou-se, oscilando ligeiramente.

- Que diabo você quer de mim, seu bastardinho sifilítico? - disse diretamente a Omi, depois acrescentou para o padre: - Diga ao bastardo que eu sou um daimio no meu país e que espécie de tratamento é este? Diga-lhe que não queremos briga com ele. Diga-lhe que nos deixe sair ou será pior para ele. Diga-lhe que sou um daimio, por Deus. Sou herdeiro de Sir William de Micklehaven, possa o bastardo estar morto há muito tempo. Diga-lhe!

A noite fora terrível para o Padre Sebastio. Mas durante a vigília ele viera a sentir a presença de Deus e ganhara uma segurança que nunca experimentara antes. Agora sabia que poderia ser um instrumento de Deus contra os pagãos, que estava escudado contra os pagãos e a astúcia do pirata. De algum modo sabia que aquela noite fora uma preparação, uma encruzilhada   para ele.

— Diga-lhe.

O padre disse em japonês:

-O pirata diz que é um senhor em seu país. - Ouviu a resposta de Omi. – Omi-san diz que não importa se você é um rei no seu país. Aqui você vive na   dependência do capricho do Senhor Yabu, você e todos os seus homens.

- Diga-lhe que ele é um bosta.

- Você deveria tomar cuidado e não insultá-lo.

Omi começou a falar de novo.

- Omi-san diz que vão lhe dar um banho. E comida e bebida. Se se comportar, não será posto de volta no buraco.

- E os meus homens?

O padre perguntou a Omi.

- Vão continuar lá embaixo.

- Então diga-lhe que vá para o inferno. - Blackthorne encaminhou-se para a escada, para voltar para baixo. Dois dos samurais o impediram e, embora lutasse, dominaram-no facilmente.  Omi falou ao padre, depois a seus homens. Soltaram-no e   Blackthorne quase caiu.

- Omi-san diz que, a menos que você se comporte, outro dos seus homens será trazido para cima. Há muita lenha e muita água.

Se eu concordar agora, pensou Blackthorne, eles terão encontrado o meio de me controlar e ficarei em poder deles para sempre. Mas o que importa isso? Estou em poder deles agora e, no final, terei que fazer o que quiserem. Van Nekk tinha razão. Terei que fazer qualquer coisa.

- O que ele quer que eu faça? O que quer dizer com "comportar-me"?

- Omi-san diz que significa obedecer. Fazer o que lhe disserem que faça. Comer excremento, se for necessário.

- Diga-lhe que vá para o inferno. Diga-lhe que mijo em cima dele e em cima do país dele inteiro. E em cima do daimio dele.

- Recomendo que concorde com...

- Diga-lhe o que eu disse, exatamente, por Deus!

- Muito bem, mas eu o preveni, piloto.

Omi ouviu o padre. Os nós na mão sobre a espada embranqueceram. Todos os seus homens mudaram de posição, inquietos, com os olhos apunhalando Blackthorne. Então, calmamente, Omi deu uma ordem.

Imediatamente dois samurais desceram ao buraco e trouxeram Croocq, o rapaz. Arrastaram-no até o caldeirão, amarraram-no, enquanto outros traziam lenha e água. Puseram o rapaz petrificado no caldeirão cheio até a borda e acenderam o fogo.

Blackthorne olhava os movimentos de boca de Croocq, que não conseguia emitir som, e o terror que o dominava por completo. A vida não tem valor em absoluto para essa gente, pensou.

Deus os amaldiçoe com o inferno, vão ferver Croocq e isso é tão certo quanto eu estar nesta terra esquecida por Deus. A fumaça se elevava da areia. Gaivotas grasnavam em torno dos barcos de pesca. Um pedaço de lenha da fogueira caiu e foi   chutado de volta por um samurai.

- Diga-lhe que pare - disse Blackthorne. - Peça-lhe que pare.

- Omi-san diz: Você concorda em se comportar?

- Sim.

- Obedecerá a todas as ordens?

- Na medida do possível, sim.

Omi falou novamente. O Padre Sebastio fez uma pergunta e ele assentiu.

- Ele quer que você responda diretamente a ele. A palavra japonesa para "sim" é "hai". Ele pergunta se você obedecerá a todas as ordens.

- Na medida do possível, -.

O fogo estava começando a esquentar a água e um gemido nauseado irrompeu da boca do rapaz. As chamas do fogo aceso sobre os tijolos sob o ferro lambiam o metal. Mais madeira foi empilhada.

- Omi-san diz que você se deite. Imediatamente.

Blackthorne fez conforme o ordenado.

- Omi-san diz que não o insultou pessoalmente, nem havia motivo algum para que você o insultasse. Como você é um bárbaro e ainda não sabe proceder melhor, não será morto. Mas aprenderá bons modos. Compreende?

- Sim.

- Ele quer que você responda diretamente a ele.

Houve um grito lamentoso do rapaz. Durou momentos intermináveis e então o rapaz desmaiou. Um dos samurais segurou-lhe a cabeça fora da água.

Blackthorne olhou para Omi. Lembre-se, ordenou a si mesmo, lembre-se de que o rapaz está nas suas mãos, a vida de todos os seus homens está nas suas mãos. Sim, começou a metade má dele, mas não há garantia de que o bastardo vá respeitar um acordo.

- Compreende?

- Hai.

Viu Omi levantar o quimono e puxar o pênis para fora da tanga. Esperava que o homem lhe urinasse no rosto. Mas Omi não fez isso. Urinou-lhe nas costas. Pelo Senhor Deus, jurou Blackthorne a si mesmo, eu me lembrarei deste dia e de algum   modo, em algum lugar, Omi pagará.

- Omi-san diz que é falta de educação você dizer que vai mijar em cima de alguém. Muita falta de educação. É falta de educação e muita estupidez dizer que vai mijar em cima de alguém quando você está desarmado. É muita falta de educação e uma estupidez ainda maior dizer que vai mijar em cima de alguém quando está desarmado, impotente e despreparado para permitir que seus amigos, sua família ou seja quem for morra primeiro. - Blackthorne não disse nada. Não desviava os olhos de Omi.

- Wakarimasu ka? - disse Omi.

- Ele pergunta se você compreende.