- Talvez eu possa ser autorizado a chamá-la de "A Pedra da Felicidade", para lembrar a mim e a meus descendentes das honras que o senhor me faz, tio?
- Não, o melhor é simplesmente chamá-la de " Bárbaro à Espera". Sim, gosto disso. Isso nos aproxima muito mais, a ele e a mim. Ele estava esperando, assim como eu estava esperando. Eu vivi, ele morreu. - Yabu olhou para o jardim, meditando. - Bom, "O Bárbaro à Espera"! Gosto do nome. Há uns curiosos salpicos num lado da rocha que me lembram lágrimas, e veios de quartzo azul mesclado com um tom avermelhado que me lembram a carne, a impermanência da carne! - Yabu suspirou, desfrutando a própria melancolia. Depois acrescentou: - É bom para um homem plantar uma pedra e dar-lhe um nome. O bárbaro levou muito tempo para morrer, neh? Talvez ele venha ao mundo novamente como japonês, para compensá-lo pelo sofrimento. Não seria maravilhoso? Então um dia, talvez, seus descendentes veriam a pedra e ficariam contentes.
Omi emitiu uma profusão de agradecimentos sinceros, e protestou que nunca merecera tanta bondade. Yabu sabia que a bondade não era maior do que a merecida. Poderia facilmente ter dado mais, mas lembrara-se do velho adágio de que sempre se pode aumentar um feudo, mas reduzi-lo causa inimizade. E traição.
- Oku-san - disse ele à mulher, dando-lhe o título de Mãe Honorável -, meu irmão deveria ter-me falado mais cedo sobre as grandes qualidades de seu filho mais novo. Omi-san teria progredido muitíssimo mais. Meu irmão é reservado demais, descuidado demais.
- Meu marido zela demais pelo senhor para preocupá-lo, meu senhor - replicou ela, consciente da crítica subjacente. Estou contente de que meu filho tenha tido uma oportunidade de servi-lo e que lhe tenha agradado. Meu filho simplesmente cumpriu o próprio dever, neh? É nosso dever - de Mizuno-san e de todos nós - servir.
Ouviram o tropel de cavalos subindo a colina. Igurashi, assistente-chefe de Yabu, transpôs o jardim a passos largos.
- Está tudo pronto, senhor. Se deseja voltar para Yedo rapidamente, devíamos partir agora.
- Bom. Omi-san, você e seus homens irão com o comboio e darão assistência a Igurashi-san até vê-lo entrar em segurança no castelo.
Yabu viu uma sombra atravessar o rosto de Omi.
- O que é?
- Só estava pensando nos bárbaros.
- Deixe alguns guardas para eles. Comparados ao comboio, não têm importância alguma. Faça o que quiser com eles. Ponha-os de volta no buraco, faça como quiser. Quando e se você obtiver alguma coisa útil deles, mande-me um recado.
- Sim, senhor - retrucou Omi. - Deixarei dez samurais e instruções específicas com Mura. Eles não vão causar dano em cinco ou seis dias. O que deseja que se faça com o navio?
- Mantenha-o em segurança aqui. Você é responsável por ele, naturalmente. Zukimoto mandou cartas a um negociante em Nagasaki para oferecer-lhe a compra aos portugueses. Os portugueses podem vir buscá-lo.
Omi hesitou.
- Talvez devesse conservar o navio, senhor, e fazer os bárbaros treinar alguns dos nossos marinheiros para manejá-lo.
- Para que preciso de navios bárbaros? - riu Yabu zombeteiramente. - Devo me tornar um imundo mercador?
- Claro que não, senhor - disse Omi rapidamente. - Simplesmente pensei que Zukimoto poderia encontrar um uso para um vaso assim.
- Para que preciso de um navio mercante?
- O padre diz que é um navio de guerra, senhor. Parecia com medo dele. Quando a guerra começar, um navio de guerra poderia...
- Nossa guerra será realizada em terra. O mar é para mercadores, que são todos usurários imundos, para piratas ou para pescadores. - Yabu levantou-se e começou a descer os degraus em direção ao portão do jardim, onde um samurai segurava a rédea de seu cavalo. Parou e olhou fixamente para o mar. Sentiu os joelhos enfraquecer. Omi seguiu-lhe o olhar.
Um navio estava contornando o promontório. Era uma grande galera com uma infinidade de remos, o mais veloz dos vasos costeiros japoneses porque não dependia nem do vento nem da maré. A bandeira no topo do mastro ostentava o escudo de Toranaga.
CAPÍTULO 7
Toda Hiromatsu, chefe supremo das províncias de Sagami e Kokuzé, o general e conselheiro de mais confiança de Toranaga, comandante-chefe de todos os seus exércitos, desceu a passos largos pela prancha de desembarque até o desembarcadouro, sozinho. Era alto para um japonês, pouco menos de seis pés, um homem de compleição taurina com maciços maxilares, que carregava seus sessenta e sete anos com vigor. Seu quimono militar era de um marrom severo, com exceção dos cinco pequenos escudos Toranaga - três ramos de flores de bambu entrelaçados. Usava um peitoral lustroso e protetores de braços de aço. Apenas a espada curta lhe pendia da cintura. A outra, a mortífera, ele a levava frouxamente na mão. Estava pronto a desembainhá-la e matar imediatamente para proteger seu suserano. Tinha esse costume desde os quinze anos de idade.
Ninguém, nem mesmo o taicum, conseguira mudá-lo.
Um ano antes, quando o taicum morrera, Hiromatsu se tornara vassalo de Toranaga. Toranaga lhe dera Sagami e Kokuzé, duas das suas oito províncias, para governar, quinhentos mil kokus anuais, e também o deixara conservar o seu hábito. Hiromatsu era ótimo em matar.
Ao longo da praia alinhavam-se todos os aldeães - homens, mulheres, crianças -, de joelhos e cabeça baixa. Diante deles, os samurais em filas disciplinadas, formais. Yabu estava à frente, com seus lugar-tenentes.
Se Yabu fosse uma mulher ou um homem mais fraco, sabia que estaria batendo no peito, gemendo e arrancando os cabelos. Era coincidência demais. Pois o famoso Toda Hiromatsu estar ali, naquele dia, significava que Yabu fora traído - ou em Yedo, por alguém da sua casa, ou ali, em Anjiro, por Omi, um dos homens de Omi ou um dos aldeães. Fora surpreendido em desobediência. Um inimigo tirara partido do seu interesse pelo navio.
Ajoelhou-se, curvou-se e todos os samurais o imitaram. Amaldiçoou o navio e quem navegava nele.
- Ah, Yabu-sama - ouviu Hiromatsu dizer, e viu-o ajoelhar-se na esteira que fora estendida para ele e retribuir a mesura.
Mas a reverência foi menos profunda que o correto e Hiromatsu não esperou que ele se curvasse de novo, de modo que soube, sem que lhe dissessem, que se encontrava em seriíssimo perigo. Viu o general sentar-se sobre os calcanhares. "Punho de Aço" era como o chamavam pelas costas. Apenas Toranaga ou um dos três conselheiros teria o privilégio de hastear a bandeira de Toranaga. Por que enviar um general tão importante no meu encalço?
- O senhor me honra vindo a uma das minhas pobres aldeias, Hiromatsu-sama - disse.
- Meu senhor me enviou. - Hiromatsu era conhecido pela sua rudeza. Não tinha nem malícia nem astúcia, apenas uma fidelidade absoluta a seu suserano.
- Estou honrado e muito contente - disse Yabu. - Precipitei-me de Yedo para cá por causa do navio bárbaro.
- O Senhor Toranaga convidou todos os daimios amigos a esperar em Yedo até que ele regressasse de Osaka.
- Como está o nosso senhor? Espero que esteja tudo bem com ele.
- Quanto mais depressa o Senhor Toranaga estiver a salvo em seu castelo de Yedo, melhor. Quanto mais depressa o conflito com Ishido for declarado e nós reunirmos nossos exércitos, investirmos contra o Castelo de Osaka e o queimarmos até os tijolos, melhor. - Os maxilares do velho se avermelhavam à medida que sua ansiedade por Toranaga aumentava; odiava estar longe dele.
O taicum construíra o Castelo de Osaka para ser invulnerável. Era o maior do império, com masmorras e fossos interligados, castelos menores, torres e pontes, e espaço para oitenta mil soldados dentro de seus muros. Em torno dos muros e na cidade imensa estavam outros exércitos, igualmente disciplinados e igualmente bem armados, todos fanáticos partidários de Yaemon, o herdeiro.