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- Eu lhe disse uma dúzia de vezes que era louco em se pôr nas mãos de Ishido. Doido!

- O Senhor Toranaga tinha que ir, neh? Não tinha escolha. - O taicum ordenara que o conselho de regentes, que governava em nome de Yaemon, se reunisse por dez dias no mínimo duas vezes por ano e sempre no Castelo de Osaka, trazendo consigo um máximo de quinhentos secretários para dentro dos muros. E todos os outros daimios ficavam igualmente obrigados a visitar o castelo com as respectivas famílias, para prestar homenagem ao herdeiro, também duas vezes por ano. Assim eram todos controlados, ficavam todos indefesos parte do ano, todos os anos. - O   encontro estava marcado, neh? Se ele não fosse seria traição, neh?

- Traição contra quem? - Hiromatsu ficou ainda mais vermelho. - Ishido está tentando isolar nosso amo. Ouça, se eu tivesse Ishido em meu poder como ele tem o Senhor Toranaga, eu não hesitaria um momento, fossem quais fossem os riscos. A cabeça de Ishido lhe teria sido arrancada dos ombros há muito tempo, e seu espírito estaria à espera do renascimento. - Involuntariamente o general estava torcendo a bainha da espada que carregava na mão esquerda. A direita, áspera e calosa, esperava pronta, no colo. Ele estudou o Erasmus. - Onde estão os canhões?

- Mandei trazê-los para terra. Por segurança. Toranaga-sama vai fazer outro acordo com Ishido?

- Quando parti de Osaka, tudo estava tranqüilo. O conselho se reuniria dentro de três dias.

- O conflito vai se tornar declarado?

- Eu gostaria que sim. Mas e o meu senhor? Se quiser fazer   um acordo, fará. - Hiromatsu olhou de novo para Yabu. - Ele ordenou que todos os daimios aliados o esperassem em Yedo. Até   que regressasse. Isto não é Yedo.

- Sim. Achei que o navio era importante o bastante para a nossa causa para que o investigasse imediatamente.

- Não havia necessidade, Yabu-san. Deveria ter mais confiança. Nada acontece sem o conhecimento do nosso amo. Ele teria mandado alguém para investigar. Aconteceu de mandar a mim. Há quanto tempo o senhor está aqui?

- Um dia e uma noite.

- Então levou dois dias para vir de Yedo?

- Sim.

- Veio muito depressa. Merece ser cumprimentado.

Para ganhar tempo Yabu começou a contar a Hiromatsu sobre sua marcha forçada. Mas tinha a mente em outros assuntos mais vitais. Quem seria o espião? Como Toranaga recebera a informação sobre o navio tão rapidamente quanto ele? E quem falara a Toranaga sobre a sua partida? Como poderia manobrar agora e lidar com Hiromatsu?

Hiromatsu ouviu-o, depois disse penetrantemente:

- O Senhor Toranaga confiscou o navio e todo o conteúdo.

Um silêncio chocado varreu a praia. Estavam em Izu, feudo de Yabu, e Toranaga não tinha direitos ali. Nem Hiromatsu tinha qualquer direito de ordenar qualquer coisa. A mão de Yabu se   apertou sobre a espada.

Hiromatsu esperava com calma estudada. Fizera exatamente como Toranaga ordenara e agora estava comprometido. Era matar ou ser morto, implacavelmente.

Yabu sabia que agora também devia se comprometer. Não havia mais o que esperar. Se se recusasse a ceder o navio, teria   que matar Hiromatsu Punho de Aço, porque Hiromatsu Punho de Aço jamais partiria sem ele. Havia talvez uns duzentos samurais de elite na galera atracada ao cais. Também teriam que morrer. Poderia convidá-los a desembarcar, iludi-los e em poucas horas poderia facilmente ter samurais suficientes em Anjiro para dominá-los a todos, pois ele era um mestre na emboscada. Mas isso forçaria Toranaga a enviar tropas contra Izu. Você será engolido, disse Yabu a si mesmo, a menos que Ishido venha socorrê-lo. E por que Ishido deveria socorrê-lo quando seu inimigo Ikawa Jikkyu é parente dele e quer Izu para si? Matar Hiromatsu   abrirá as hostilidades, porque Toranaga terá um motivo de honra para investir contra você, o que forçaria a mão de Ishido, e Izu  seria o primeiro campo de batalha.

E as minhas armas? Minhas lindas armas e meu belo plano?   Perderei minha chance de imortalidade para sempre se tiver que   cedê-los a Toranaga.

Tinha a mão sobre a espada Murasama. Sentia o sangue no braço da espada e a cegante premência de começar. Descartara imediatamente a possibilidade de não mencionar os mosquetes. Se   houvera traição quanto à notícia do navio, certamente também   houvera quanto à especificação da carga. Mas como Toranaga obteve a notícia tão depressa? Por pombo-correio! É a única resposta. De Yedo ou daqui? Quem possui pombos-correio aqui? Por que eu não tenho um serviço assim? É culpa de Zukimoto, ele   devia ter pensado nisso, neh? Decida-se. Guerra ou não?

Yabu invocou a má vontade de Buda, de todos os kamis, de   todos os deuses que jamais existiram ou ainda estavam por ser   inventados sobre o homem ou os homens que o haviam traído,   sobre seus pais e seus descendentes em dez mil gerações. E cedeu.

- O Senhor Toranaga não pode confiscar o navio porque já é um presente para ele. Ditei uma carta com essa finalidade. Não foi, Zukimoto?

- Sim, senhor.

- Claro que se o Senhor Toranaga quiser considerá-lo confiscado, ele pode. Mas era para ser um presente. - Yabu ficou contente de ouvir que sua voz soava autêntica. - Ele ficará feliz com o butim.

- Agradeço-lhe em nome do meu amo. – Novamente Hiromatsu se maravilhava com a antevisão de Toranaga. Este havia predito que isso aconteceria e que não haveria luta. "Não acredito", dissera Hiromatsu. "Nenhum daimio suportaria tal   usurpação dos seus direitos. Yabu não suportará. Eu certamente não suportaria. Nem mesmo do senhor." "Mas você teria obedecido às ordens e me teria falado sobre o navio", respondera Toranaga. "Yabu deve ser manobrado, neh? Preciso da violência e da astúcia dele. Neutraliza Ikawa Jikkyu e defende meu flanco."

Ali na praia, sob o sol forte, Hiromatsu forçou-se a fazer uma reverência polida, detestando a própria duplicidade.

- O Senhor Toranaga ficará encantado com a sua generosidade.

Yabu observava-o de perto.

- Não é um navio português.

- Sim. Foi o que ouvimos dizer.

- E é pirata. - Viu os olhos do general estreitarem-se.

- Hein?

Enquanto lhe contava o que o padre dissera, Yabu pensava: Se isso for novidade para você como foi para mim, não significa que Toranaga teve a mesma informação original que eu? Mas se você conhecer o conteúdo do navio, então o espião é Omi, um dos samurais dele ou um aldeão.

- Há uma grande abundância de tecido. Algum dinheiro. Mosquetes, pólvora e munição.

Hiromatsu hesitou. Depois disse:

- O tecido é seda chinesa?

- Não, Hiromatsu-san - disse Yabu, usando o "san".

Eram ambos igualmente daimios. Mas agora que ele estava magnanimamente "dando" o navio, sentia-se seguro o suficiente para usar o termo menos respeitoso. Gostou de ver que a palavra não passou despercebida pelo homem mais velho. Sou daimio de Izu, pelo sol, pela lua e pelas estrelas!

- É muito incomum, um tecido grosso, pesado, totalmente inútil para nós - disse. - Mandei trazer para terra tudo o que valia a pena aproveitar.

- Bom. Por favor, ponha tudo a bordo do meu navio.

- O quê? - As vísceras de Yabu quase explodiram.

- Tudo. Imediatamente.

- Agora?

- Sim. Sinto muito, mas o senhor naturalmente compreenderá que quero retornar a Osaka o mais depressa possível.

- Sim, mas... mas haverá espaço para tudo?

- Ponha os canhões de volta no navio bárbaro e lacre o navio. Dentro de três dias chegarão barcos para rebocá-lo até Yedo. Quanto aos mosquetes, pólvora e munição, há... - Hiromatsu parou, evitando a armadilha que repentinamente percebeu estar preparada para ele.

"Há espaço suficiente para os quinhentos mosquetes", dissera-lhe Toranaga. "E para toda a pólvora e os vinte mil dobrões de prata. Deixe os canhões no convés do navio e o tecido nos porões. Deixe Yabu falar à vontade mas dê-lhe ordens, não lhe dê tempo   para pensar. Não fique irritado ou impaciente com ele. Preciso dele, mas quero essas armas e esse navio. Cuidado porque ele vai tentar pegá-lo numa armadilha a fim de fazê-lo revelar que conhece a carga com exatidão. Ele não deve descobrir o nosso   espião."