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Não, isso é impensável. Aliado sim, vassalo não.

Bom, então os bárbaros são um recurso no final das contas. Omi tem razão novamente. Sentira-se mais tranqüilo e então, quando chegara a hora e um mensageiro lhe trouxera a informação de que o navio estava carregado, dirigira-se a Hiromatsu para descobrir que perdera até os bárbaros.

Estava espumando de raiva quando chegou ao molhe.

- Omi-san!

- Sim, Yabu-sama?

- Traga o líder bárbaro aqui. Vou levá-lo para Osaka. Quanto às ordens, veja que sejam todas bem cumpridas enquanto eu estiver fora. Quero-os em boas condições e bem-comportados. Use o buraco, se for preciso.

Desde que a galera chegara, a mente de Omi se encontrava  em confusão e ele se sentia muito preocupado pela segurança  de Yabu.

- Deixe-me ir também, senhor, Talvez eu possa ajudar.

- Não, agora quero que você tome conta dos bárbaros.

- Por favor. Talvez, de algum modo insignificante, eu possa retribuir sua gentileza para comigo.

- Não há necessidade - disse Yabu, mais afavelmente do que gostaria. Lembrou-se de que aumentara o rendimento de Omi para três mil kokus e ampliara seu feudo por causa da prata e das armas. Que agora haviam desaparecido. Mas vira o interesse do jovem e sentira uma cordialidade involuntária. Com vassalos assim, eu vou cavar um império, prometeu a si mesmo. Omi vai comandar uma das unidades quando eu recuperar minhas armas. - Quando a guerra vier, bem, terei um trabalho muito importante para você, Omi-san. Agora vá e traga o bárbaro.

Omi levou quatro guardas consigo. E Mura para traduzir.

Blackthorne foi arrancado do sono. Precisou de um minuto para clarear a mente. Quando a névoa se dissipou, Omi estava olhando fixamente para ele.

Um dos samurais puxara o acolchoado de cima dele, outro o sacudira para despertá-lo, os outros dois seguravam varas de bambu, finas e de aparência maligna. Mura tinha um rolo curto   de corda na mão.

Mura ajoelhou-se e curvou-se.

- Konnichi wa. Bom dia.

- Konnichi wa. — Blackthorne se pôs de joelhos também e, embora estivesse nu, curvou-se com igual polidez. É somente uma cortesia, disse a si mesmo. É costume deles e eles fazem reverência por educação, de modo que não há vergonha nisso. A nudez é ignorada, isso também é um costume deles, e também não há vergonha na nudez.

- Anjin? Por favor, vestir - disse Mura.

Anjin? Ah, lembro agora. O padre disse que eles não conseguem pronunciar o meu nome, então me deram o nome de "Anjin", que significa "piloto", sem a intenção de insultar. E serei chamado de Anjin-san - Sr. Piloto - quando merecer.

Não olhe para Omi, advertiu a si mesmo. Ainda não. Não se lembre da praça da aldeia, de Omi, de Croocq e de Pieterzoon.

Uma coisa de cada vez. É isso o que você vai fazer. Foi o que você jurou diante de Deus: uma coisa de cada vez. A vingança será minha, por Deus.

Blackthorne viu que suas roupas tinham sido limpas de novo e abençoou quem as limpara. Despojara-se delas na casa de banho como se estivessem contaminadas de peste. Fizera-os esfregar-lhe   as costas três vezes. Com a esponja mais áspera e com pedra-pomes. Mas ainda sentia a urina queimando.

Desviou os olhos de Mura e fitou Omi. Sentiu um prazer envolvente por saber que seu inimigo estava vivo e perto dele.  Curvou-se, imitando mesuras que já vira, e manteve-se na posição um instante.

- Konnichi wa, Omi-san - disse. Não há vergonha alguma em falar a língua deles, nem em dizer "bom dia" ou em fazer uma reverência primeiro, como é hábito deles.

Omi retribuiu a reverência.

Blackthorne notou que não foi exatamente igual à sua, mas por enquanto bastava.

- Konnichi wa, Anjin - disse Omi.

A voz era cortês, mas não o suficiente.

- Anjin-san! - Blackthorne olhou diretamente para ele.

Suas vontades se chocaram e Omi foi desafiado como um homem o é jogando cartas ou dados. Pago para ver: não tem educação?

- Konnichi wa, Anjin-san - disse Omi finalmente, com um breve sorriso.

Blackthorne vestiu-se rapidamente.

Vestiu calças folgadas e um codpiece{1}, meias, camisa e casaco, o longo cabelo em ordem, amarrado num rabo, e a barba aparada com a tesoura que o barbeiro lhe emprestara.

- Hai, Omi-san? - perguntou Blackthorne quando terminou de se vestir, sentindo-se melhor mas muito cauteloso, desejando ter mais palavras para usar.

- Por favor, mão - disse Mura.

Blackthorne não compreendeu e disse isso com sinais. Mura ergueu as próprias mãos e parodiou o ato de amarrá-las.

- Mão, por favor.

- Não. - Blackthorne disse diretamente a Omi e balançou a cabeça.

- Não é necessário - disse em inglês -, não é necessário em absoluto. Dei a minha palavra. - Manteve a voz gentil e razoável, depois acrescentou com rudeza, imitando Omi: - Wakarimasu ka, Omi-san?

Omi riu. Depois disse:

- Hai, Anjin-san. Wakarimasu. - Voltou-se e saiu.

Mura e os outros arregalaram os olhos, atônitos. Blackthorne seguiu Omi para o sol. Suas botas tinham sido limpas. Antes que pudesse enfiá-las, a empregada "Onna" já estava de joelhos, ajudando-o.

- Obrigado, Haku-san - disse ele, lembrando-se do verdadeiro nome dela. Qual é a palavra para "obrigado"? perguntou a si mesmo. Caminhou na direção do portão, Omi na frente.

Estou atrás de você, seu maldito bast... Espere um minuto! Lembra-se do que prometeu a si mesmo? E por que xingá-lo, mesmo interiormente? Ele não o xinga. Imprecações são para os fracos ou para os imbecis. Não são?

Uma coisa de cada vez. Já basta que você esteja atrás dele. Você sabe disso claramente e ele também. Não cometa erros, ele sabe disso muito claramente.

Os quatro samurais ladeavam Blackthorne na descida da colina, a enseada ainda oculta, Mura discretamente dez passos atrás, Omi na frente.

Será que vão me levar para o subterrâneo novamente? perguntou-se Blackthorne. Por que queriam me amarrar as mãos?   Omi não disse ontem — Jesus Cristo, foi ontem só? -: "Se você se comportar pode ficar fora do buraco. Se se comportar, amanhã outro homem poderá ser tirado do buraco. Talvez. E até mais   homens, talvez"? Não foi isso o que ele disse? Eu me comportei?   Gostaria de saber como Croocq está. O rapaz estava vivo quando o carregaram para a casa onde a tripulação ficou primeiro.

Blackthorne sentia-se melhor hoje. O banho, o sono e a comida fresca haviam começado a recuperá-lo. Sabia que se fosse cuidadoso e pudesse descansar, dormir e comer, dentro de um mês estaria em condições de correr ou nadar uma milha, comandar um navio de combate e levá-lo à volta do mundo.

Não pense nisso ainda! Simplesmente preserve a sua força. Um mês não é muito para se esperar, hein?

A caminhada colina abaixo e através da aldeia o estava fatigando. Você é mais fraco do que pensava... Não, você é mais forte do que pensava, ordenou a si mesmo.

Os mastros do Erasmus salientavam-se acima dos telhados de cerâmica e Blackthorne sentiu o coração acelerar. Adiante a rua fazia uma curva, acompanhando o contorno do flanco da colina, descia até a praça e terminava. Um palanquim com cortinas parado ao sol. Quatro carregadores em tangas sumárias de cócoras ao lado dele, distraidamente cutucando os dentes. No momento em que viram Omi puseram-se de joelhos, fazendo uma longa e profunda reverência.

Omi mal lhes fez um gesto de cabeça quando passou por eles, mas nesse momento uma garota atravessou o portão, indo para  o palanquim, e ele parou.  Blackthorne susteve o fôlego e também parou.

Uma jovem empregada veio correndo segurar uma sombrinha verde para dar sombra à garota. Omi curvou-se, a garota retribuiu,  o se puseram a conversar alegremente, a imponente arrogância de Omi desaparecida.