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A garota usava um quimono cor de pêssego, uma larga faixa de ouro à cintura e sandálias com tiras de ouro. Blackthorne notou  o olhar que ela lhe deu. Era claro que ela e Omi falavam a seu respeito. Não sabia como reagir, ou o que fazer, de modo que não fez nada além de esperar pacientemente, exultando com a vista dela, sua pureza e o calor da sua presença. Perguntou a si mesmo se ela e Omi eram amantes, ou se ela era a esposa de Omi, e pensou: Ela existe realmente?

Omi perguntou-lhe alguma coisa e ela respondeu, agitando o leque verde que cintilou tenuemente e dançou à luz do sol, sua   risada musical, sua extraordinária delicadeza. Omi também estava sorrindo, depois deu meia-volta sobre os calcanhares e se afastou a passos largos, novamente samurai.

Blackthorne seguiu-o. Viu que os olhos dela se detinham nele quando passou e disse:

- Konnichi wa.

- Konnichi wa, Anjin-san - respondeu ela, e sua voz o comoveu. Tinha mal e mal cinco pés de altura e era perfeita.

Quando se curvou ligeiramente, a brisa agitou a seda do quimono e mostrou um vislumbre de quimono interior escarlate, o que ele achou surpreendentemente erótico.

O perfume da garota ainda o rodeava quando ele dobrou a esquina. Viu o alçapão e o Erasmus. E a galera. A garota desapareceu-lhe da mente. Por que as nossas vigias de armas estão   vazias? Onde estão nossos canhões e, em nome de Cristo, o que uma galera de escravos está fazendo aqui, o que aconteceu no   buraco?

Uma coisa de cada vez.

Primeiro, o Erasmus: o toco do mastro de proa que a tempestade havia arrebatado sobressaía de modo desagradável. Isso não importa, pensou ele. Poderíamos zarpar facilmente. Poderíamos soltar as amarras - a brisa noturna e a maré nos levariam silenciosamente e poderíamos carenar amanhã, bem longe desta   ilha minúscula. Meio dia para assentar o mastro sobressalente e   então todas as velas enfeixadas e rumo ao alto-mar! Talvez fosse   melhor não lançar ferros mas escapar para águas mais seguras. Mas quem tripularia? Você não pode levar o navio sozinho. De onde veio esse navio de escravos? E por que está aqui?  Podia ver aglomerados de samurais e marinheiros lá embaixo, no desembarcadouro. O vaso com sessenta remos - trinta de cada lado - estava em ordem e equilibrado, os remos ensarilhados com cuidado, prontos para partida imediata. Ele estremeceu   involuntariamente. A última vez que vira uma galera fora ao   largo da Costa do Ouro, dois anos antes, quando sua esquadra zarpara, os cinco navios juntos. Era um rico navio mercante costeiro, português, fugindo dele contra o vento. O Erasmus não pôde   alcançá-lo, capturá-lo nem afundá-lo.

Blackthorne conhecia bem a costa norte-africana. Fora piloto e capitão durante dez anos da London Company of Barbary Merchants, a sociedade anônima que equipava navios mercantes de combate para romper o bloqueio espanhol e comerciar com a costa da Barbaria. Pilotara para a África setentrional e ocidental, para o sul até Lagos, para o norte e o leste através do traiçoeiro estreito de Gibraltar - sempre patrulhado pelos espanhóis -, até Salerno, no reine de Nápoles. O Mediterrâneo era perigoso para a navegação inglesa e holandesa. O inimigo espanhol e português estava lá maciçamente e, pior que isso, os otomanos, os turcos infiéis, infestavam a região com galeras de escravos e navios   de combate.

Essas viagens tinham sido muito proveitosas e ele pudera comprar seu próprio navio, um brigue de cento e cinqüenta toneladas, para fazer comércio por conta própria. Mas fora afundado por ordem sua e ele perdera tudo. Tinham sido surpreendidos a sotavento, numa calmaria ao largo da Sardenha, quando a galera   turca saíra do sol. A luta fora cruel e depois, pelo crepúsculo, o esporão da nau inimiga atingira-lhes a popa e eles foram abordados rapidamente. Ele nunca esquecera o grito penetrante: "Allahhhhhhhhhhhhhhhh!", quando os corsários saltaram as amuradas. Estavam armados com espadas e mosquetes. Ele havia reagrupado seus homens e o primeiro ataque fora rechaçado, mas o segundo os subjugou e ele ordenara que incendiassem o paiol de armas. Com o navio em chamas, resolveu que era melhor morrer do que ser posto aos remos. Sempre tivera um terror mortal   por ser capturado vivo e ser transformado em escravo de galera - o que não era um destino inusitado para um marujo capturado.

Quando o paiol foi pelos ares, a explosão arrancou a quilha do navio e destruiu parte da galera corsária. Na confusão que se seguiu, ele conseguiu nadar para a chalupa e escapar com quatro tripulantes. Foi preciso deixar para trás os que não conseguiram   nadar com ele, e ainda se lembrava dos gritos por ajuda, em nome   de Deus. Mas Deus virara o rosto para aqueles homens naquele dia, portanto pereceram ou foram postos aos remos. Deus mantivera o rosto voltado para Blackthorne e os quatro homens, e eles conseguiram atingir Cagliari, na Sardenha. De lá rumaram para   casa, sem um tostão.

Isso fora há oito anos, o mesmo ano em que a peste irrompera de novo em Londres. Peste, carestia e tumultos de desempregados famintos. Seu irmão mais novo e família tinham sido destruídos. Seu primogênito também perecera. Mas no inverno a   peste sumiu, ele conseguiu um novo navio com facilidade e partiu   para o mar, a fim de refazer fortuna. Primeiro para a London Company of Barbary Merchants. Depois uma viagem às índias Ocidentais, à caça de espanhóis. Em seguida, um pouco mais rico, navegara para Kees Veerman, o holandês, na sua segunda viagem   em busca da lendária passagem nordeste para Catai e as ilhas das   Especiarias, na Ásia, que se supunha existirem nos mares de Gelo, ao norte da Rússia czarista. Procuraram durante dois anos, então Kees Veerman morrera nos desertos árticos, assim como oitenta   por cento da tripulação, e Blackthorne dera meia-volta, levando   o resto dos homens para casa. Então, há três anos, fora seduzido pela recentemente formada Companhia das índias Orientais   Holandesas e pedira para pilotar sua primeira expedição ao Novo Mundo. Comentava-se à boca pequena que eles haviam adquirido, a um custo imenso, um portulano português contrabandeado que   supostamente revelava os segredos do estreito de Magalhães, e queriam pô-lo à prova. Naturalmente os mercadores holandeses   teriam preferido usar um dos seus próprios pilotos, mas não havia nenhum que se comparasse em qualidade com os ingleses treinados pela monopolística Trinity House, e o valor espantoso do portulano forçou-os a arriscar com Blackthorne. Mas ele fora a melhor escolha: era o melhor piloto protestante vivo, sua mãe fora   holandesa e ele falava holandês perfeitamente. Blackthorne concordara, entusiasmado, aceitara os quinze por cento do lucro total   como paga, e, como era de costume, jurara solenemente, diante   de Deus, fidelidade à companhia, fazendo o voto de levar a esquadra e de trazê-la de volta para casa.

Por Deus, vou levar o Erasmus de volta, pensou Blackthorne.

E com tantos homens quantos ele deixar vivos.

Atravessavam a praça agora. Ele desviou os olhos da galera e viu os três samurais guardando o alçapão. Estavam comendo em tigelas, manejando habilmente os pauzinhos que Blackthorne os vira usando muitas vezes mas com que não conseguia lidar.

- Omi-san! - Por meio de sinais, explicou que queria ir até o alçapão, só para dar um alô aos amigos. Só por um instante. Mas Omi balançou a cabeça, disse alguma coisa que ele não compreendeu e continuou através da praça, para a praia lá embaixo, passando pelo caldeirão e em frente, rumo ao molhe.

Blackthorne seguiu-o obedientemente. Uma coisa de cada vez, disse a si mesmo. Seja paciente.

Quando atingiram o quebra-mar, Omi voltou-se e chamou os guardas do buraco. Blackthorne viu-os abrir o alçapão e descer. Um deles fez um sinal a aldeães, que trouxeram a escada e um barril cheio de água fresca e o carregaram para baixo. O vazio foi trazido para cima. Assim como a latrina.