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Aí está! Se você for paciente e aceitar o jogo com as regras deles, pode ajudar a sua tripulação, pensou ele com satisfação.

Havia grupos de samurais reunidos perto da galera. Um homem alto, velho, mantinha-se à parte. Pela deferência que o Daimio Yabu lhe demonstrava, e pelo modo como os outros saltavam à sua mais ligeira observação, Blackthorne imediatamente percebeu a sua importância. Será que é o rei deles? perguntou a si mesmo.

Omi ajoelhou-se com humildade. O velho fez uma meia mesura, voltou os olhos para Blackthorne.

Reunindo tanta dignidade quanto conseguiu, Blackthorne ajoelhou-se, estendeu as mãos sobre o chão de areia do quebra-mar, como Omi fizera, e se curvou tão baixo quanto o samurai.

- Konnichi wa, sama — disse polidamente.

Viu o velho fazer uma meia mesura novamente. Houve uma discussão entre Yabu, o velho e Omi. Yabu falou a Mura. Mura apontou para a galera.

- Anjin-san. Por favor, lá.

- Por quê?

- Vá! Agora. Vá!

Blackthorne sentiu o pânico despertar.

- Por quê?

- Isogi! - comandou Omi, fazendo-lhe um gesto na direção da galera.

- Não, eu não...

Houve uma ordem imediata de Omi, quatro samurais caíram em cima de Blackthorne e lhe seguraram os braços para trás. Mura estendeu a corda e começou a atar-lhe as mãos as costas.

- Seus filhos das putas! - gritou Blackthorne. - Eu não vou subir a bordo desse maldito navio de escravos!

- Nossa Senhora! Deixem-no em paz. Ei, seus macacos bebedores de mijo, deixem o bastardo em paz! Kinjiru, neh? Ele é o piloto? O anjin, ka?

Blackthorne mal podia crer nos próprios ouvidos. Aquela linguagem violenta e injuriosa, em português, viera do convés da galera. Então viu o homem começar a descer a prancha de desembarque. Tão alto quanto ele e mais ou menos da mesma idade, mas de cabelo preto e olhos escuros e descuidadamente vestido com roupas de marujo, florete do lado, pistolas ao cinto. Um crucifixo cravejado de pedras preciosas pendia-lhe do pescoço. Usava um gorro vistoso e um sorriso rasgava-lhe o rosto.

- Você é o piloto? O piloto do holandês?

- Sim - Blackthorne ouviu-se responder.

- Bom. Bom. Eu sou Vasco Rodrigues, piloto desta galera! - Voltou-se para o velho e falou uma mistura de japonês e português, chamando-o ora de macaco-sama, ora de Toda-sama, que, pelo modo como pronunciava, soava "Toady-sama". Por duas vezes sacou da pistola, apontou enfaticamente para Blackthorne e enfiou-a de volta no cinto, falando em japonês escabrosamente entremeado de vulgaridades em português de sarjeta, que somente homens do mar compreenderiam.

Hiromatsu falou brevemente, os samurais soltaram Blackthorne e Mura o desamarrou.

- Assim é melhor. Ouça, piloto, este homem é como um rei. Disse-lhe que fico responsável por você e que lhe arrebentaria a cabeça, tão depressa quanto vou beber com você! — Rodrigues curvou-se para Hiromatsu, depois sorriu para Blackthorne.

- Curve-se para o bastardo-sama.

Como que em sonho, Blackthorne fez o que lhe dizia o outro.

- Você faz isso como um japona - disse Rodrigues com um sorriso irônico. - É mesmo o piloto?

- Sim.

- Qual é a latitude de The Lizard?

- Quarenta e nove graus e cinqüenta e seis minutos norte, e cuidado com os recifes situados a sul-sudoeste.

- Você é o piloto, por Deus! - Rodrigues apertou a mão de Blackthorne calorosamente. - Venha a bordo. Há comida, conhaque, vinho e grogue. Todos os pilotos deviam amar todos os pilotos, que são o esperma da terra. Amém! Certo?

- Sim - disse Blackthorne fracamente.

- Quando ouvi dizer que íamos levar um piloto conosco, eu disse: ótimo. Faz anos que não tenho o prazer de falar com um verdadeiro piloto. Venha a bordo. Como foi que você passou por Malaca, sua cobra? Como evitou as nossas patrulhas no oceano Indico, hein? O portulano, de quem você roubou?

- Para onde vão me levar?

- Para Osaka. O grão-senhor e alto executor em pessoa quer vê-lo.

Blackthorne sentiu voltar o pânico.

- Quem?

- Toranaga! Senhor das Oito Províncias, fiquem elas onde o Diabo quiser! O daimio-chefe do Japão. Um daimio é como um rei ou um senhor feudal, mas melhor. São todos déspotas.

- O que ele quer comigo?

- Não sei, mas é por isso que estamos aqui, e se Toranaga quer vê-lo, piloto, ele o verá. Dizem que ele tem um milhão desses fanáticos de olhos oblíquos que morreriam pela honra de lhe limpar a bunda se ele fesolvesse que o prazer dele era esse! "Toranaga quer que você traga o piloto, Vasco", disse o intérprete dele. "Traga o piloto e a carga do navio. Leve o velho Toda Hiromatsu lá para examinar o navio e..." Oh, sim, piloto, foi tudo confiscado, pelo que ouvi, o navio e tudo o que está dentro.

- Confiscado?

- Pode ser um boato. Os japonas às vezes confiscam coisas com uma mão e as devolvem com a outra, ou fingem que nunca deram a ordem. É difícil compreender esses bastardinhos sifilíticos!

Blackthorne sentiu os olhos gelados dos japoneses cravados nele e tentou ocultar o medo. Rodrigues seguiu-lhe o olhar.

- Sim, estão ficando impacientes. Já falamos o bastante. Venha a bordo. - Voltou-se, mas Blackthorne o deteve.

- E os meus amigos, a minha tripulação?

- Hein?

Blackthorne contou-lhe rapidamente sobre o buraco. Rodrigues interrogou Omi num japonês estropiado.

- Diz que eles ficarão bem. Ouça, não há nada que você ou eu possamos fazer agora. Você terá que esperar... nunca se pode saber com um japona. Eles têm seis caras e três corações. - Rodrigues fez uma reverência como um cortesão europeu a Hiromatsu. - É assim que fazemos no Japão. Como se estivéssemos na corte daquele fornicador do Filipe II, que Deus leve logo aquele espanhol para o túmulo. - Mostrou-lhe o caminho para o convés. Para surpresa de Blackthorne, não havia correntes nem escravos.

- Qual é o problema? Está doente? - perguntou Rodrigues.

- Não. Pensei que isto fosse um navio de escravos.

- Não os têm no Japão. Nem nas minas. É loucura, mas é isso. Você nunca viu doidos como estes e eu dei a volta ao mundo três vezes. Temos remadores samurais. São soldados, soldados pessoais do sodomita velho... e você nunca viu escravos remando melhor ou homens lutando melhor. - Rodrigues riu. - Põem a bunda diante dos remos e eu os incito para ver esses pederastas sangrar. Nunca desistem. Fizemos o caminho todo de Osaka até aqui, trezentas e tantas milhas marítimas, em quarenta horas. Desça. Vamos zarpar brevemente. Tem certeza de que está bem?

- Sim. Sim, acho que sim. - Blackthorne estava olhando para o Erasmus, atracado a cem jardas. - Piloto, não há um jeito de ir a bordo, há? Não me deixaram voltar a bordo, não tenho roupas e eles lacraram o navio no momento em que chegamos. Por favor?

Rodrigues examinou atentamente o navio.

- Quando foi que perderam o mastro de proa?

- Pouco antes de desembarcarmos aqui.

- Ainda há um sobressalente a bordo?

- Sim.

- Qual é o porto de origem?

- Rotterdam.

- Foi construído lá?

- Sim.

- Estive lá. Bancos de areia péssimos mas uma boa enseada. Tem boas linhas, o seu navio. É novo... nunca tinha visto um desse tipo antes. Nossa Senhora, deve ser veloz, muito veloz. Muito difícil de lidar. - Rodrigues olhou para ele. - Você pode pegar o equipamento rapidamente? - Pegou o marcador de meia hora, de vidro e areia, ao lado da ampulheta, ambos presos à bitácula, e virou-o.

- Sim. - Blackthorne tentou evitar que lhe transparecesse no rosto a esperança crescente que sentia.

- Haveria uma condição, piloto. Nada de armas, nas mangas ou em qualquer lugar. Sua palavra de piloto. Eu disse aos macacos que seria responsável por você.