- Concordo. - Blackthorne olhou a areia caindo silenciosamente pelo gargalo do marcador de tempo.
- Eu lhe estouro a cabeça, piloto ou não, se houver o simples cheiro de trapaça, ou corto-lhe a garganta. Se eu concordar.
- Dou-lhe minha palavra, de piloto para piloto, por Deus. E sífilis nos espanhóis!
Rodrigues sorriu e bateu-lhe ruidosa e cordialmente nas costas.
- Estou começando a gostar de você, Inglês.
- Como sabe que sou inglês? - perguntou Blackthorne, sabendo que o seu português era perfeito e que nada que tivesse dito poderia diferenciá-lo de um holandês.
- Sou um adivinho. Todos os pilotos não são? - Rodrigues riu.
- Conversou com o padre? O Padre Sebastio lhe disse?
- Não converso com padres se posso evitar. Uma vez por semana é mais que suficiente para qualquer homem. - Rodrigues cuspiu com destreza nos embornais e foi para o passadiço de bombordo, que dava para o quebra-mar. — Toady-sama! Ikimasho ka?
- Ikimasho, Rodrigu-san. Ima!
- Será ima. - Rodrigues olhou para Blackthorne pensativamente. - "Ima" significa "agora", "imediatamente". Vamos partir imediatamente, Inglês.
A areia já fizera um montinho no fundo do vidro.
- Quer pedir a ele, por favor? Se posso ir a bordo do meu navio?
- Não, Inglês. Não pedirei porra nenhuma!
Blackthorne repentinamente se sentiu vazio. E muito velho.
Observou Rodrigues ir até a grade do tombadilho e berrar para um pequeno e distinto marujo que se encontrava no convés elevado da proa.
- Ei, capitão-san. Ikimasho? Traga os samurais para bordo, ima! Ima, wakarimasu ka?
- Hai, Anjin-san.
Imediatamente Rodrigues tocou o sino do navio sonoramente seis vezes e o capitão-san começou a gritar ordens aos marujos e samurais em terra e a bordo. Acorreram todos para o convés, a fim de se prepararem para a partida, e, na confusão disciplinada, controlada, Rodrigues tranqüilamente pegou o braço de Blackthorne e o empurrou na direção do passadiço de estibordo, longe da praia.
- Há um escaler lá embaixo, Inglês. Não se mova depressa, não olhe em torno, e não preste atenção a não ser em mim. Se eu lhe disser que volte, faça-o rapidamente.
Blackthorne atravessou o convés, desceu a escada do costado, dirigindo-se para o pequeno bote japonês. Ouviu vozes zangadas atrás dele e sentiu os cabelos na nuca levantando-se, pois havia muitos samurais por todo o navio, alguns armados com arcos e flechas, poucos com mosquetes.
- Não é preciso se preocupar com ele, capitão-san, sou responsável. Eu, Rodrigu-san, ichi ban Anjin-san, pela Virgem! Wakarimasu ka? - A voz de Rodrigues dominava as outras vozes, mas elas estavam ficando cada vez mais zangadas.
Blackthorne estava quase no escaler agora e viu que não havia cavilhas de remos. Não sei remar como eles, disse a si mesmo. Não posso usar o bote! P longe demais para nadar. Ou não é?
Hesitou, examinando a distância. Se dispusesse de todo o vigor, não teria esperado um instante. Mas agora?
Ouviu pés se atropelarem escada abaixo atrás dele e lutou contra o impulso de se virar.
- Sente na popa - ouviu Rodrigues dizer com urgência. - Apresse-se!
Fez o que lhe dizia o outro, que saltou agilmente, agarrou os remos e, ainda em pé, remou com grande habilidade.
Um samurai estava no topo da escada, muito perturbado, com dois outros ao seu lado, arcos preparados. O capitão samurai chamou, inconfundivelmente acenando para que voltassem.
A algumas jardas do vaso, Rodrigues voltou-se.
- Vou até lá - gritou, apontando para o Erasmus. - Ponha os samurais a bordo! - Deu as costas resolutamente ao seu navio e continuou remando, empurrando os remos à moda japonesa. - Se eles puserem flechas nos arcos, me diga! Vigie-os cuidadosamente! O que estão fazendo agora?
- O capitão está muito zangado. Você não vai se meter em apuros, vai?
- Se não zarparmos na hora, o velho Toady pode ter motivo de queixa. O que aqueles arqueiros estão fazendo?
- Nada. Estão escutando o que ele diz. Ele parece indeciso. Não. Agora um deles está puxando uma seta.
Rodrigues preparou-se para parar.
- Nossa Senhora, eles têm pontaria demais para a gente arriscar qualquer coisa! A seta ainda está no arco?
- Sim... mas espere um momento! O capitão está... alguém se aproximou dele, um marujo, acho. Parece que está perguntando alguma coisa sobre o navio. O capitão está olhando para nós. Disse alguma coisa ao homem com a seta. Agora o homem a está guardando. O marujo está apontando para alguma coisa no convés.
Rodrigues arriscou uma olhada rápida e furtiva para ter certeza e respirou com mais facilidade.
- É um dos imediatos. Vai levar a nossa meia hora toda para acomodar os remadores.
Blackthorne esperou, a distância aumentou.
- O capitão está olhando para nós novamente. Não, está tudo bem. Ele se foi. Mas um dos samurais está nos vigiando.
- Deixe que vigie. - Rodrigues relaxou mas não diminuiu o ritmo nem olhou para trás. - Não gosto de ficar de costas para samurais, não quando eles estão de armas nas mãos. O que não quer dizer que alguma vez eu tenha visto um dos bastardos desarmado. São todos bastardos!
- Por quê?
- Eles adoram matar, Inglês. O costume é até dormirem com as espadas. Este país é ótimo mas os samurais são perigosos como víboras e muito mais vis.
- Por quê?
- Não sei, Inglês, mas são - replicou Rodrigues, contente de conversar com alguém da sua espécie. - Claro, todos os japonas são diferentes de nós, não sentem dor ou frio como a gente, mas os samurais são ainda piores. Não têm medo de nada, e menos ainda da morte. Por quê? Só Deus sabe, mas é a verdade. Se os superiores deles dizem "mate", eles matam, "morra", eles caem em cima das espadas ou rasgam a própria barriga. Matam e morrem tão facilmente quanto nós mijamos. As mulheres samurais também, Inglês. Matam para proteger o amo, que é como chamam os maridos aqui, ou matam a si mesmas se lhes disserem que façam isso. Fazem isso cortando a garganta. Aqui um samurai pode ordenar à esposa que se mate e ela tem que fazer isso, por lei. Jesus, Nossa Senhora, as mulheres são uma coisa diferente, uma espécie diferente, Inglês, não há nada na Terra como elas, mas os homens... Samurais são répteis e o mais seguro a fazer é tratá-los como cobras venenosas. Você está bem agora?
- Sim, obrigado. Um pouco fraco, mas bem.
- Como foi a sua viagem?
- Dura. Quanto a eles, os samurais, como fazem para se tornar samurais? Simplesmente pegam duas espadas e fazem aquele corte de cabelo?
- É preciso nascer samurai. Claro, há todos os níveis de samurai, de daimios, no topo, até o que chamamos de soldado raso, na base. Na maior parte é hereditário, como conosco. Antigamente, assim me disseram, era a mesma coisa que na Europa de hoje: camponeses podiam ser soldados e soldados camponeses, com cavaleiros hereditários e nobres armados cavaleiros. Alguns soldados camponeses chegaram ao mais alto grau. O taicum foi um.
- Quem é ele?
- O grande déspota, o dirigente do Japão todo, o grande assassino de todos os tempos. Eu lhe falo dele um dia. Morreu há um ano e agora está ardendo no inferno. - Rodrigues cuspiu no mar. - Hoje em dia você tem que nascer samurai para ser um deles. É tudo hereditário, Inglês. Nossa Senhora, você não tem idéia de quanto valor eles dão a herança, família, nível e aparência. Você viu como Omi se curva diante daquele diabo de Yabu, e ambos rastejam na frente do velho Toady-sama. "Samurai" vem da palavra japonesa que significa "servir". Mas embora todos se curvem e se desmanchem em rapapés diante do superior, são todos samurais igualmente, com privilégios especiais de samurai. O que está acontecendo a bordo?