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- O capitão está tagarelando com outro samurai e apontando para nós. O que há de especial com eles?

- Aqui os samurais governam tudo, possuem tudo. Têm seu próprio código de honra e conjunto de regras. Arrogantes? Nossa Senhora, você não faz idéia! O mais inferior deles pode matar legalmente qualquer não-samurai, qualquer homem, mulher ou criança, por qualquer razão ou nenhuma razão. Podem matar, legalmente, só para testar o fio das malditas espadas deles, já os vi fazer isso, e têm as melhores espadas do mundo. Melhor do que aço de Damasco. O que aquele fornicador está fazendo agora?

- Só olhando. Está com o arco nas costas agora. - Blackthorne estremeceu. - Odeio aqueles bastardos mais do que aos   espanhóis.

Novamente Rodrigues riu enquanto remava.

- Para dizer a verdade, eles me talham o mijo também! Mas se você quer ficar rico depressa, tem que trabalhar com eles, porque possuem tudo. Tem certeza de que está bem?

- Sim, obrigado. O que você estava dizendo? Os samurais possuem tudo?

- Sim. O país todo está dividido em castas, como na índia. Samurais no topo, camponeses os seguintes em importância. - Rodrigues cuspiu no mar. Só os camponeses podem possuir terra. Compreende? Mas a produção é todinha dos samurais. São donos do arroz todo, que é a única safra importante, e dão uma parte aos camponeses. Somente os samurais têm permissão para carregar armas. Para todo mundo, exceto para um samurai, atacar um samurai é rebelião, punível com morte instantânea. E qualquer um que veja um ataque assim e não o comunique na hora é igualmente responsável, assim como as viúvas, e mesmo as crianças. A família toda é condenada à morte se não comunica o que viu. Por Nossa Senhora, eles são cria de Satã, os samurais! Vi crianças sendo retalhadas em pedacinhos. - Rodrigues pigarreou e cuspiu. - Ainda assim, se você sabe uma ou duas coisas, este   lugar é o paraíso na terra. - Ele deu uma olhada para trás, para a galera, a fim de se tranqüilizar, depois sorriu, irônico. - Bem, Inglês, nada como um passeio de bote em torno da baía, hein?

Blackthorne riu. Os anos se desvaneceram quando ele se regalou com o movimento familiar das ondas, o cheiro de sal marinho, gaivotas grasnando e brincando no céu, a sensação de liberdade, a sensação de estar chegando depois de muito, muito tempo.

- Pensei que você não fosse me ajudar a ir até o Erasmus!

-— Esse é o problema com todos os ingleses. Não têm paciência. Ouça, aqui você não pede nada aos japoneses - samurais ou outros, é tudo a mesma coisa. Se fizer, eles vão hesitar, depois perguntar ao superior pela decisão. Aqui você tem que agir. Claro - sua risada sincera atravessou as ondas -, às vezes você pode ser morto se age errado.

- Você rema muito bem. Estava perguntando a mim mesmo como usar os remos quando você chegou.

- Você não acha que eu o deixaria ir sozinho, acha? Qual é o seu nome?

- Blackthorne. John Blackthorne.

- Já esteve no norte alguma vez, Inglês? No norte longínquo?

- Estive com Kees Veerman no Der Lifle. Há oito anos.Foi a segunda viagem dele para encontrar a passagem nordeste. Por quê?

- Gostaria de ouvir sobre isso, e sobre todos os lugares onde você esteve. Acha que algum dia encontrarão o caminho? O caminho setentrional para a Ásia, a leste ou oeste?

- Sim. Vocês e os espanhóis bloqueiam ambas as rotas meridionais, de modo que teremos que encontrá-lo. Sim, encontraremos. Ou os holandeses. Por quê?

- E você pilotou pela costa da Barbaria, hein?

- Sim. Por quê?

- E conhece Trípoli?

- A maioria dos pilotos já esteve lá. Por quê?

- Pensei que já o tinha visto uma vez. Sim, foi em Trípoli. Alguém me apontou você. O famoso piloto inglês. Que foi com o explorador holandês, Kees Veerman, até os mares de Gelo, e que uma vez foi capitão com Drake, hein? Na Armada? Que idade tinha na época?

- Vinte e quatro. O que você estava fazendo em Trípoli?

- Estava pilotando um navio pirata inglês. Meu navio tinha sido pego nas índias por aquele pirata, Morrow, Henry Morrow. Queimou meu navio até a linha d'água depois de tê-lo saquêado, e ofereceu-me o lugar de piloto... o dele estava inutilizado, disse ele... sabe como é. Ele queria ir dali (estávamos nos abastecendo de água ao largo de Hispaniola quando ele nos capturou) para o sul, ao longo do Spanish Main, depois de volta através do Atlântico para tentar interceptar, perto das Canárias, o barco espanhol do carregamento anual de ouro, depois seguir em frente através do estreito de Trípoli, caso o perdêssemos, para procurar outras presas, depois para o norte novamente, para a Inglaterra. Fez a oferta usual de libertar meus companheiros, dar-lhes comida e botes em troca, se eu me juntasse a ele. Eu disse: "Claro, por que não? Desde que não peguemos nenhum navio português, que você me desembarque perto de Lisboa e não roube meus portulanos". Discutimos muito, como de hábito, você sabe como é. Então jurei por Nossa Senhora, ambos juramos pela cruz, e estava feito. Tivemos uma boa viagem e alguns gordos mercadores espanhóis caíram na nossa rede. Quando estávamos ao largo de Lisboa, ele me pediu que ficasse a bordo, deu-me o recado habitual da boa Rainha Bess, de como ela pagaria uma recompensa principesca a qualquer piloto português que se juntasse a ela e ensinasse a habilidade aos outros pilotos de Trinity House, e de como daria cinco mil guinéus pelo portulano do estreito de Magalhães, ou do cabo da Boa Esperança. - Ele tinha o sorriso largo, dentes brancos e fortes, e o bigode e a barba pretos bem tratados. - Eu não os tinha. Pelo menos foi o que lhe disse. Morrow cumpriu a palavra, como todos os piratas deveriam cumprir. Desembarcou-me com os meus portulanos. Claro que mandara copiá-los, já que ele mesmo não sabia ler nem escrever. Até me deu minha parte do dinheiro. Já navegou com ele alguma vez, Inglês?

- Não. A rainha o armou cavaleiro anos atrás. Nunca servi em nenhum dos navios dele. Fico contente de saber que foi justo com você.

Estavam se aproximando do Erasmus. Samurais observavamnos lá de cima, de modo esquisito.

- Essa foi a segunda vez que pilotei para hereges. Na primeira vez não tive tanta sorte.

- Oh?

Rodrigues fixou os remos, o bote desviou habilmente para o lado e ele se agarrou às cordas de abordagem.

- Suba, mas deixe a conversa comigo.

Blackthorne começou a subir enquanto o outro piloto amarrava o bote com segurança. Rodrigues foi o primeiro no convés. Curvou-se como um cortesão.

- Konnichi wa a todos os samas comedores de grama!

Havia quatro samurais no convés. Blackthorne reconheceu um deles como um guarda do alçapão. Embaraçados, curvaram-se rigidamente para o português. Blackthorne imitou a este último, sentindo-se desajeitado; teria preferido curvar-se corretamente.

Rodrigues caminhou diretamente para a escada da gaiúta. Os lacres estavam em perfeita ordem, no lugar. Um dos samurais o interceptou.

- Kinjiru, gomen nasai. É proibido, sinto muito.

- Kinjiru, hein? - disse o português, abertamente não impressionado. - Sou Rodrigu-san, anjin de Toda Hiromatsu-sama. Este lacre - apontou para o selo vermelho com a escrita esquisita -, Toda Hiromatsu-sama, ka?

- Iyé - disse o samurai, sacudindo a cabeça. - Kasigi Yabu-sama!

- IYE? - disse Rodrigues. - Kasigi Yabu-sama? Sou de Toda Hiromatsu-sama, que é rei mais importante do que o sodomita do seu, e Toady-sama é de Toranaga, que é o maior sodomita-sama do mundo todo. Neh? - Arrancou o selo da porta,   levou uma mão a uma das pistolas. As espadas estavam meio fora das bainhas, e ele disse calmamente a Blackthorne: - Prepare-se para abandonar o navio - e ao samurai disse grosseiramente: - Toranaga-sama! - Apontou com a mão esquerda a bandeira que tremulava no topo do mastro do seu navio.- Wakarimasu ka?