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Os samurais hesitaram, as espadas prontas. Blackthorne preparou-se para mergulhar.

- Toranaga-sama! - Rodrigues lançou o pé contra a porta, o trinco estalou e a porta se abriu com violência. - WAKARIMASU KA?

- Wakarimasu, Anjin-san. - Rapidamente os samurais largaram as espadas, curvaram-se, pediram desculpas, curvaram-se novamente e Rodrigues disse roucamente: - Assim é melhor - e foi em frente.

- Jesus Cristo, Rodrigues - disse Blackthorne quando se viram no convés inferior. - Você faz isso sempre e se safa?

- Faço com muita freqüência - disse o português, enxugando o suor da testa -, até quando seria preferível nunca ter começado.

Blackthorne encostou-se ao tabique.

- Sinto como se alguém me tivesse dado um pontapé no estômago.

- É o único jeito. Você tem que agir como um rei. Ainda assim, com um samurai, nunca se pode saber. São tão perigosos quanto um padre mijado com uma vela na bunda, sentado em cima de um barrilete de pólvora quase cheio!

- O que foi que disse a eles?

- Toda Hiromatsu é conselheiro-chefe de Toranaga, é um daimio maior do que o daimio local. Foi por isso que cederam.

- Como é ele, Toranaga?

- É uma longa história, Inglês. - Rodrigues sentou num degrau, tirou a bota e esfregou o tornozelo. - Quase quebrei o pé na sua porta comida de piolhos.

- Não estava trancada. Você poderia simplesmente tê-la aberto.

- Eu sei. Mas não teria sido tão eficaz. Pela Virgem abençoada, você tem muito que aprender!

- Você me ensinará?

Rodrigues calçou a bota nova.

- Isso depende - disse.

- De quê?

- Teremos que ver, não? Fui só eu que falei até agora, o que é justo: eu estou bem, você não. Logo chegará a sua vez. Qual é a sua cabina?

Blackthorne estudou-o por um momento. O cheiro embaixo dos conveses era denso, estragado.

- Obrigado por me ajudar a vir a bordo.

Seguiu em direção à popa. A porta estava destrancada. A cabina fora revistada e tudo o que era removível fora levado. Não havia livros, roupas, instrumentos ou penas. Seu baú também estava destrancado. E vazio.

Branco de raiva, dirigiu-se para a cabina grande, Rodrigues observando-o atentamente. Até o compartimento secreto fora descoberto e pilhado.

- Levaram tudo. Filhos de piolhos infestados de peste!

- O que você esperava?

- Não sei. Pensei... com os lacres... — Blackthorne foi até a sala forte. Estava nua. Assim como o paiol. Os porões continham apenas os fardos de tecido de lã. - Deus amaldiçoe os japonas! - Voltou à sua cabina e fechou o baú com estrépito.

- Onde estão? - perguntou Rodrigues.

- O quê?

- Os seus portulanos. Onde estão os seus portulanos?

Blackthorne olhou-o penetrantemente.

- Nenhum piloto se preocuparia com roupas. Você veio aqui por causa dos portulanos. Não veio?

- Sim.

- Por que está tão surpreso, Inglês? Por que você acha que eu vim a bordo? Para ajudá-lo a pegar mais trapos? Estão todos puídos e você precisará de outros. Tenho um monte para você. Mas onde estão os portulanos?

- Sumiram. Estavam no meu baú.

- Não vou roubá-los, Inglês. Só quero lê-los. E copiá-los, se for necessário. Cuidarei deles como se fossem os meus, portanto não precisa se preocupar. - A voz endureceu. - Por favor, pegue-os, Inglês, só nos resta pouco tempo.

- Não posso. Sumiram. Estavam no meu baú.

- Você não os teria deixado aí, vindo para um porto estrangeiro. Não se esqueceria da primeira regra de um piloto: escondê-los cuidadosamente, e deixar apenas cópias falsas desprotegidas. Vamos!

- Foram roubados!

- Não acredito em você. Mas admitirei que os tenha escondido muito bem. Procurei durante horas e não encontrei nem sombra deles.

- O quê?

- Por que tão surpreso, Inglês? Está com a cabeça enfiada na bunda? Naturalmente vim de Osaka até aqui para examinar os seus portulanos!

- Você já esteve a bordo?

- Nossa Senhora! - disse Rodrigues com impaciência. - Sim, claro, duas ou três horas atrás, com Hiromatsu, que queria dar uma olhada. Ele rompeu os lacres e depois, quando fomos embora, o daimio local lacrou o navio de novo. Apresse-se, por Deus. A areia está esgotando.

- Foram roubados! - Blackthorne contou-lhe como haviam chegado e como despertara em terra. Depois chutou o baú para o outro lado da sala, enfurecido com os homens que haviam saquêado o seu navio. - Foram roubados! Todas as minhas cartas! Todos os meus portulanos! Tenho cópias de alguns na Inglaterra, mas o meu portulano desta viagem sumiu e o... — Ele se deteve.

- E o portulano português? Vamos, Inglês, tinha que ser português.

- Sim, e o português sumiu também. - Controle-se, pensou. Sumiram e acabou. Quem será que os tem? Os japoneses? Ou será que os deram ao padre? Sem os portulanos e as cartas você não pode pilotar de volta para casa. Nunca chegará a casa... Isso não é verdade. Pode voltar com cuidado, e uma sorte enorme... Não seja ridículo! Está a meio caminho em torno do globo, em terra inimiga, em mãos inimigas, e não tem nem portulano nem cartas. - Oh, Jesus, dê-me forças!

Rodrigues observava-o atentamente. Finalmente disse:

- Sinto muito por você, Inglês. Sei como se sente. Aconteceu comigo uma vez. Foi um inglês também, o ladrão. Possa o navio dele estar no fundo do mar e ele estar ardendo no inferno para sempre. Vamos, vamos voltar.

Omi e os outros esperaram no molhe até que a galera contornasse o promontório e desaparecesse. Para oeste, laivos de noite já manchavam o céu carmesim. Para leste, a noite unia céu e mar, sem horizonte.

- Mura, quanto tempo vai levar para recolocar todos os canhões no navio?

- Se passarmos a noite trabalhando, pelo meio-dia de amanhã estará terminado, Omi-san. Se começarmos ao amanhecer, terminaremos bem antes do pôr-do-sol. Seria mais seguro trabalhar durante o dia.

- Trabalhem durante a noite. Tragam o padre ao buraco imediatamente.

Omi deu uma olhada em Igurashi, o primeiro lugar-tenente de Yabu, que ainda estava olhando na direção do promontório, o rosto tenso, a lívida cicatriz sobre a cavidade do seu olho vazado lugubremente ensombrecida. - Seria bem-vindo se ficasse, Igurashi-san. Minha casa é pobre, mas talvez possamos recebê-lo confortavelmente.

- Obrigado - disse o homem mais velho, voltando-se para ele -, mas nosso amo disse que eu retornasse a Yedo imediatamente, portanto retornarei imediatamente. - Sua preocupação transparecia ainda mais. - Gostaria de estar naquela galera.

- Sim.

- Odeio a idéia de Yabu-sama estar a bordo com apenas dois homens. Odeio.

- Sim.

Apontou para o Erasmus. - Um navio do Demônio, é isso o que é! Tanta riqueza, depois nada.

- Será com certeza? Será que o Senhor Toranaga não ficará satisfeito, enormemente satisfeito, com o presente do Senhor Yabu?

- Aquele ladrão de províncias é tão cheio de si e da própria importância que não vai sequer notar o montante de prata que roubou do nosso amo. Onde estão os seus miolos?

- Presumo que tenha sido apenas a preocupação com um possível perigo contra o nosso senhor que o induziu a fazer essa observação.

- Tem razão, Omi-san. Não tive a intenção de insultar.

- Você foi muito inteligente e útil para o nosso amo. Talvez também tenha razão quanto a Toranaga - disse Igurashi, mas estava pensando. Aproveite a sua riqueza recente, seu pobre tolo! Conheço meu amo melhor do que você, e o seu feudo aumentado não lhe fará bem em absoluto. A sua promoção teria sido uma retribuição justa pelo navio, o dinheiro e as armas. Mas agora isso tudo 'sumiu. E por sua causa, meu amo está em perigo. Você mandou a mensagem e o tentou, dizendo: "Veja os bárbaros primeiro". Deveríamos ter partido ontem. Sim, então meu amo estaria longe daqui agora, em segurança, com o dinheiro e as armas. Você é um traidor? Está agindo para si mesmo ou para o seu estúpido pai, ou para um inimigo?,Para Toranaga, talvez? Não importa. Pode acreditar em mim, Omi, seu jovem tolo comedor de bosta, você e o seu ramo do clã Kasigi não vão durar muito nesta terra. Eu lhe diria isso na cara, mas então teria que matá-lo e isso seria menosprezar a confiança do meu amo. É ele quem deve dizer quando, não eu. - Obrigado pela sua hospitalidade, Omi-san - disse. - Ficarei ansioso por revê-lo em breve, mas agora vou me pôr a caminho.