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- Faria uma coisa para mim, por favor? Transmita os meus respeitos a meu pai. Eu ficaria muito agradecido.

- Eu ficaria muito feliz em fazer isso. Ele é um excelente homem. E ainda não cumprimentei a você pelo novo feudo.

- O senhor é muito gentil.

- Obrigado novamente, Omi-san. - Ergueu a mão numa saudação amigável, fez um gesto aos seus homens, e conduziu a falange de cavaleiros para fora da aldeia.

Omi foi até o buraco. O padre estava lá. Omi podia ver que o homem estava zangado e esperou que ele fizesse alguma coisa abertamente, publicamente, para trucidá-lo.

- Padre, diga aos bárbaros que subam, um de cada vez. Diga-lhes que o Senhor Yabu disse que eles podem viver novamente no mundo dos homens. - Omi mantinha a linguagem deliberadamente simples. - Mas à menor infração a uma regra, dois deles serão colocados de novo no buraco. Eles devem se comportar e obedecer a todas as ordens. Está claro?

- Sim.

Omi fez o padre repetir. Quando teve certeza de que o homem sabia tudo corretamente, fê-lo falar para dentro do buraco. Os homens subiram, um a um. Estavam todos atemorizados. Alguns tiveram que ser ajudados. Um homem estava sentindo dores fortes e gritava sempre que alguém lhe tocava o braço.

- Devia haver nove.

- Um está morto. O corpo está lá embaixo, no buraco - disse o padre.

Omi pensou um instante.

- Mura, queime o cadáver e   conserve as cinzas junto com as do outro bárbaro. Ponha esses   homens na mesma casa onde estavam antes. Dê-lhes muita verdura e peixe. E sopa de cevada e frutas. Mande lavá-los. Eles fedem. Padre, diga-lhes que, se se comportarem e obedecerem, continuarão recebendo comida.

Omi observou e ouviu cuidadosamente. Viu-os reagir com reconhecimento e pensou, com desprezo: Que estúpidos! Privo-os por apenas dois dias, depois concedo-lhes uma ninharia e agora  eles comeriam bosta, realmente comeriam. - Mura, ensine-os a se curvar adequadamente e leve-os daqui.

Depois voltou-se para o padre. - Bem?

- Eu vou agora. Vou minha casa. Deixo Anjiro.

- É melhor que parta e fique longe para sempre, você e   todos os padres como você. Talvez a próxima vez que venha ao   meu feudo seja porque alguns dos meus camponeses cristãos ou   vassalos estejam pensando em traição - disse, usando a ameaça   velada e o estratagema clássico que os samurais anticristãos usavam para controlar a difusão indiscriminada do dogma estrangeiro   nos seus feudos, pois, embora os padres estrangeiros fossem protegidos, os japoneses convertidos não o eram.

- Cristãos bons japoneses. Sempre. Somente bons vassalos. Nunca tiveram maus pensamentos. Não.

- Fico contente em ouvir isso. Não se esqueça de que o meu feudo se estende a vinte ris em todas as direções. Compreendeu?

- Compreendo. Sim. Compreendo muito bem.

Viu o padre curvar-se rigidamente - até os padres bárbaros deveriam ter boas maneiras - e se afastar.

- Omi-san? - disse um dos seus samurais. Era jovem e muito bonito.

- Sim?

- Por favor, desculpe-me, sei que não se esqueceu, mas Masijiro-san ainda está no buraco. - Omi se aproximou do alçapão e olhou fixamente para o samurai lá embaixo. Imediatamente o homem se pôs de joelhos, curvando-se respeitoso.

Os dois dias o haviam envelhecido. Omi sopesou seu serviço passado e o valor futuro. Então pegou a adaga do cinto do jovem samurai e atirou-a no buraco.

Ao pé da escada, Masijiro arregalou os olhos para a faca, não acreditando no que via. Lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto.

- Não mereço esta honra, Omi-san - disse abjetamente.

- Sim.

- Obrigado.

O jovem samurai ao lado de Omi disse:

- Posso, por favor, pedir que ele seja autorizado a cometer seppuku aqui, na praia?

- Ele falhou lá dentro. Fica lá dentro. Ordene aos aldeões que encham o buraco. Eliminem qualquer vestígio dele. Os bárbaros o conspurcaram.

Kiku riu e balançou a cabeça.

- Não, Orni-san, sinto muito, por favor, nada de mais saquê para mim ou o meu cabelo vai desabar, eu vou desabar, e então onde estaríamos?

- Eu desabaria com você e nós nos deitaríamos e estaríamos no nirvana, fora de nós mesmos - disse Omi, feliz, a cabeça girando por causa do vinho.

- Ah, mas eu estaria roncando, e o senhor não pode se deitar com uma horrível garota bêbada que ronca e ter muito prazer nisso. Certamente não, sinto muito. Oh, não, Omi-sama do Novo Feudo Enorme, o senhor merece muito mais do que isso! - Ela verteu outro dedal do vinho quente no minúsculo cálice de porcelana e ofereceu-o com as duas mãos, o indicador e o polegar esquerdos delicadamente segurando o cálice, o indicador direito tocando-lhe a face inferior. - Aqui está, porque o senhor é maravilhoso!

Ele aceitou e bebeu, apreciando o calor e o sabor adocicado da bebida.

- Estou tão contente por ter conseguido convencê-la a ficar um dia extra, neh? Você é tão bonita, Kiku-san.

- O senhor é bonito, e o prazer é meu. - Os olhos dela dançavam à luz da vela encerrada numa flor de papel e bambu que pendia da viga de cedro. Aquele era o melhor conjunto de quartos na casa de chá perto da praça. Ela se inclinou para servir-lhe mais arroz da tigela simples de madeira que estava sobre a mesa baixa laqueada na frente dele, mas Omi sacudiu a cabeça.

- Não, não, obrigado.

- Devia comer mais, um homem forte como o senhor.

- Estou satisfeito, realmente.

Ele não retribuiu o oferecimento porque ela mal havia tocado a pequena salada - pepinos cortados em fatias finas e minúsculos rabanetes esculpidos, em conserva no vinagre doce -, que fora tudo o que aceitara da refeição toda. Tinha havido pedacinhos de peixe cru sobre bolas de arroz em papa, sopa, a salada, e verduras frescas servidas com um molho picante de soja e gengibre. E arroz. Ela bateu palmas suavemente e a shoji foi aberta imediatamente pela sua empregada particular.

- Sim, ama?

- Suisen, leve todas estas coisas embora e traga mais saquê e outro bule de chá. E frutas. O saquê deve estar mais quente do que da última vez. Vamos, boa-para-nada! - Tentou soar imperiosa.

Suisen tinha catorze anos, era meiga, ansiosa por agradar, e uma aprendiz de cortesã. Estava com Kiku há dois anos e Kiku era responsável pelo seu treinamento. Com um esforço, Kiku afastou os olhos do puro arroz branco que adoraria ter comido e ignorou a própria fome. Você comeu antes de chegar e comerá depois, lembrou-se a si mesma. Sim, mas ainda assim é tão pouco! "Ah, mas as damas têm um apetite minúsculo, realmente minúsculo", costumava dizer sua professora. "Os hóspedes comem e bebem - quanto mais melhor. As damas não, e certamente nunca com os hóspedes. Como podem conversar ou entreter ou tocar o samisen ou dançar se estiverem enchendo a boca? Você comerá mais tarde, seja paciente. Concentre-se no seu hóspede."

Enquanto observava Suisen criticamente, avaliando-lhe a habilidade, contava histórias a Omi para fazê-lo rir e esquecer o mundo exterior. A jovem se ajoelhou ao lado dele, arrumou as tigelinhas e os pauzinhos sobre a bandeja de laca numa disposição agradável, conforme fora ensinada. Depois pegou o frasco de saquê vazio, inclinou-o para ter certeza de que estava vazio - teria sido muita falta de educação sacudi-lo -, em seguida se levantou com a bandeja, levando-a silenciosamente até a porta shoji, ajoelhou-se, pôs a bandeja no chão, abriu a porta, levantou-se, atravessou a porta, ajoelhou-se de novo, levantou a bandeja, colocou-a no chão novamente, do lado de fora, sempre em silêncio, e fechou a porta completamente.