- Realmente preciso arrumar outra criada - disse Kiku, sem estar descontente. Essa cor fica bem nela, estava pensando. Preciso mandar buscar mais um pouco dessa seda em Yedo. Que vergonha ser tão cara! Não importa, com todo o dinheiro que foi dado a Gyoko-san pela noite passada e por hoje, haverá mais que o suficiente, da minha parte, para comprar para a pequena Suisen vinte quimonos. É uma criança tão meiga, e realmente muito graciosa. - Ela faz tanto barulho... perturba o aposento todo ... sinto muito.
- Não a notei. Só a você - disse Omi, terminando o vinho. Kiku agitou o leque, seu sorriso iluminando-lhe o rosto. - O senhor faz que eu me sinta muito bem, Omi-san. Sim. E amada.
Suisen trouxe o saquê rapidamente. E o chá. A ama verteu no cálice um pouco de vinho para Omi e passou-o a ele. A jovenzinha discretamente encheu os cálices. Não derramou uma gota e achou que o som que o líquido fazia caindo no cálice tinha exatamente o timbre suave que devia ter, por isso suspirou intimamente, com um alívio imenso, sentou-se sobre os calcanhares, e esperou.
Kiku estava contando uma história divertida que ouvira de uma das amigas em Mishima, e Omi ria. Enquanto fazia isso, ela pegou uma das pequenas laranjas e, usando as longas unhas, abriu-a como se fosse uma flor, os gomos da fruta as pétalas, as divisões da pele as folhas. Removeu um gomo do núcleo e ofereceu-o com as duas mãos, como se fosse o modo usual de uma dama servir a fruta ao seu convidado.
- Aceita uma laranja, Omi-san?
A primeira reação de Omi foi dizer: Não posso destruir essa beleza. Mas isso seria inepto, pensou ele, deslumbrado pelo talento dela. Como posso cumprimentá-la, e à sua anônima professora? Como posso retribuir a felicidade que ela me deu deixando-me ver-lhe os dedos criar uma coisa tão preciosa e no entanto tão efêmera?
Segurou a flor nas mãos um instante, depois agilmente removeu quatro gomos equidistantes uns dos outros, e comeu-os com prazer. Isso deixou uma nova flor. Ele removeu mais quatro gomos, criando um terceiro desenho floral. Em seguida pegou um gomo e moveu um segundo, de modo que os três remanescentes ainda fizessem outra flor. Então pegou dois gomos e recolocou o último no centro da base da laranja, como se fosse uma lua crescente dentro de um sol. Comeu um muito lentamente. Quando terminou, pôs o outro no centro da mão e ofereceu a ela. - Este você deve aceitar porque é o penúltimo. É o meu presente para você.
Suisen mal podia respirar. Para que era o último?
Kiku pegou a fruta e comeu-a. Era a melhor que jamais provara.
- Este último - disse Omi, colocando a flor inteira gravemente sobre a palma da mão direita - é o meu presente aos deuses, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem. Nunca comerei esta fruta novamente, a menos que venha das suas mãos.
- Isso é demais, Omi-san! - disse Kiku-san. - Liberto-o do seu voto! Isso foi dito sob a influência do kami que vive em todas as garrafas de saquê!
- Recuso-me a ser libertado.
Estavam os dois muito felizes juntos.
- Suisen - disse ela -, deixe-nos agora. E por favor, criança, por favor, tente fazê-lo com graça.
- Sim, ama. - A jovem dirigiu-se para o aposento contíguo e examinou se os futons estavam meticulosamente em ordem, os instrumentos do amor' e as pérolas do prazer perto, à mão, e as flores perfeitas. Uma ruga imperceptível foi alisada na coberta já alisada. Depois, satisfeita, Suisen se sentou, suspirou de alívio, abanou-se com o leque lilás para diminuir o calor do rosto, e esperou, contente.
No cômodo ao lado, que era o mais requintado da casa de chá, o único com um jardim só seu, Kiku pegou o longo samisen.
Era de três cordas, parecido com uma guitarra, e o primeiro acorde sublime de Kiku encheu o quarto. Depois ela começou a cantar. Primeiro suave, depois penetrante, suave de novo, depois mais baixo, mais suave suspirando suavemente, sempre suavemente, ela cantou sobre o amor, o amor não correspondido, a felicidade e a tristeza.
- Ama? - O sussurro não teria perturbado o mais leve dos sonos, mas Suisen sabia que a ama preferia não dormir depois das nuvens e da chuva, mesmo que a chuva fosse forte. Preferia descansar, meio desperta, em meio à tranqüilidade.
- Sim, Sui-chan? - sussurrou Kiku tão quietamente quanto a criada, usando "chan", como se faria com uma criança favorita.
- A esposa de Omi-san voltou. O palanquim dela acabou de subir pelo caminho em direção de casa.
Kiku deu uma olhada em Omi. Tinha o pescoço confortavelmente apoiado sobre o travesseiro de madeira macia, os braços cruzados. Seu corpo era forte e sem marcas, a pele firme e dourada, com reflexos aqui e ali. Ela o acariciou suavemente, o suficiente para fazer o toque passar-lhe para o sonho, mas não o suficiente para despertá-lo. Depois deslizou de sob o acolchoado e passou o quimono em torno do corpo.
Levou muito pouco tempo para refazer a maquilagem enquanto Suisen lhe penteava e escovava o cabelo e o amarrava de novo no estilo shimoda. Depois patroa e empregada caminharam silenciosamente pelo corredor, saíram para a varanda, atravessaram o jardim e dirigiram-se para a praça. Havia botes, como pirilampos, cobrindo o percurso entre o navio bárbaro e o quebra-mar, onde ainda havia sete canhões para serem carregados. A noite ainda ia alta, faltava muito para o amanhecer.
As duas mulheres passaram rápidas e silenciosas ao longo da estreita alameda entre um amontoado de casas e começaram a subir o caminho.
Carregadores exaustos e cobertos de suor recuperavam as forças junto do palanquim no topo da colina, do lado de fora da casa de Orni. Kiku não bateu no portão do jardim. Havia velas acesas na casa e criados correndo de um lado para o outro. Fez um gesto para Suisen, que imediatamente se dirigiu para a varanda, para a porta dianteira, bateu e esperou. Num instante a porta se abriu. A criada assentiu com a cabeça e desapareceu. Outro instante e a criada voltou. Chamou Kiku com um aceno e fez uma profunda reverência quando esta passou com dignidade. Outra criada precipitou-se na frente e abriu a shoji do melhor aposento.
A cama da mãe de Omi estava intacta. Ninguém dormira ali. A mãe estava sentada, rigidamente ereta, perto do pequeno nicho que sustentava o arranjo de flores. Uma pequena janela shoji abria-se para o jardim. Midori, esposa de Omi, estava em frente à sogra.
Kiku ajoelhou-se. Faz só uma noite que eu estive aqui, aterrorizada na noite dos gritos? Curvou-se, primeiro para a mãe de Omi, depois para a esposa, sentindo a tensão entre as duas mulheres. Por que será que há sempre tanta violência entre sogra e nora? perguntou a si mesma. A nora não se torna sogra, um dia? Por que então ela sempre trata a própria nora com língua viperina e faz da vida dela uma miséria, e por que a garota faz o mesmo quando chega a sua vez? Ninguém aprende?
- Sinto muito perturbá-la, Ama-san.
- É muito bem-vinda, Kiku-san - replicou a velha. - Não há problema algum, espero?
- Oh, não, mas eu não sabia se a senhora gostaria ou não que eu despertasse seu filho - disse, já sabendo a resposta.
- Achei que era melhor perguntar-lhe, já que - voltou-se, sorriu, curvou-se ligeiramente para Midori, de quem gostava muito - a senhora voltou.
- E muito gentil, Kiku-san disse a velha -, e muito previdente. Não, deixe-o em paz.
- Muito bem. Por favor, desculpe por perturbá-la assim, mas achei que era melhor perguntar. Midori-san, espero que a viagem não tenha sido muito má.
- É lamentável, mas foi horrível - disse Midori. - Estou contente de estar de volta e odiei estar longe. Meu marido está bem?
- Sim, muito bem. Riu muito esta noite e pareceu estar feliz. Comeu e bebeu frugalmente e está dormindo sonoramente.
- A Ama-san estava começando a me contar algumas das coisas terríveis que aconteceram enquanto estive fora e...
- Você não devia ter ido. Era necessária aqui - interrompeu a velha, com rancor na voz. - Ou talvez não. Talvez devesse ter ficado longe definitivamente. Talvez você tenha trazido um mau kami para a nossa casa junto com a sua roupa de cama.