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- Eu nunca faria isso, Ama-san - disse Midori pacientemente. - Por favor, acredite que eu preferiria me matar a trazer a mais leve mácula ao seu bom nome. Por favor, perdoe-me por ter estado ausente e pelos meus erros. Sinto muito.

- Desde que aquele navio diabólico chegou aqui só tivemos problemas. Isso é mau karni. Muito mau. E onde você estava quando foi necessária? Tagarelando em Mishima, enchendo a barriga e bebendo saquê.

- Meu pai morreu, Ama-san. Um dia antes de eu chegar.

- Hum, você não teve nem a cortesia ou a previdência de estar junto do leito de morte de seu pai. Quanto mais depressa você deixar nossa casa permanentemente, melhor para todos nós. Quero chá. Temos uma hóspede aqui e você nem se lembrou o suficiente da sua educação para oferecer-lhe um refrigério!

- Foi pedido, imediatamente, no momento em que ela...

- Não chegou imediatamente! - A shoji se abriu. Uma empregada, nervosa, trouxe chá e alguns doces. Primeiro Midori serviu a velha, que imprecou asperamente contra a criada e deu uma dentada sem dentes num doce, sorvendo ruidosamente a sua bebida. - Deve desculpar a criada, Kiku-san - disse. - O chá está sem gosto. Sem gosto! E escaldante. Suponho que só se pode esperar que isso aconteça nesta casa.

- Tome, por favor, fique com o meu. - Midori soprou gentilmente sobre o chá para esfriá-lo.

A velha pegou-o com má vontade.

- Por que não ser correto da primeira vez? - Mergulhou num silêncio mal-humorado.

- O que pensa de tudo isso? - perguntou Midori a Kiku.

- O navio, Yabu-sama e Toda Hiromatsu-sama?

- Não sei o que pensar. Quanto aos bárbaros, quem sabe? Certamente são uma extraordinária coleção de homens. E o grande daimio, Punho de Aço? É muito curioso que tenha chegado quase ao mesmo tempo que o Senhor Yabu, neh? Bem, a senhora deve me desculpar, não, por favor, preciso ir embora.

- Oh, não, Kiku-san, não quero nem ouvir falar nisso.

- Aí está, Midori-san - interrompeu a velha com impaciência. - Nossa hóspede está desconfortável e o chá, terrível.

- Oh, o chá é suficiente para mim, Ama-san, realmente. Não, se me desculparem, estou um pouco cansada. Talvez antes de partir, amanhã, eu possa ser autorizada a vir vê-las. É sempre um imenso prazer conversar com as senhoras.

A velha permitiu-se ser bajulada e Kiku seguiu Midori à varanda e ao jardim.

- Kiku-san, você é tão atenciosa - disse Midori, segurando-lhe o braço, aquecida pela beleza dela. - Foi muito gentil de sua parte, obrigada.

Kiku deu uma olhada para trás, para a casa, e arrepiou-se:

- Ela é sempre assim?

- Hoje foi cortês, comparada a algumas vezes. Se não fosse por Omi e por meu filho, juro que lhe sacudiria o pó de sob meus pés, rasparia a cabeça e me tornaria monja. Mas tenho Omi e o meu filho, e isso compensa tudo. Só agradeço a todos os   kamis por isso. Felizmente Ama-san prefere Yedo e não consegue   ficar muito tempo longe de lá. - Midori sorriu tristemente. -   A gente se treina para não ouvir, você sabe como é. - Suspirou, muito bonita ao luar. - Mas isso não tem importância. Conte-me   o que aconteceu desde que parti.

Fora por isso que Kiku viera à casa com tanta urgência, pois obviamente nem a mãe nem a esposa gostariam que o sono de Omi fosse perturbado. Viera para contar tudo à adorável Senhora Midori, de modo que ela pudesse ajudar a proteger Kasigi Omi, assim como ela mesma tentaria fazê-lo. Contou-lhe tudo o que sabia, exceto o que acontecera no quarto com Yabu. Acrescentou os rumores que ouvira e as histórias que as outras garotas lhe haviam passado ou inventado. E tudo o que Omi lhe dissera - suas esperanças e temores e planos -, tudo sobre ele, exceto o que acontecera no quarto naquela noite. Sabia que isso não era importante para a esposa.

- Tenho medo, Kiku-san, medo pelo meu marido.

- Tudo o que ele aconselhou foi sábio, senhora. Acho que tudo o que fez foi correto. O Senhor Yabu não recompensa ninguém levianamente e três mil kokus é um aumento respeitável.

- Mas o navio é do Senhor Toranaga agora, e todo aquele dinheiro.

- Sim, mas Yabu-sama oferecer o navio como presente foi uma idéia de gênio. Omi-san deu a idéia a Yabu, e certamente isso em si já é pagamento suficiente, neh? Omi-san deve ser reconhecido como um vassalo proeminente. - Kiku torceu a verdade só um pouquinho, sabendo que Omi estava em grande perigo, e toda a sua casa. O que tem que ser será, lembrou a si mesma. Mas não há mal em desanuviar o rosto de uma bela mulher.

- Sim, posso ver isso - disse Midori. Faça que isso seja verdade, rezou. Por favor, faça que isso seja verdade. Abraçou a garota, os olhos cheios de lágrimas. - Obrigada. Você é muito gentil, Kiku-san, muito gentil. - Ela tinha dezessete anos.

CAPÍTULO 8

- O que acha, Inglês?

- Acho que vai haver uma tempestade.

- Quando?

- Antes do pôr-do-sol.

Era quase meio-dia e os dois estavam em pé no tombadilho da galera, sob um céu de chumbo. Era o segundo dia ao mar.

- Se este navio fosse seu, o que você faria?

- A que distância estamos do nosso ponto de chegada? perguntou Blackthorne.

- Chegaremos depois do pôr-do-sol.

- A que distância estamos da terra mais próxima?

- Quatro ou cinco horas, Inglês. Mas correr para um abrigo vai nos custar meio dia e não posso me permitir isso. O que você faria?

Blackthorne pensou um instante. Durante a primeira noite a galera rumara velozmente para o sul, seguindo a costa leste da península de Izu, ajudada pela grande vela do mastro no meio do navio. Quando passaram diante do cabo mais ao sul, cabo Ito, Rodrigues estabelecera a rota oeste-sul-oeste, e trocara a segurança da costa por mar aberto, rumando para o cabo Shinto, a duzentas milhas.

- Normalmente numa galera como esta acompanhamos a costa, por segurança - dissera Rodrigues -, mas isso toma tempo demais e o tempo é importante. Toranaga me pediu que levasse Toady a Anjiro e voltasse. Rapidamente. Há um prêmio para mim se formos bem rápidos. Um dos pilotos deles seria exatamente tão bom quanto eu num trajeto curto como este, mas o pobre filho de uma puta morreria de medo de levar um daimio tão importante quanto o Toady, particularmente longe da vista de terra. Eles não são de oceano, os japoneses. Ótimos piratas, lutadores e marinheiros costeiros. Mas o mar alto os assusta. O velho taicum até fez uma lei dizendo que os poucos navios oceânicos japoneses viajem sempre com pilotos portugueses a bordo. Essa lei ainda está em vigor.

- Por que ele fez isso?

Rodrigues dera de ombros.

- Talvez alguém lhe tenha sugerido.

- Quem?

- O seu portulano roubado, Inglês, o português. De quem era?

- Não sei. Não havia nome nele, nenhuma assinatura.

- Onde o conseguiu?

- Do mercador-chefe da Companhia Holandesa das índias Orientais.

- De onde ele conseguiu?

Blackthorne sacudira os ombros. A risada de Rodrigues não continha humor.

- Bem, nunca esperei que você me dissesse, mas seja quem for que o tenha roubado e vendido, espero que queime no fogo do inferno para sempre!

- Você é empregado desse Toranaga, Rodrigues?

- Não. Estávamos só visitando Osaka, o meu capitão e eu. Isto foi só um favor para Toranaga. Meu capitão me ofereceu voluntariamente. Sou piloto do... - Rodrigues se detivera. - Sempre esqueço que você é inimigo, Inglês.

- Portugal e Inglaterra foram aliados durante séculos.

- Mas agora não somos. Vá lá para baixo, Inglês. Você está cansado, eu também, e homens cansados cometem erros. Volte para o convés quando estiver descansado.

Blackthorne descera para a cabina do piloto e se deitara no beliche. O portulano de Rodrigues para a viagem encontrava-se sobre a arca que estava presa ao tabique do mesmo modo que a cadeira do piloto no tombadilho. O livro tinha capa de couro e era muito usado, mas Blackthorne não o abriu.