- Por que deixá-lo aí? - havia perguntado antes.
- Se não deixar, você vai procurá-lo. Mas estando aí você não o tocará, nem o olhará, sem ser convidado. Você é um piloto, não um mercador ou soldado corrupto e ladrão.
- Vou lê-lo. Você faria isso.
- Não sem ser convidado, Inglês. Nenhum piloto faria isso. Nem eu faria!
Blackthorne olhara o livro um instante, depois fechara os olhos. Dormiu profundamente, aquele dia todo e parte da noite. Faltava pouco para o amanhecer quando despertou, como sempre. Levou tempo para se acostumar ao movimento desajeitado da galera e à batida do tambor que mantinha os remos movendo-se como um só. Estava confortavelmente deitado de costas, os braços sob a cabeça. Pensou no seu navio e afastou a preocupação quanto ao que aconteceria quando chegassem a Osaka. Uma coisa de cada vez. Pense em Felicity, em Tudor, no lar. Não, agora não.
Pense que se os outros portugueses são como Rodrigues, você tem uma boa chance agora. Vai pegar um navio de volta para casa. Pilotos não são inimigos, e dane-se o resto! Mas você não pode dizer isso, mocinho. Você é inglês, o herege odiado e anticristo. Os católicos são os donos deste mundo. Eram os donos. Agora, nós e os holandeses vamos esmagá-los.
Que absurdo tudo isso! Católicos, protestantes, calvinistas, luteranos e todas as outras merdas iguais. Você devia ter nascido católico. Foi só o destino que levou seu pai para a Holanda, onde conheceu uma mulher, Anneke van Croste, que se tornou mulher dele, e onde viu católicos espanhóis, padres espanhóis e a Inquisição pela primeira vez. Ainda bem que ele abriu os olhos, pensou Blackthorne. Ainda bem que os meus estão abertos.
Depois foi para o convés. Rodrigues estava sentado na sua cadeira, os olhos estriados de vermelho pela falta de sono, dois marujos japoneses ao leme como antes.
- Posso pegar este turno para você?
- Como se sente, Inglês?
- Descansado. Posso pegar o turno para você? - Blackthorne viu Rodrigues medindo-o. - Eu o acordo se o vento mudar, ou outra coisa acontecer.
- Obrigado, Inglês. Sim, vou dormir um pouco. Mantenha esta rota. Quando virar a ampulheta, vá quatro graus mais para oeste, na virada seguinte, mais seis, sempre para oeste. Terá que apontar a nova rota na bússola para o timoneiro. Wakarimasu ka?
- Hai! - Blackthorne riu. - Quatro pontos para oeste.
- Desça, piloto, o seu beliche é confortável.
Mas Vasco Rodrigues não desceu. Simplesmente puxou a sua capa mais para junto do corpo e instalou-se mais profundamente na cadeira do convés. Pouco antes da virada da ampulheta, despertou momentaneamente, examinou a mudança de rota sem se mover e imediatamente caiu no sono de novo. Uma hora, quando o vento virou, ele despertou e, vendo que não havia perigo, novamente adormeceu.
Hiromatsu e Yabu vieram ao convés durante a manhã.
Backthorne notou a surpresa deles ao vê-lo pilotando o navio e Rodrigues dormindo. Não falaram com ele, mas voltaram à conversa que estavam tendo e, mais tarde, desceram novamente.
Por volta do meio-dia Rodrigues se levantou da cadeira de convés para olhar na direção nordeste, farejando o vento, todos os sentidos concentrados. Os dois homens estudaram o mar, o céu e as nuvens invasoras.
- O que você faria, Inglês, se este fosse o seu navio? -
disse Rodrigues novamente.
- Eu escaparia para a costa se soubesse onde ela está, para o ponto mais próximo. Esta nave não vai agüentar muita água e há uma tempestade bem ali. A umas quatro horas daqui.
- Não pode ser taifun - resmungou Rodrigues.
- O quê?
- Taifun. São imensos vendavais, as piores tempestades que você jamais viu. Mas não estamos na época de taifun.
- Quando é a época?
- Não é agora, inimigo. - Rodrigues riu. - Não, não agora. Mas isso poderia ser mau o bastante, de modo que vou aceitar o seu conselho. Mude a rota para norte.
Enquanto Blackthorne mostrava o novo curso e o timoneiro virava o navio com destreza, Rodrigues foi até a amurada e gritou para o capitão:
- Isogi! Capitão-san. Wakarimasu ka?
- Isogi, hai!
- O que é isso? Apresse-se?
Os cantos dos olhos de Rodrigues se enrugaram, risonhos.
- Não faz mal que você saiba um pouco de japonês, hein? Claro, Inglês, "isogi" quer dizer "apressar-se". Tudo de que você precisa aqui são umas dez palavras e então você pode fazer esses sodomitas cagarem se quiser. Se forem as palavras certas, é claro, e se eles estiverem com disposição. Vou descer agora, para comer alguma coisa.
- Você também cozinha?
- No Japão, todo homem civilizado tem que cozinhar, ou tem que treinar pessoalmente um dos macacos para cozinhar, senão morre de fome. Tudo o que comem é peixe cru e verduras cruas num vinagre doce de conserva. Mas a vida aqui pode ser incrível se você souber como.
- "Incrível" é bom ou mau?
- Na maioria das vezes é muito bom, mas às vezes é terrivelmente mau. Tudo depende de como a gente se sente, e você faz perguntas demais. - Rodrigues foi lá para baixo. Trancou a porta de sua cabina o cuidadosamente examinou o fecho da sua arca. O fio de cabelo que colocara sutilmente continuava lá. E um fio semelhante, igualmente invisível para qualquer um menos para ele, que colocara na capa do portulano, também permanecia intacto.
Não se pode ser cuidadoso demais neste mundo, pensou Rodrigues. Será que há algum perigo em que ele saiba que você é o piloto da Nao del Trato, o grande Navio Negro que vem de Macau este ano? Talvez. Porque então você teria que explicar que o navio é um leviatã, um dos maiores e mais ricos navios do mundo, mais de mil e seiscentas toneladas. Você poderia se sentir tentado a falar-lhe sobre a carga, sobre comércio e sobre Macau, e todo tipo de coisas esclarecedoras que são muitíssimo particulares e muitíssimo secretas. Mas estamos em guerra, nós contra os ingleses o holandeses.
Abriu o fecho bem oleado e tirou seu portulano particular para verificar algumas posições para a enseada mais próxima e seus olhos viram o pacote lacrado que o Padre Sebastio lhe dera pouco antes de deixarem Anjiro. Será que isso contém os portulanos do inglês? - perguntou a si mesmo novamente.
Sopesou o pacote e olhou os lacres jesuítas, altamente tentado a rompê-los. Blackthorne lhe contara que a esquadra holandesa viera pelo estreito de Magalhães e pouca coisa mais. O inglês faz muitas perguntas e não fala nada voluntariamente, pensou Rodrigues. É astuto, inteligente e perigoso.
Será que isto são os portulanos dele ou não? Se forem, que serventia têm para os santos padres?
Estremeceu ao pensar em jesuítas, franciscanos, dominicanos, em todos os monges e padres e na Inquisição. Há padres bons e maus, na maior parte maus, mas ainda assim são padres. A Igreja tem que ter padres, e sem eles para interceder por nós somos ovelhas perdidas neste mundo satânico. Oh, Nossa Senhora, proteja-me do mal e dos maus padres!
Ainda na enseada de Anjiro, Rodrigues estava na sua cabina com Blackthorne, quando a porta se abrira e o Padre Sebastio entrara sem ser convidado. Os dois tinham comido e bebido, e as sobras ainda se encontravam nas tigelas de madeira.
- Você reparte o pão com hereges? - perguntara o padre.
- É perigoso comer com eles. São infectos. Ele lhe disse que é pirata?
- É cristão ser cavalheiro com os inimigos, padre. Quando estive nas mãos deles, foram justos comigo. Só estou retribuindo a caridade deles. - Havia se ajoelhado e beijado a cruz do padre. Depois se levantara e, oferecendo vinho, dissera: - Em que posso ajudá-lo?