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- Quero ir para Osaka. No navio.

- Vou perguntar a eles imediatamente. - Saíra, perguntara ao capitão, e a solicitação subira gradualmente até Toda Hiromatsu, que respondera que Toranaga não dissera nada sobre levar um padre estrangeiro de Anjiro, de modo que lamentava não poder levar o padre estrangeiro de Anjiro.

O Padre Sebastio quisera conversar em particular com ele, então mandara o inglês para o convés e depois, na intimidade da cabina, o padre lhe exibira o pacote lacrado.

- Gostaria que entregasse isto ao padre-lnspetor.

- Não sei se Sua Eminência ainda estará em Osaka quando eu chegar lá. - Rodrigues não gostava de ser portador de segredos jesuítas. - Talvez eu tenha que voltar para Nagasaki. Meu capitão-mor pode ter me deixado ordens.

- Então entregue ao Padre Alvito. Certifique-se de que vai entregar isto apenas nas mãos dele.

- Muito bem - dissera ele.

- Quando foi que se confessou pela última vez, meu filho?

- No domingo, padre.

- Gostaria de se confessar agora?

- Sim, obrigado. - Ficara agradecido de que o padre lhe perguntasse, pois nunca se sabia quando é que a vida da gente dependia do mar, e depois da confissão se sentira muito melhor, como sempre.

Agora na cabina, Rodrigues recolocou o pacote no lugar, enormemente tentado. Por que o Padre Alvito? O Padre Martim Alvito era o principal negociador comercial e fora intérprete pessoal do taicum durante muitos anos e, por isso, íntimo da maioria dos daimios influentes. O Padre Alvito se alternava entre Nagasaki e Osaka e era um dos pouquíssimos homens, e o único europeu, que tivera acesso ao taicum a qualquer momento - um homem enormemente inteligente, que falava um japonês perfeito e conhecia mais sobre eles e seu modo de vida do que qualquer outro homem na Ásia. Agora era o mediador português mais influente junto ao conselho de regentes, junto a Ishido e Toranaga em particular.

Só os jesuítas para colocar um de seus homens numa posição vital assim, pensou Rodrigues com admiração. Certamente não fosse pela Companhia de Jesus a torrente da heresia nunca teria parado, Portugal e Espanha poderiam ter-se tornado protestantes e teríamos perdido nossa alma imortal para sempre. Minha Nossa Senhora!

- Por que você pensa em padres o tempo todo? - perguntou Rodrigues a si mesmo em voz alta. - Sabe que isso o deixa nervoso! - Sim. Mas ainda assim, por que o Padre Alvito? Se o pacote contém os portulanos, destina-se a um dos daimios cristãos, a Ishido, a Toranaga? Ou simplesmente a Sua Eminência, o padre-lnspetor? Ou ao meu capitão-mor? Ou os portulanos serão enviados a Roma, para os espanhóis? Por que o Padre Alvito?

O Padre Sebastio poderia facilmente ter dito que o entregasse a qualquer um dos outros jesuítas.

E por que Toranaga quer o inglês?

No meu coração sei que devo matar Blackthorne. É o inimigo, é um herege. Mas há alguma coisa mais. Tenho a sensação de que esse inglês é um perigo para todos nós. Por que devo pensar isso? É um piloto, um ótimo piloto. Forte, inteligente. Um bom homem. Não há nada com que se preocupar. Então por que estou com medo? Gosto muito dele, mas sinto que deveria matá-lo rapidamente, e quanto mais depressa melhor. Não por raiva. Só para nos proteger. Por quê? Tenho medo dele.

O que fazer? Deixá-lo nas mãos de Deus? A tempestade está se aproximando e vai ser péssima.

- Deus me amaldiçoe e à minha falta de miolos! Por que não tenho mais facilidade em saber o que fazer?

A tempestade chegou antes do pôr-do-sol e reteve-os em mar alto. A terra estava a dez milhas de distância. A baía para onde se precipitavam ficava em frente e era abrigo suficiente. Não havia bancos de areia ou recifes entre os quais navegar, mas dez milhas eram dez milhas e o mar estava se avolumando rapidamente, impelido pelo vento saturado de chuva.

A ventania soprava de nordeste, atingindo-os a estibordo, e mudava perversamente de direção, quando rajadas se lançavam em torvelinho de leste e de norte, desordenadamente, o mar bravíssimo. A rota era noroeste, de modo que estavam bem em meio às vagas, balançando furiosamente, ora na depressão entre duas ondas, ora na crista. A galera era de estrutura rasa e fora construída para velocidade e águas calmas, e embora os remadores fossem resolutos e muito disciplinados, era difícil manter os remos no mar e o impulso regular.

- Você terá que fixar- os remos e correr com o vento - gritou Blackthorne.

- Talvez, mas ainda não! Onde estão os seus cojones, Inglês?

- Estão onde devem estar, por Deus, e onde quero que fiquem!

Os dois homens sabiam que se virassem contra o vento nunca poderiam avançar contra a tempestade, de modo que a maré e o vento os levariam para longe do refúgio e para alto-mar. Se corressem com o vento, a maré e o vento os levariam para longe do refúgio e para alto-mar igualmente, só que mais depressa. Ao sul ficava a Grande Fossa. Não havia terra ao sul por mil milhas, ou, se não se tivesse sorte, por mil léguas.

Estavam presos a cordas amarradas à bitácula e satisfeitos de si quando o convés arfou e jogou. Os dois se agarraram às amuradas e montaram nelas.

Até o momento, a água ainda não chegara a bordo. O navio estava pesadamente carregado e afundava mais na água do que qualquer um dos dois gostaria. Rodrigues se preparara adequadamente nas horas de espera. Fora tudo fixado com sarrafos, os homens prevenidos. Hiromatsu e Yabu disseram que ficariam embaixo por um tempo, mas depois vieram para o convés. Rodrigues dera de ombros e lhes dissera claramente que seria muito perigoso. Tinha certeza de que não compreenderam.

- O que é que eles vão fazer? - perguntara Blackthorne.

- Quem é que sabe, Inglês? Mas não vão chorar de medo, pode ter certeza.

No poço do convés principal, os remadores davam duro. Normalmente haveria dois homens em cada remo, mas Rodrigues ordenara três, por uma questão de força, segurança e velocidade.

Havia outros esperando sob os conveses para render esses remadores quando ele desse ordem. Na coberta de proa o capitão mestre dos remos era experimentado e sua batida era lenta, sincronizada com as ondas. A galera continuava avançando, embora a cada momento a batida parecesse mais pronunciada e o restabelecimento da normalidade mais lento. Depois as rajadas se tornaram intermitentes e fizeram o mestre dos remos perder o ritmo.

- Atenção à frente! - gritaram Blackthorne e Rodrigues quase no mesmo fôlego. A galera jogou com violência, vinte remos impeliram o ar em vez de o mar e foi o caos a bordo. O primeiro vagalhão abalroara o navio e a amurada de bombordo fora arrastada pela água.

- Vá lá para a frente! - ordenou Rodrigues. - Faça-os armar os remos a meia altura de cada lado! Minha Nossa Senhora, depressa, depressa!

Blackthorne sabia que sem a corda salva-vidas poderia facilmente ser lançado ao mar. Mas os remos tinham que ser armados ou estariam todos perdidos.

Soltou o nó e investiu com dificuldade pelo convés escorregadio e nauseante, descendo a escadinha para o convés principal.

Abruptamente a galera deu uma guinada e ele foi arrastado para baixo, suas pernas levadas por alguns remadores que também haviam soltado as cordas de segurança para tentar, arduamente, controlar os remos. A amurada estava sob água e um homem foi lançado ao mar. Blackthorne deixou-se ir também. Sua mão agarrou a amurada, seus tendões se estiraram, mas ele agüentou; depois a outra mão alcançou a borda e, sufocando, ele forçou o corpo para trás. Seus pés encontraram o convés e ele se sacudiu, agradecendo a Deus, e pensando: lá se foi a sua sétima vida. Alban Caradoc sempre dissera que um bom piloto tinha que ser como um gato, exceto que tinha que ter no mínimo dez vidas, enquanto um gato se satisfazia com nove.

Um homem estava a seus pés e ele o arrancou ao repuxo do mar, segurou-o até que estivesse a salvo, depois ajudou-o a voltar a seu lugar. Olhou para trás para amaldiçoar Rodrigues por deixar o timão escapar-lhe das mãos. Rodrigues acenou, apontou e gritou, o grito engolido por uma lufada. Blackthorne viu que a rota havia mudado. Agora estavam quase contra o vento, e percebeu que a guinada fora planejada. É prudente, pensou. Isso nos dará um intervalo para nos organizarmos, mas o bastardo poderia ter me prevenido. Não gosto de perder vidas desnecessariamente.