Respondeu ao aceno e se lançou ao trabalho de recompor os remadores. A voga se interrompera totalmente, exceto pelos dois remos mais à frente, que os mantinham contra o vento. Com sinais e berros, Blackthorne conseguiu que armassem os remos, dobrou os homens que estavam trabalhando, e foi novamente para a popa. Os homens eram estóicos e embora alguns estivessem muito enjoados ficaram e esperaram pela ordem seguinte. A baía estava mais próxima, mas ainda parecia a um milhão de léguas de distância. Para nordeste o céu estava escuro. A chuva açoitava-os e as rajadas de vento se tornavam mais fortes. No Erasmus Blackthorne não se teria preocupado. Poderiam ter atingido a enseada com facilidade ou poderiam ter voltado despreocupadamente para a rota real, avançando para o seu ponto de chegada correto. Seu navio fora construído e mastreado para enfrentar o vento. Esta galera não.
- O que acha, Inglês?
- Faça o que quiser, não importa o que eu pense - gritou ele contra o vento. - Mas o navio não vai agüentar muita água e iremos para o fundo como uma pedra, e na próxima vez que eu for até a proa, avise-me que está pondo o navio contra o vento. Melhor ainda: ponha-o a barlavento enquanto eu estiver com a minha corda e então nós dois chegaremos a porto seguro.
- Foi a mão de Deus, Inglês. Uma onda lhe deu um empurrão na traseira e fê-lo girar.
- Isso quase me atirou ao mar.
- Eu vi. - Blackthorne estava medindo o desvio. - Se permanecermos neste curso, nunca chegaremos à baía. Passaremos velozmente pelo promontório a uma milha ou mais.
- Vou ficar contra o vento. Depois, quando o tempo estiver adequado, vamos nos arremessar para a praia. Sabe nadar?
- Sim.
- Bom. Eu nunca aprendi. Perigoso demais. Melhor afundar rapidamente do que aos poucos, hein? - Rodrigues estremeceu involuntariamente. - Bendita Nossa Senhora, proteja-me de um túmulo de água! Esta porca barriguda e prostituta deste navio vai chegar à enseada esta noite! Tem que chegar. Meu nariz diz que se virarmos e corrermos, vamos nos atrapalhar. Estamos carregados demais.
- Alivie a carga. Atire-a ao mar.
- O Rei Toady nunca concordaria. Tem que chegar com ela, senão não faz diferença que chegue.
- Pergunte-lhe.
- Nossa Senhora, você é surdo? Eu lhe disse! Sei que ele não concordará! - Rodrigues aproximou-se mais do timoneiro e certificou-se de que ele compreendera que devia manter-se contra o vento de qualquer jeito.
- Vigie-os, Inglês! Você está com o comando. - Desamarrou a sua corda e desceu a escadinha pisando firme. Os remadores olharam-no atentamente enquanto ele se dirigia ao capitão-san no convés de popa para explicar por meio de sinais e com palavras o plano que tinha em mente. Hiromatsu e Yabu vieram ao convés. O capitão-san explicou-lhes o plano. Estavam ambos pálidos, mas permaneciam impassíveis e não haviam vomitado. Olharam na direção da terra, através da chuva, sacudiram os ombros e foram para baixo novamente.
Blackthorne contemplava a baía a bombordo. Sabia que o plano era perigoso. Teriam que esperar até passar pelo promontório, depois teriam que se pôr a sotavento, virar para noroeste novamente e lutar pela vida. A vela não os ajudaria. Teria que ser a força deles somente. O lado meridional da baía era todo denteado de rochedos e recifes. Se eles calculassem mal o tempo, seriam atirados contra a praia ali e destroçados.
- Inglês, ponha-se à proa!
O português estava fazendo-lhe sinais. Postou-se na proa.
- E quanto à vela? - gritou Rodrigues.
- Não. Vai prejudicar mais do que ajudar.
- Fique aqui, então. Se a batida do capitão enfraquecer, ou se o perdermos, você toma o lugar dele. Está certo?
- Nunca manobrei um destes antes, nunca controlei remos. Mas tentarei.
Rodrigues olhou em direção à terra. O promontório aparecia e desaparecia na chuva impulsora. Logo teria que investir. Os vagalhões estavam crescendo e já havia jatos de espuma desprendendo-se das cristas. A corrida entre os promontórios parecia péssima. Esta vai ser imunda, pensou ele. Depois cuspiu e decidiu-se.
- Vá para a popa, Inglês. Pegue o leme. Quando eu fizer sinal, vá oeste-norte-oeste para aquele ponto. Está vendo?
- Sim.
- Não hesite e mantenha esse curso. Observe-me com atenção. Este sinal significa virar a bombordo, este para trás, este mantenha o passo.
- Muito bem.
- Pela Virgem, você vai esperar as minhas ordens e obedecer a elas?
- Quer que eu pegue o leme ou não?
Rodrigues sabia que estava numa armadilha.
- Tenho que confiar em você, Inglês, e detesto isso. Vá para a popa. - Viu Blackthorne ler o que ele tinha por trás dos olhos e se afastar. Depois mudou de idéia e chamou por ele: - Ei, seu pirata arrogante! Vá com Deus!
Blackthorne voltou-se, agradecido:
- Você também, espanhol!
- Mijo em todos os espanhóis e longa vida para Portugal!
- Mantenha o passo!
Atingiram a enseada, mas sem Rodrigues. Foi atirado ao mar quando a sua corda se partiu.
O navio estava prestes a se pôr em segurança, quando o vagalhão veio de norte e, embora tivessem agüentado muita água até então, inclusive perdendo o capitão japonês, agora foram inundados e impelidos para trás, na direção da praia infestada de rochedos.
Blackthorne viu quando Rodrigues se foi e ficou a olhá-lo, ofegando, e debatendo-se no mar encrespado. A tempestade e a maré haviam-nos levado bem longe para o lado sul da baía e estavam quase sobre os rochedos, todos a bordo sabendo que o navio estava perdido.
Quando Rodrigues foi varrido para o lado, Blackthorne atirou-lhe um salva-vidas de madeira. O português debateu-se na direção do salva-vidas mas o mar arrastou-o para fora do seu alcance. Um remo espatifou-se contra ele, que o agarrou. A chuva golpeava com violência e a última coisa que Blackthorne viu de Rodrigues foi um braço e o remo quebrado e, bem à frente, a rebentação enfurecida contra a praia atormentada. Poderia ter mergulhado, nadado até ele e sobrevivido, talvez, havia tempo, talvez, mas seu primeiro e último dever era para com o navio e seu navio estava em perigo.
Então, deu as costas a Rodrigues.
O vagalhão levara alguns remadores consigo e outros estavam lutando para preencher os lugares vazios. Um imediato havia bravamente desatado a corda de segurança. Saltou para a coberta de proa, se amarrou e reiniciou a batida. O líder do cantochão também recomeçou, os remadores tentaram impor ordem ao caos.
- Isogiiiiiiii! - gritou Blackthorne, lembrando-se da palavra. Atirou seu peso sobre o leme para ajudar a pôr a proa mais contra o vento, depois foi para a amurada e bateu o tempo, gritando um-dois-um-dois e tentando encorajar a tripulação.
- Vamos, seus bastardos, puuuuuuuuuxem!
A galera estava sobre os rochedos, pelo menos os rochedos estavam bem junto à popa, a bombordo e a estibordo. Os remos afundavam e puxavam, mas o navio continuava não fazendo caminho, o vento e a maré venciam, arrastando-o sensivelmente para trás.
- Vamos, puxem, seus bastardos! - gritou novamente Blackthorne, a mão batendo a cadência.
Os remadores extraíram forças dele. Primeiro agüentaram a parada com o mar. Depois conquistaram-no. O navio afastou-se dos rochedos. Blackthorne manteve o curso para a praia a sotavento. Pouco depois encontravam-se em águas mais calmas. O vendaval continuava, mas bem acima deles. A tempestade continuava, mas longe, em alto-mar.
- Lancem a âncora de estibordo!
Ninguém compreendeu as palavras, mas todos os marujos sabiam o que ele queria. Correram para cumprir a ordem. A âncora desceu com estrépito. Ele deixou o navio adernar levemente para testar a firmeza do leito marítimo, e o imediato e os remadores compreenderam a manobra.