- Lancem a âncora de bombordo!
Quando o navio ficou em segurança, ele olhou em direção à popa. A linha da praia mal podia ser vista através da chuva. Ele avaliou o mar e considerou as possibilidades.
O portulano português está lá embaixo, pensou, extenuado. Posso pilotar o navio até Osaka. Poderia pilotá-lo de volta a Anjiro. Mas você agiu corretamente desobedecendo a ele? Não desobedeci a Rodrigues. Eu estava no tombadilho. Sozinho.
- Vire para sul - gritara Rodrigues quando o vento e a maré os lançaram perigosamente perto das rochas. - Vire e corra com o vento!
- Não! - gritara ele de volta, acreditando que a única chance que tinham era tentar atingir a enseada e que em mar aberto estariam perdidos. - A gente consegue!
- Deus o amaldiçoe, vai matar a todos nós!
Mas não matei ninguém, pensou Blackthorne. Rodrigues, você sabia e eu sabia que a responsabilidade de decidir era minha - se houvesse tempo para uma decisão. Eu estava certo. O navio está salvo. Nada mais importa.
Acenou para o imediato, que veio correndo da coberta de proa. Os dois timoneiros estavam prostrados, braços e pernas quase arrancados das juntas. Os remadores pareciam cadáveres, caídos sobre os remos. Outros, igualmente enfraquecidos, vieram lá de baixo para ajudar. Hiromatsu e Yabu, ambos muito abalados, foram ajudados a subir ao convés, mas uma vez chegados lá, mantiveram-se ambos eretos.
- Hai, Anjin-san? - perguntou o imediato. Era um homem de meia-idade, com os dentes brancos e fortes e um rosto largo e castigado pelo tempo. Tinha uma contusão lívida marcando-lhe a face no ponto onde o mar o havia martelado contra a amurada.
- Você agiu muito bem - disse Blackthorne, não se importando com o fato de que suas palavras não seriam compreendidas. Sabia que o tom seria claro, assim como o seu sorriso.
- Sim, muito bem. Você é capitão-san agora. Wakarimasu? Você! Capitão-san!
O homem arregalou os olhos para ele, boquiaberto, depois curvou-se para dissimular tanto a surpresa quanto o prazer.
- Wakarimasu, Anjin-san. Hai. Arigato goziemashita.
- Ouça, capitão-san - disse Blackthorne -, dê comida e bebida aos homens. Comida quente. Vamos passar a noite aqui. - Por meio de sinais, fê-lo compreender.
Imediatamente o novo capitão se virou e gritou com nova autoridade. Imediatamente os marujos correram para obedecer-lhe. Muito orgulhoso, o novo capitão olhou para o tombadilho.
Gostaria de poder falar a sua língua bárbara, pensou, feliz. Então poderia agradecer-lhe, Anjin-san, por ter salvado o navio e a vida do nosso Senhor Hiromatsu. A sua mágica deu-nos novas forças. Sem ela não teríamos escapado. Você talvez seja pirata, mas é um grande marujo, e enquanto for o piloto eu lhe obedecerei com a minha vida. Não sou digno de ser capitão, mas tentarei merecer a sua confiança.
- O que quer que eu faça em seguida? - perguntou.
Blackthorne estava olhando por cima do costado. O leito marítimo estava turvo. Mentalmente tomou algumas posições e quando teve certeza de que as âncoras não haviam se soltado e o mar era seguro, disse:
- Desça o esquife. E arrume um bom remador.
Novamente com sinais e palavras, Blackthorne fê-lo compreender. O esquife foi descido e tripulado imediatamente.
Blackthorne dirigiu-se para a amurada e teria descido pelo costado se uma voz áspera não o detivesse. Olhou em torno. Hiromatsu estava ali, com Yabu ao lado.
O velho estava muito contundido em torno do pescoço e nos ombros, mas ainda segurava a espada comprida. Yabu punha sangue pelo nariz, tinha o rosto machucado, o quimono manchado,e tentava estancar o fluxo com um pedacinho de pano. Estavam ambos impassíveis, aparentemente inconscientes dos próprios ferimentos e do vento frio.
Blackthorne curvou-se polidamente.
- Hai, Toda-sama?
As palavras ásperas se repetiram, o velho apontou com a espada para o esquife e balançou a cabeça.
- Rodrigu-san lá! Blackthorne apontou para a praia ao sul como resposta. - Vou olhar!
- Iyé! - Hiromatsu meneou a cabeça de novo e falou, visivelmente recusando a sua permissão por causa do perigo.
- Sou Anjin-san deste puto deste navio e se quero ir até a praia, vou até a praia. - Blackthorne manteve a voz muito polida, mas forte, e era igualmente óbvio o que queria dizer. - Sei que esse esquife não vai agüentar nesse mar. Hai! Mas vou até a praia naquele ponto. Está vendo aquele ponto, Hiromatsu-sama?
Ao lado daquela pequena rocha. Vou começar a contornar o promontório ali. Não tenho pressa de morrer e não tenho lugar algum para onde fugir. Quero recuperar o corpo de Rodrigu-san. - Passou uma perna por sobre o costado. A espada embainhada moveu-se uma fração. Ele gelou. Mas seu olhar fixo estava tranqüilo, o rosto decidido.
Hiromatsu encontrava-se num dilema. Podia compreender que o pirata queria encontrar o corpo de Rodrigu-san, mas era perigoso ir até lá, e o Senhor Toranaga lhe dissera que levasse o bárbaro em segurança, portanto ele seria levado em segurança. Estava igualmente claro que o homem pretendia ir.
Vira-o durante a tempestade, em pé no convés inclinado, como um kami maligno do mar, destemido, em seu elemento, fazendo parte da tempestade, e pensara com severidade: é melhor ter esse homem e todos os bárbaros como ele em terra, onde podemos lidar com eles. No mar estamos em suas mãos.
Podia ver que o pirata estava impaciente. Como são insultantes, disse a si mesmo. Ainda assim eu devia agradecer-lhe. Todos estão dizendo que foi o único responsável por trazer o navio para a enseada, que Rodrigu-anjin perdeu a coragem e deixou que fôssemos carregados para longe da costa, mas você manteve o curso. Sim. Se tivéssemos rumado para o largo certamente teríamos soçobrado e então eu teria falhado a meu amo. Oh! Buda, proteja-me disso! Sentia doer todas as juntas. Estava exausto devido ao esforço que lhe fora exigido para permanecer estóico diante de seus homens, de Yabu, da tripulação, e mesmo do bárbaro. Oh! Buda. Estou tão cansado. Gostaria de poder deitar num banho, ficar lá um bom tempo... e ter um dia de sossego, sem sofrimento. Só um dia. Pare com esses seus estúpidos pensamentos de mulher! Você sofre há quase sessenta anos. O que é o sofrimento para um homem? Um privilégio! Dissimular a dor é a medida de um homem. Agradeça a Buda por ainda estar vivo para proteger seu amo, quando você deveria estar morto uma centena de vezes. Agradeço a Buda. Mas odeio o mar. Odeio o frio. E odeio a dor.
- Fique onde está, Anjin-san - disse, apontando com a bainha da espada para ser mais claro, desanimadamente divertido com o fogo de um azul gelado nos olhos do homem. Quando teve certeza de que o homem compreendera, deu uma olhada no imediato. - Onde estamos? De quem é este feudo?
- Não sei, senhor. Acho que estamos em algum ponto da província de Ise. Poderíamos mandar alguém à aldeia mais próxima.
- Você pode nos pilotar até Osaka?
- Desde que fiquemos muito perto da praia, senhor, e que vamos lentamente, com grande cautela. Não conheço estas águas e nunca poderia garantir a sua segurança. Não tenho conhecimento suficiente e não há ninguém a bordo, senhor, que tenha. Exceto esse piloto. Se dependesse de mim, eu o aconselharia a ir por terra. Poderíamos conseguir-lhe cavalos ou palanquins.
Hiromatsu sacudiu a cabeça irascivelmente. Ir por terra estava fora de questão. Tomaria tempo demais o caminho era montanhoso e havia poucas estradas - e teriam que atravessar muitos territórios controlados por aliados de Ishido, o inimigo.
Além desse perigo, havia também os numerosos grupos de bandidos, que infestavam os desfiladeiros. Isso significava que ele teria que levar todos os seus homens. Poderia abrir caminho a força entre os bandidos, certamente, mas nunca conseguiria forçar uma passagem se Ishido ou seus aliados resolvessem impedi-lo. Tudo isso o atrasaria ainda mais, e suas ordens eram entregar a carga, o bárbaro e Yabu, rapidamente e em segurança.