- Se acompanharmos a costa, quanto tempo levaremos?
- Não sei, senhor. Quatro ou cinco dias, talvez mais. Eu
me sentiria muito inseguro, não sou capitão, sinto muito.
O que significa, pensou Hiromatsu, que preciso da cooperação deste bárbaro. Para impedi-lo de ir até a praia, terei que mandar amarrá-lo. E quem sabe se, amarrado, ele vai cooperar?
- Quanto tempo teremos que ficar aqui?
- O piloto disse a noite toda.
- A tempestade terá acabado então?
- É o que deve acontecer, senhor, mas nunca se sabe.
Hiromatsu estudou a costa montanhosa, depois o piloto, vacilando.
- Posso oferecer uma sugestão, Hiromatsu-san? - disse Yabu.
- Sim, sim, naturalmente - disse o outro com impaciência.
- Como parece que precisamos da cooperação do piloto para nos levar a Osaka, por que não deixá-lo ir até a praia, mas com homens para protegê-lo, e ordenar que voltem antes do pôr-do-sol? Quanto a ir por terra, concordo que seria perigoso demais para o senhor. Eu nunca me perdoaria se alguma coisa lhe acontecesse. Uma vez que a tempestade se dissipe, o senhor estará mais seguro no navio e chegará a Osaka muito mais depressa, neh? Com certeza, pelo crepúsculo de amanhã.
Relutante, Hiromatsu assentiu.
- Muito bem. - Chamou um samurai com um gesto. -Takatashi-san! Pegue seis homens e vá com o piloto. Traga o corpo do português de volta se conseguirem encontrá-lo. Mas se um cílio que seja deste bárbaro for lesado você e os seus homens cometerão seppuku imediatamente.
- Sim, senhor.
- E mande dois homens à aldeia mais próxima para descobrir onde é, exatamente, que estamos e no feudo de quem.
- Sim, senhor.
- Com a sua permissão, Hiromatsu-san, vou comandar o destacamento até a praia - disse Yabu. - Se chegássemos a Osaka sem o pirata, eu ficaria tão envergonhado que me sentiria obrigado a me matar. Gostaria de ter a honra de executar as suas ordens.
Hiromatsu assentiu, intimamente surpreso de que Yabu resolvesse enfrentar por si um perigo como aquele. E desceu para o convés inferior.
Quando Blackthorne entendeu que Yabu ia até a praia com ele, sua pulsação se acelerou. Eu tinha esquecido Pieterzoon, a minha tripulação, o buraco - e os gritos, Omi ou qualquer parte do que aconteceu. Cuidado com a sua vida, bastardo.
CAPÍTULO 9
Rapidamente se encontraram em terra. Blackthorne pretendia chefiar a expedição, mas Yabu usurpou-lhe a posição e impôs uma marcha forçada, que ele teve dificuldade em acompanhar. Os outros seis samurais vigiavam-no cuidadosamente. Não tenho lugar algum para fugir, seus imbecis, pensou ele, interpretando mal a preocupação deles, enquanto seus olhos automaticamente esquadrinhavam a baía, à procura de bancos de areia ou recifes escondidos, medindo posições, guardando coisas importantes na cabeça para uma futura transcrição.
O caminho levou-os primeiro ao longo da praia de cascalho, depois a uma pequena subida sobre rochas polidas pelo mar, até uma vereda que ladeava o penhasco e se insinuava precariamente em torno do promontório, ao sul. A chuva havia parado, mas não a ventania. Quanto mais perto chegavam da língua de terra, totalmente exposta, mais alto a rebentação - atirando-se contra os rochedos lá embaixo - respingava no ar. Logo se viram encharcados.
Embora Blackthorne estivesse sentindo frio, Yabu e os outros, que tinham os quimonos leves descuidadamente franzidos pelos cintos, não pareciam ser afetados pela umidade nem pelo frio. Deve ser como Rodrigues disse, pensou ele, sentindo o medo voltar. Os japoneses simplesmente não são feitos como nós. Não sentem frio, fome, privações ou ferimentos como nós. Comparados a nós, são mais como animais, de nervos embotados. Acima deles o penhasco se elevava a duzentos pés. A areia estava a cinqüenta pés abaixo. Além e em toda a volta havia montanhas e nem uma casa ou cabana em toda a área da baía. Isso não era de surpreender, pois não havia espaço para campos, os seixos da praia rapidamente transformando-se em rochas e depois em montanha de granito, com árvores nas vertentes mais altas.
Muito insegura, de superfície movediça, a vereda descia e subia ao longo da face do penhasco. Blackthorne caminhava inclinando-se contra o vento, e notou que as pernas de Yabu eram fortes e musculosas. Escorregue, seu filho de uma puta, pensou ele. Escorregue, arrebente-se nas rochas lá embaixo. Será que isso o faria gritar? O que o faria gritar?
Com um esforço, desviou os olhos de Yabu e voltou a sondar a praia. Cada fenda, cada greta, cada fresta. A espuma no vento continuava a açoitar e arrancou-lhe lágrimas. O mar se derramava de um lado e de outro, redemoinhava, arrastava-se em torvelinho.
Ele sabia que havia uma esperança mínima de encontrar Rodrigues, haveria muitas cavernas e lugares escondidos que nunca poderiam ser investigados. Mas precisava vir à praia para tentar.
Devia a Rodrigues a tentativa. Todos os pilotos rezavam por uma morte em terra e um sepultamento em terra. Todos eles já haviam visto demasiados cadáveres inchados pelo mar, cadáveres meio comidos e cadáveres mutilados pelos caranguejos.
Contornaram o promontório e se detiveram a sotavento. Não havia necessidade de ir mais além. Se o corpo não estava a barlavento, então estava escondido ou fora engolido ou já carregado para o alto-mar, para o abismo. A meia milha de distância, uma pequena aldeia de pescadores aninhava-se na praia branca de espuma. Yabu fez sinal a dois samurais. Imediatamente eles se curvaram e saíram correndo naquela direção. Uma última olhada, depois Yabu enxugou a chuva do rosto, relanceou o olhar para Blackthorne e fez sinal para retornarem. Blackthorne assentiu e reiniciaram a caminhada. Yabu à frente, os outros samurais ainda a observá-lo cuidadosamente, e novamente ele pensou em como eram estúpidos.
Então, quando estavam a meio caminho de volta, viram Rodrigues.
O corpo estava preso numa fenda entre duas grandes rochas, acima da rebentação, mas parcialmente atingido por ela. Um braço estava esticado para a frente. O outro ainda estava agarrado ao remo quebrado, que se movia levemente com o fluxo e refluxo da água. Foi esse movimento que atraiu a atenção de Blackthorne quando se inclinou contra o vento, arrastando-se com dificuldade no rastro de Yabu.
O único caminho para baixo era por sobre o abrupto penhasco. A descida seria de apenas cinqüenta ou sessenta pés, mas era um declive íngreme e quase não havia apoios para os pés.
o a maré? - perguntou Blackthorne a si mesmo. Está subindo, não descendo. Vai levá-lo de volta para o mar. Jesus, a coisa parece que está feia lá embaixo. E agora?
Aproximou-se mais da borda e imediatamente Yabu lhe cortou o caminho, balançando a cabeça, e os outros samurais o rodearam.
- Só estou tentando olhar melhor, pelo amor de Cristo! Não estou tentando escapar! Para onde, diabos, eu posso fugir?
Recuou um pouco e olhou atentamente para baixo. Os outros lhe seguiram o olhar e tagarelaram entre si, Yabu falando mais que todos. Não há chance alguma, decidiu Blackthorne. É perigoso demais. Voltaremos ao amanhecer, com cordas. Se estiver aqui, estará aqui, e eu o sepultarei em terra. Relutantemente, voltou-se e, fazendo isso, a beirada do penhasco desmoronou e ele começou a escorregar. Imediatamente Yabu e os outros o agarraram e o puxaram de volta, e foi quando, num átimo, percebeu que estavam preocupados apenas com a sua segurança. Só estão tentando me proteger!
Por que me quereriam a salvo? Por causa de Tora...? Como era o nome? Toranaga? Por causa dele? Sim, mas também, talvez, porque não há mais ninguém a bordo para o porque me deixaram vir à praia, por isso que cederam? Sim, deve ser. Então, agora, tenho poder sobre o navio, sobre o velho daimio, e sobre este bastardo. Como posso usá-lo?