Ele descontraiu-se, agradeceu-lhes e deixou os olhos vagar lá embaixo.
- Temos que pegá-lo, Yabu-san. Hai! O único caminho é este. Sobre o penhasco. Eu o trarei para cima, eu, Anjin-san! - Novamente avançou como se fosse descer e novamente o retiveram. Então disse com preocupação fingida: - Temos que pegar Rodrigu-san. Olhem! Não temos tempo, a claridade está sumindo.
- Iyé, Anjin-san - disse Yabu.
Blackthorne erguia-se sobranceiro a Yabu.
- Se não vai me deixar ir, Yabu-san, então mande um de seus homens. Ou vá você mesmo. Você!
O vento feria-os com violência, uivando contra a face do penhasco. Viu Yabu olhar para baixo, avaliando a descida e a luz enfraquecida, e soube que Yabu estava fisgado. Caiu na armadilha, bastardo, sua vaidade lhe preparou uma armadilha. Se descer até lá, vai se machucar. Mas não se mate, por favor, só quebre as pernas ou os tornozelos. Depois se afogue.
Um samurai começou a descer mas Yabu ordenou-lhe que voltasse.
- Volte ao navio. Traga algumas cordas imediatamente - disse ele. O homem saiu correndo. Yabu descalçou as sandálias de tiras com um chute. Tirou as espadas do cinto e colocou-as em segurança. - Vigiem-nas e vigiem o bárbaro. Se alguma coisa acontecer a ele ou a elas, eu os faço sentar-se em cima das suas próprias espadas.
- Por favor, deixe-me ir, Yabu-sama - disse Takatashi. - Se o senhor se ferir ou se perder eu...
- Acha que pode ter êxito onde eu falhe? Não, senhor, naturalmente que não.
- Bom.
- Por favor, espere pelas cordas, então. Nunca me perdoarei se alguma coisa lhe acontecer. - Takatashi era baixo e sólido, com uma barba cheia.
Por que não esperar ás cordas? perguntou Yabu a si mesmo. Seria razoável, sim. Mas não seria inteligente. Olhou para Blackthorne e assentiu brevemente. Sabia que fora desafiado. Contara com isso. E tivera esperança de que acontecesse. Por isso me ofereci para esta missão, Anjin-san, disse ele a si mesmo, silenciosamente divertido. Você realmente é muito simples, Omi tinha razão.
Yabu despiu o quimono ensopado e, vestido somente com a tanga, dirigiu-se para a borda do penhasco e testou-a com as solas dos seus tabis de algodão - seus sapatos-meias. É melhor ficar com eles, pensou, sentindo sua vontade e seu corpo, forjados por uma vida toda de treinamento a que todo samurai tinha que se submeter, dominar o frio que o trespassava. Os tabis me darão uma preensão mais firme - por um tempo. Você vai precisar de toda a força e habilidade para chegar lá embaixo vivo. Vale a pena?
Durante a tempestade e a arremetida para a praia, ele subira ao convés e, sem que Blackthorne notasse, tomara lugar aos remos. Prazerosamente, usara sua força com os remadores, detestando o miasma lá embaixo e o enjôo que sentia. Resolvera que era melhor morrer ao ar do que sufocado lá embaixo.
Trabalhando com os outros ao frio, começara a observar os pilotos. Vira claramente que, ao mar, o navio e todos a bordo estavam em poder daqueles dois homens. Os pilotos se encontravam no seu elemento, cavalgando os conveses arfantes tão descuidadamente quanto ele um cavalo a galope. Nenhum japonês a bordo se igualava a eles. Em habilidade, coragem ou conhecimento. E gradualmente essa consciência havia gerado um conceito grandioso: modernos navios bárbaros cheios de samurais, pilotados por samurais, capitaneados por samurais, manobrados por samurais. Samurais dele.
Se eu tivesse de começo três navios bárbaros, poderia facilmente controlar as rotas marítimas entre Yedo e Osaka. Baseado em Izu, poderia estrangular toda a navegação ou deixá-la passar. Portanto, praticamente todo o arroz e toda a seda. Não seria eu, então, um árbitro entre Toranaga e Ishido? No mínimo, no mínimo, não seria um equilíbrio entre eles?
Nenhum daimio jamais gostara do mar.
Nenhum daimio tem navios ou pilotos.
Com exceção de mim.
Eu tenho um navio - tive um navio - e agora poderia ter meu navio de volta - se for esperto. Tenho um piloto e, conseqüentemente, um treinador de pilotos, se conseguir afastá-lo de Toranaga. Se conseguir dominá-lo. Uma vez que se torne meu vassalo, por vontade própria, treinará meus homens. E construirá navios.
Mas como torná-lo um autêntico vassalo? O buraco não lhe dobrou o espírito.
Primeiro, isolá-lo e mantê-lo isolado - não foi isso o que Omi disse? Depois esse piloto seria persuadido a aprender boas maneiras e falar japonês. Sim. Omi é muito esperto. Esperto demais, talvez - pensarei em Omi mais tarde. Concentre-se no piloto. Como dominar um bárbaro, um cristão comedor de imundície?
O que foi que Omi disse? "Eles dão valor à vida. Sua divindade principal, Jesus Cristo, ensina-os a se amarem uns aos outros e a darem valor à vida." Eu poderia devolver-lhe a vida? Poupá-la, sim, isso seria muito bom. Como dobrá-lo?
Yabu ficara tão dominado pela animação, que mal notara o movimento do navio ou os vagalhões. Uma onda cascateou aos borbotões sobre ele. Viu-a envolver o piloto. Mas não havia medo no homem, em absoluto. Yabu ficou atônito. Como é que alguém que humildemente permitira a um inimigo urinar-lhe nas costas podia salvar a vida de um insignificante vassalo? Como é que aquele homem podia ter a força para esquecer tal desonra eterna o manter-se ereto ali no tombadilho, invocando os deuses do mar para a batalha, como um herói lendário - e para salvar os mesmos inimigos? E depois, quando o vagalhão arrastara o português e eles estavam todos se debatendo, o Anjin-san miraculosamente rira da morte e dera-lhes a força para se afastarem dos rochedos.
Nunca os entenderei, pensou.
À beira do penhasco, Yabu olhou para trás uma última vez. Ah, Anjin-san, sei que está pensando que me encaminho para a morte, que me pegou numa armadilha. Sei que você mesmo não iria até lá embaixo. Estive a observá-lo bem de perto. Mas cresci nas montanhas e aqui no Japão escalamos por orgulho e por prazer. Por isso desço agora nos meus termos, não nos seus. Tentarei, e se morrer não tem importância. Mas se tiver êxito, então você, enquanto homem, saberá que sou melhor que você, nos seus termos. E se eu trouxer o corpo de volta, você estará igualmente endividado comigo.
Você será meu vassalo, Anjin-San.
Desceu pelo lado do penhasco com grande habilidade. Quando estava a meio caminho, escorregou. Sua mão esquerda agarrou-se em uma saliência. Isso lhe deteve a queda, e ele oscilou entre a vida e a morte. Seus dedos se enterraram profundamente quando sentiu que a saliência ruía e fincou os dedos dos pés numa fenda, lutando por outro apoio. Quando o da mão esquerda rachou os pés encontraram uma greta, agüentaram-se ali, ele abraçou o penhasco desesperadamente, ainda desequilibrado, comprimindo-se contra ele a procura de apoios. Então a fenda onde fincara a ponta dos pés não resistiu. Embora conseguisse agarrar outra saliência com as duas mãos, dez pés abaixo, e ficasse suspenso momentaneamente, esta também cedeu. Ele caiu os últimos vinte pés.
Havia se preparado da melhor maneira para isso e tombou sobre os pés como um gato, rolando sobre a face inclinada do rochedo para amortecer o choque. Parou ofegante e enrolado em torno de si. Apertou os braços lacerados ao redor da cabeça, protegendo-se da avalanche de pedras que poderia seguir. Mas não houve avalancha. Sacudiu a cabeça para desanuviá-la e levantou-se. Um tornozelo estava torcido. Uma dor abrasante percorria-lhe a perna até as entranhas e o suor começou a correr. Os artelhos e as unhas das mãos sangravam, mas isso era de se esperar.
Não há dor. Você não vai sentir dor. Ponha-se de pé e ereto. O bárbaro está olhando.
Uma coluna de salpicos ensopou-o e o frio ajudou a suavizar a dor. Com precaução, ele deslizou sobre os seixos polidos pelo mar, moveu-se lenta e cuidadosamente através das fendas e viu-se junto ao corpo.
Abruptamente Yabu percebeu que o homem ainda estava vivo. Certificou-se disso, depois sentou-se um instante. Você o quer vivo ou morto? O que é melhor?