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Um caranguejo abriu passagem de sob uma rocha e estelou-se no mar. Ondas precipitavam-se de roldão. Yabu sentiu o sal dilacerar-lhe os ferimentos. O que é melhor, que viva ou que morra?

Levantou-se precariamente e gritou:

- Takatashi-san! O piloto ainda está vivo! Vá até o navio, traga uma padiola e um médico, se houver um a bordo!

As palavras de Takatashi lhe chegaram fracamente contra o vento:

- Sim senhor – e as que disse a seus homens, quando abalou em disparada: - Vigiem o bárbaro, não deixem que nada lhe aconteça!

Yabu contemplou a galera, flutuando sobre as âncoras suavemente. O outro samurai que ele mandara buscar cordas já estava ao lado dos esquifes. Viu quando o homem saltou para dentro de um, que foi descido. Sorriu para si mesmo, olhou para trás. Blackthorne se aproximava da borda do penhasco e gritava para ele com insistência.

O que está tentando dizer? Perguntou-se Yabu. Viu o piloto apontar para o mar, mas isso não lhe disse nada. O mar estava violento e forte, mas não diferente de antes.

Yabu desistiu de entender e voltou a atenção para Rodrigues. Com dificuldade, soltou o homem das rochas, tirando-o da rebentação. A respiração do português estava irregular, mas o coração parecia forte. Havia muitas escoriações. Um osso lascado salientava-se através da pele da barriga da perna esquerda. O ombro direito parecia deslocado. Yabu procurou vestígios de hemorragia em algum dos ferimentos, mas não encontrou nenhuma. Se não estiver ferido por dentro, talvez viva, pensou.

O daimio fora ferido inúmeras vezes e vira muitos morrendo ou sendo feridos para não ter atingido certa dose de habilidade diagnóstica. Se Rodrigu se mantiver aquecido, concluiu ele, tomar saquê, ervas fortes, muitos banhos quentes, viverá. Talvez não volte a andar, mas viverá. Sim. Quero que este homem viva. Se não puder andar, não importa. Talvez até seja melhor. Terei um piloto reserva – este homem certamente me deve a vida. Se o pirata não cooperar, talvez eu possa usar este aqui. Valeria a pena fingir tornar-me cristão? Será que isso os traria, a ambos, para mim?

O que Omi faria?

Esse é inteligente, Omi. Inteligente demais? Omi vê demais e rápido demais. Se pode ver tão longe, deve perceber que seu pai chefiaria o clã se eu desaparecesse – meu filho ainda é inexperiente demais para sobreviver sozinho -, e depois do pai, o próprio Omi. Neh?

O que fazer com Omi?

Digamos que eu dê Omi aos bárbaros. Como brinquedo.

Que tal isso?

Ouviu muitos gritos ansiosos lá em cima. Então entendeu o que o bárbaro estivera apontando. A maré! A maré estava se aproximando velozmente. Já estava ultrapassando a rocha adiante. Ele se arrastou penosamente mais para cima e estremeceu com uma pontada de dor no tornozelo. Qualquer outra saída ao longo da praia estava bloqueada pelo mar. Viu que a marca da maré no penhasco estava acima da altura de um homem em cima da base.

Olhou para o esquife. Ainda estava perto do navio. Na praia, Takatashi ainda ia correndo. As cordas não vão chegar a tempo, disse a si mesmo.

Seus olhos esquadrinharam a área diligentemente. Não havia como subir o penhasco. Nenhum rochedo oferecia abrigo. Nenhuma caverna. Dentro da água havia saliências, mas ele nunca conseguiria alcançá-las. Não sabia nadar e nao havia nada para usar como jangada.

Os homens lá em cima observavam-no. O bárbaro apontou para os afloramentos dentro do mar e fez movimentos de natação, mas ele balançou a cabeça. Procurou cuidadosamente de novo. Nada.

Não há escapatória, pensou. Você agora está comprometido com a morte. Prepare-se.

Karma, disse a si mesmo, e deu as costas para eles, acomodando-se mais confortavelmente, e usufruindo a iluminação que lhe adveio subitamente. Último dia, último mar, última luz, último prazer, último tudo. Que belos o mar, o céu, o frio e o sal. Começou a pensar no poema-canção final que deveria compor agora, por hábito. Sentiu-se afortunado. Tinha tempo para pensar claramente.

Blackthorne estava gritando:

- Ouça, seu filho de uma puta! Encontre uma saliência, tem que haver uma saliência em algum lugar!

Os samurais lhe barravam a frente, fitando-o como se fosse louco. Estava claro para eles que não havia saída e que Yabu estava simplesmente se preparando para uma morte suave, como eles fariam se estivessem lá. E ressentiam-se daqueles desvarios como sabiam que Yabu se ressentiria.

- Procurem ali embaixo, todos vocês. Talvez haja uma saliência! - Um deles aproximou-se da borda, olhou para baixo, sacudiu os ombros, e falou aos companheiros, que também sacudiram os ombros. Cada vez que Blackthorne tentava se aproximar mais da borda para procurar uma saída eles o detinham. Ele poderia facilmente ter empurrado um deles para a morte e sentiu-se tentado a isso. Mas compreendeu-os e aos seus problemas. Pense num modo de ajudar aquele bastardo. Você tem que salvá-lo, para salvar Rodrigues.

- Ei, seu japona miserável, mijão, bunda-mole! El, Kasigi Yabu! Onde estão os seus cojones? Não desista! Só os covardes desistem! Você é um homem ou uma ovelha? - Mas Yabu não prestava atenção. Estava tão imóvel quanto a rocha sobre a qual se sentara.

Blackthorne pegou uma pedra e atirou-a nele. Caiu despercebida na água e os samurais gritaram zangados com Blackthorne. Sabia que a qualquer momento eles iriam lhe cair em cima e amarrá-lo. Mas como poderiam fazer isso? Não têm corda...

Corda! Arranje uma corda! Sabe fazer uma corda!

Seus olhos toparam com o quimono de Yabu. Começou a rasgá-lo em tiras, testando-lhes a força. A seda era muito forte.

- Vamos! - ordenou aos samurais, tirando a própria camisa.

- Façam uma corda. Hai?

Eles compreenderam. Rapidamente desataram os cintos, despiram os quimonos e imitaram-no. Ele começou a unir as extremidades e os cintos.

Enquanto terminavam a corda, Blackthorne cuidadosamente se deitou e avançou lentamente por sobre a borda, fazendo dois deles segurar-lhe os tornozelos por medida de segurança. Não precisava da ajuda deles, mas quis tranqüilizá-los.

Estendeu a cabeça tão longe quanto pôde, consciente da preocupação deles. Depois começou a investigar como se faz ao mar. Quadrante por quadrante. Usando cada ângulo da sua visão, mas principalmente os laterais.

Uma busca completa. Nada.

Mais uma vez.

Nada.

De novo.

O que é aquilo? Bem acima da linha da maré? É uma rachadura no penhasco? Ou uma sombra?

Blackthorne mudou de posição, agudamente consciente de que o mar já havia quase coberto a rocha onde Yabu estava sentado, e quase todas as outras entre ele e a base do penhasco. Agora podia ver melhor e apontou.

- Ali! O que é aquilo?

Um dos samurais estava de quatro e seguiu o dedo esticado de Blackthorne, mas não viu nada.

- Ali! Não é uma saliência?

Com as mãos, formou a saliência e com dois dedos fez um homem. Pôs o homem em pé sobre a saliência e, com outro dedo, fez um longo fardo sobre o ombro do homem, de modo que agora havia um homem sobre a saliência - aquela saliência - com outro sobre o ombro.

- Depressa! Isogi! Façam-no compreender. Kasigi Yabusama! Wakarimasu ka?

O homem arrastou-se para cima e falou rapidamente com os   outros, que também olharam. Agora todos viam a saliência. E   começaram a gritar. Nenhum movimento de Yabu. Parecia uma   pedra. Continuaram e Blackthorne juntou seus gritos aos deles,   mas era como se não emitissem som algum.  Um deles falou brevemente aos outros, todos assentiram e se   curvaram. Ele retribuiu a reverência. Então, com um repentino   grito de " Bansaüüüü!", atirou-se do penhasco lançando-se para a   morte. Yabu saiu violentamente do seu transe, olhou em torno   atarantado e arrastou-se mais para cima. Os outros samurais gritaram e apontaram, mas Blackthorne não ouvia nem via nada   senão o cadáver que jazia lá embaixo, já sendo levado pelo mar.   Que espécie de homens são esses? pensava. Isso foi coragem   ou somente insanidade? Aquele homem deliberadamente cometeu   suicídio apenas com a finalidade, possivelmente remota, de atrair   a atenção de outro homem que havia capitulado. Não faz sentido!   Eles não fazem sentido.