Viu Yabu cambalear. Esperou que ele rastejasse para a segurança abandonando Rodrigues. Isso é o que eu teria feito. É? Não sei. Mas Yabu meio engatinhou, meio deslizou, arrastando o homem inconsciente através dos baixios invadidos pela rebentação até a base do penhasco. Encontrou a saliência. Tinha mal e mal um pé de largura. Penosamente empurrou Rodrigues para lá, quase o perdendo uma vez, depois puxou a si mesmo.
A corda tinha vinte pés de comprimento. Rapidamente os samurais acrescentaram as tangas. Agora, se Yabu se pusesse ereto, mal poderia tocar-lhe a ponta.
Eles gritaram para encorajá-lo e se puseram à espera.
Apesar do ódio, Blackthorne teve que admirar a coragem de Yabu. Por uma meia dúzia de vezes as ondas quase o tragaram. Por duas vezes Rodrigues esteve perdido, mas de cada vez Yabu arrastou-o de volta, segurando-lhe a cabeça fora da água sôfrega, muito depois do ponto em que Blackthorne sabia que ele mesmo teria desistido. De onde você tira a coragem, Yabu? É gerada pelo Demônio? Em todos vocês?
Para descer, em primeiro lugar, fora necessário coragem. Primeiro Blackthorne pensara que Yabu agira por bravata. Mas logo vira que o homem estava enfrentando o penhasco e quase vencendo. Depois amortecera a queda tão agilmente quanto qualquer acrobata. E capitulara com dignidade.
Jesus Cristo, admiro esse bastardo, e detesto-o.
Por quase uma hora Yabu resistiu ao mar e ao seu corpo fraquejando, e então, ao crepúsculo, Takatashi voltou com as cordas. Fizeram uma espécie de berço e o escorregaram pelo penhasco com uma habilidade que Blackthorne nunca vira em terra.
Rapidamente Rodrigues foi trazido para cima. Blackthorne teria tentado socorrê-lo, mas um japonês com cabelo cortado rente já estava de joelhos ao lado dele. Ficou observando enquanto aquele homem, obviamente um médico, examinava a perna quebrada. Depois um samurai segurou os ombros de Rodrigues enquanto o doutor apoiava o seu peso sobre o pé e o osso deslizava de volta sob a carne. Seus dedos sondaram a perna, apertaram, apoiaram e amarraram-na à tala. Começou a enrolar ervas de aparência insalubre em torno do ferimento inflamado, quando Yabu foi trazido para cima.
O daimio recusou qualquer ajuda, mandou o médico de volta para Rodrigues com um gesto, sentou-se e esperou.
Blackthorne olhou para ele. Yabu sentiu-lhe os olhos. Os dois homens se encararam.
- Obrigado -— disse Blackthorne finalmente, apontando para Rodrigues. - Obrigado por salvar-lhe a vida. Obrigado, Yabu-san. - Curvou-se vagarosamente. Isto é pela sua coragem, seu filho de olhos pretos de uma puta de merda apodrecida!
Yabu retribuiu a reverência de modo igualmente rígido. Mas por dentro sorria.
LIVRO DOIS
CAPÍTULO 10
A viagem da baía para Osaka foi rotineira. Os portulanos de Rodrigues eram explícitos e muito precisos. Durante a primeira noite, Rodrigues recuperara a consciência. No começo achou que estivesse morto, mas a dor logo o fez pensar diferente.
- Eles endireitaram a sua perna e enfaixaram-na - disse Blackthorne. - E enfaixaram o ombro também. Estava deslocado. Não vão lhe fazer uma sangria, por mais que eu tenha tentado convencê-los.
- Quando chegar a Osaka os jesuítas podem fazer isso. - Os atormentados olhos de Rodrigues cravaram-se nele. - Como vim parar aqui, Inglês? Lembro-me de ser atirado ao mar, e nada mais.
Blackthorne contou-lhe.
- Então agora lhe devo a vida. Deus o amaldiçoe.
- Do tombadilho parecia que podíamos atingir a baía. Da proa, o seu ângulo de visão era alguns graus diferente. A onda foi má sorte.
- Isso não me preocupa, Inglês. Você estava no tombadilho e tinha o timão. Ambos sabíamos disso. Não, amaldiçôo você com o inferno porque agora lhe devo uma vida. Nossa Senhora, minha perna! - Lágrimas brotaram-lhe por causa da dor e Blackthorne deu-lhe uma caneca de grogue. Velou-o a noite toda. A tempestade arrefeceu. O médico japonês veio várias vezes: forçou Rodrigues a tomar um remédio quente, colocou-lhe toalhas quentes sobre a testa e abriu as vigias. Cada vez que o médico ia embora Blackthorne as fechava, pois todo mundo sabia que a doença era conduzida pelo ar, que quanto mais firmemente fechada estivesse a cabina, mais segura e saudável seria para um homem tão mal quanto Rodrigues.
Finalmente o médico gritou com ele e postou um samurai junto às vigias, que permaneceram abertas.
Ao amanhecer Blackthorne foi para o convés. Hiromatsu e Yabu estavam ambos lá. Fez-lhes uma mesura como um cortesão.
- Konnichi Wa. Osaka?
Retribuíram-lhe a saudação. –
- Osaka. Hai, Anjin-san - disse Hiromatsu.
- Hai! Isogi, Hiromatsu-sama. Capitão-san! Levantar ferros!
- Hai, Anjin-san.
Sorriu involuntariamente para Yabu. Yabu correspondeu ao sorriso, depois afastou-se coxeando. É um homem fantástico, pensou Blackthorne, embora seja um demônio e um assassino. Você também não é assassino? Sim, mas não desse jeito, disse a si mesmo.
Blackthorne pilotou o navio até Osaka com facilidade. A viagem durou aquele dia e aquela noite, e pouco antes do amanhecer do dia seguinte encontravam-se próximos das entradas de Osaka.
Um piloto japonês subiu a bordo para levar o navio ao ancoradouro e Blackthorne, aliviado da responsabilidade, desceu, satisfeito, para dormir. Mais tarde o capitão acordou-o com uma sacudidela, curvou-se e gesticulou que Blackthorne devia se preparar para ir com Hiromatsu assim que atracassem.
- Wakarimasu ka, Anjin-san?
- Hai.
O marujo foi embora. Blackthorne estirou os músculos das costas, doloridos, então viu Rodrigues a observá-lo.
- Como se sente?
- Bem, Inglês. Considerando que a minha perna está em chamas, minha cabeça estourando, quero mijar, e minha língua está com o gosto que deve ter um barril de bosta de porco!
Blackthorne deu-lhe o urinol, depois esvaziou-o pela vigia. Tornou a encher a caneca com grogue.
- Você é uma enfermeira abominável, Inglês. É por causa do seu coração preto. - Rodrigues riu e foi bom ouvi-lo rir novamente. Seus olhos se dirigiram para o portulano que estava aberto sobre a mesa, e para a sua arca. Viu que fora destrancada. - Eu lhe dei a chave?
- Não. Eu revistei você. Precisava do portulano verdadeiro. Disse-lhe isso quando acordou na primeira noite.
- É justo. Não me lembro, mas é justo. Ouça, Inglês, pergunte a qualquer jesuíta por Vasco Rodrigues em Osaka e eles o guiarão até mim. Venha me ver... e poderá tirar uma cópia do meu portulano, se quiser.
- Obrigado. Já tirei uma cópia. Pelo menos copiei o que pude, e li o resto com todo o cuidado.
- Puta que o pariu! - disse Rodrigues em espanhol.
- A sua.
Rodrigues voltou a falar português.
- Falar espanhol me dá ânsia de vômito, embora se possa praguejar melhor nessa língua do que em qualquer outra. Há um pacote na minha arca. Dê-me, por favor.
- O que tem os lacres jesuítas?
- Sim.
Ele lhe deu o pacote. Rodrigues examinou-o, apalpou os selos intactos, depois pareceu mudar de idéia, pôs o pacote sobre o áspero cobertor sob o qual estava deitado, e recostou a cabeça de novo.
- Ah, Inglês, a vida é tão estranha!
- Por quê?
- Se eu viver, será por causa da graça de Deus, ajudado por um herege e por um japonês. Mande o comedor de grama descer, de modo que eu possa agradecer-lhe, hem?