Absolutamente nenhuma.
- Se você acha que é muito - estava dizendo Rodrigues -, espere até ir à China. São todos amarelos lá, todos com cabelos e olhos pretos. Oh, Inglês, digo-lhe que você tem tanta novidade para aprender! Estive em Cantão no ano passado, nas vendas de seda. Cantão é uma cidade murada no sul da China, sobre o rio Pérola, ao norte da nossa Cidade do Nome de Deus, Macau. Há um milhão desses pagãos comedores de cachorros só dentro daqueles muros. A China tem mais gente do que todo o resto do mundo reunido. Deve ter. Pense nisso! - Um espasmo de dor percorreu-lhe o corpo e ele pressionou o estômago com a mão ilesa. - Tive alguma hemorragia? Em algum lugar?
- Não. Verifiquei isso. É só a sua perna e o ombro. Você não está ferido por dentro, Rodrigues, pelo menos não acho que esteja.
- Como está a perna? Muito mal?
- Foi lavada e limpa pelo mar. O corte estava limpo e a pele também, no momento.
- Você derramou conhaque em cima e acendeu fogo?
- Não. Eles não me deixariam. Ordenaram que eu me afastasse. Mas o médico parece saber o que está fazendo. A sua gente virá a bordo logo?
- Sim. Assim que atracarmos. Isso é mais que provável.
- Bom. você estava dizendo? Sobre a China e Cantão?
- Eu estava falando demais, talvez. Temos tempo bastante para falar nisso.
Blackthorne viu a mão ilesa do português brincar com o pacote lacrado e novamente perguntou a si mesmo que significado tinha aquilo.
- Sua perna vai ficar boa. Você vai saber disso no decorrer da semana.
- Sim, Inglês.
- Não acho que vá degenerar... não tem pus... você está pensando com clareza, de modo que o seu cérebro está em ordem.
Você ficará ótimo, Rodrigues.
- Ainda lhe devo a vida. - Um arrepio percorreu o português. - Quando estava me afogando, tudo em que podia pensar era nos caranguejos subindo e me entrando pelos olhos. Podia senti-los agitando-se dentro de mim, Inglês. Foi a terceira vez que fui atirado ao mar e de cada vez é pior.
- Fui posto a pique quatro vezes. Três por espanhóis.
A porta da cabina se abriu, o capitão inclinou-se e fez sinal para que Blackthorne subisse.
- Hai! - Blackthorne levantou-se. - você não me deve nada, Rodrigues - disse gentilmente. - Deu-me a vida e socorreu-me quando eu estava desesperado, e agradeço-lhe isso. Estamos quites.
- Talvez, mas ouça, Inglês, uma verdade para você, como pagamento parciaclass="underline" nunca se esqueça de que os japoneses têm seis caras e três corações. É um ditado deles que um homem tem um falso coração na boca para que todo mundo veja, outro no peito para mostrar aos amigos muito especiais e à família, e o verdadeiro, o real, o secreto,' que nunca é conhecido por ninguém exceto por eles mesmos, escondido só Deus sabe onde. São traiçoeiros para além da crença.
- Por que Toranaga quer me ver?
- Não sei. Pela Virgem abençoada! Não sei. Volte para me ver, se puder.
- Sim. Boa sorte, espanhol!
- Espanhol é a mãe! Ainda assim, vá com Deus!
Blackthorne retribuiu o sorriso, sem reservas. Subiu para o convés e ficou atarantado com o impacto de Osaka, sua imensidade, o laborioso formigueiro humano, e o enorme castelo que dominava a cidade.
De dentro da vastidão do castelo vinha a beleza sublime do torreão - a torre central - com sete ou oito pavimentos de altura, coruchéus pontudos com telhados curvos em cada nível, as telhas todas douradas e os muros azuis. É ali que Toranaga deve estar, pensou, sentindo repentinamente uma farpa de gelo nas entranhas.
Um palanquim fechado levou-o a um casarão. Ali deram-lhe um banho, comeu, inevitavelmente a sopa de peixe, peixe cru e defumado, um pouco de verduras em conserva, e bebeu a água quente com ervas. Ao invés de sopa de trigo, esta casa ofereceu-lhe uma tigela de arroz. Ele só tinha visto arroz em Nápoles. Era branco e saudável, mas para ele insosso. Seu estômago gritava por carne e pão, pão fresco sequinho, pesado de manteiga, um bife de lombo, tortas, frangos, cerveja, ovos.
No dia seguinte uma criada veio buscá-lo. As roupas que Rodrigues lhe dera foram lavadas e passadas. Ela ficou olhando enquanto ele se vestia, e ajudou-o a calçar os sapatos-meias rabis. Do lado de fora havia um novo par de sandálias de tiras. Faltavam as botas. Ela balançou a cabeça e apontou pari as sandálias e depois para o palanquim com cortinas. Uma falange de samurais o rodeava. O chefe fez-lhe sinal que se apressasse e entrasse no palanquim.
Puseram-se em movimento imediatamente. As cortinas estavam hermeticamente fechadas. Após uma eternidade, o palanquim parou.
- Você não vai ficar com medo - disse ele em voz alta, e saiu.
O gigantesco portão de pedra do castelo estava à sua frente fixado a um muro de trinta pés, com ameias interligadas, bastiões o fortificações exteriores. A porta era imensa, com placas de ferro, e estava aberta, o rastrilho de ferro forjado levantado. Além havia uma ponte de madeira, com vinte passos de largura e duzentos de comprimento, que se estendia sobre o fosso e terminava numa enorme ponte levadiça, e outro portão, aberto no segundo muro, igualmente imenso.
Centenas de samurais estavam por toda parte. Todos usavam o mesmo uniforme cinza-escuro - quimonos presos com cinto, cada um com cinco pequenas insígnias circulares, uma em cada braço, uma de cada lado do peito e uma no meio das costas.
A insígnia era azul, aparentemente uma flor ou várias flores.
- Anjin-san!
Hiromatsu estava sentado rigidamente num palanquim aberto, levado por quatro carregadores de libré. Seu quimono era marrom-escuro, o cinto preto, o mesmo dos cinqüenta samurais que o rodeavam. Eles, igualmente, tinham cinco insígnias no quimono, mas escarlates, como a que tremulava no topo do mastro, o monograma de Toranaga. Esses samurais carregavam longas lanças, com minúsculas bandeiras na ponta.
Blackthorne curvou-se sem pensar, levado pela majestade de Hiromatsu. O velho curvou-se também, formalmente, a espada comprida solta, no colo, e fez-lhe sinal que o seguisse.
O oficial do portão avançou. Houve uma leitura cerimoniosa do papel que Hiromatsu lhe estendeu, muitas mesuras e olhares para Blackthorne. Em seguida passaram para a ponte, com uma escolta dos cinzentos engatando ao lado deles.
A superfície do fosso profundo estava cinqüenta pés abaixo. Estendia-se por cerca de trezentos passos até o outro lado, depois acompanhava os muros quando estes se voltavam para o norte. Senhor Deus, pensou Blackthorne, eu odiaria ter que tentar um ataque aqui. Os defensores poderiam deixar a guarnição do muro exterior perecer, queimar a ponte, e estariam a salvo lá dentro. Jesus, o muro externo deve ter aproximadamente uma milha quadrada e olhe, deve ter vinte, trinta pés de espessura - o de dentro também. E é construído com enormes blocos de pedra. Cada um deve ter dez pés por dez! No mínimo! Perfeitamente cortados e fixados no lugar sem argamassa. Devem pesar cinqüenta toneladas no mínimo. Melhor do que qualquer um que pudéssemos fazer. Armas de assédio? Certamente poderiam bombardear os muros externos, mas as armas defensoras revidariam o ataque com a mesma intensidade. Seria duro pegá-los aqui em cima, e não há nenhum ponto mais alto do qual arremessar granadas para dentro do castelo. Se o muro externo fosse tomado, os defensores ainda poderiam fazer os atacantes voar para longe das ameias. Mas mesmo que se pudessem colocar armas de assédio ali, voltá-las contra o muro seguinte e bombardeá-lo, não lhe causaria dano algum. Poderiam danificar o portão, mas para que serviria isso? Como se poderia cruzar o fosso? É vasto demais para os métodos normais. O castelo deve ser inexpugnável - com soldados suficientes. Quantos soldados há aqui? Quantos habitantes da cidade encontrariam abrigo lá dentro?
Faz a Torre de Londres parecer uma pocilga. E a Hampton Court toda caberia num canto!
No portão seguinte houve outra verificação cerimoniosa dos papéis. A estrada virou para a esquerda imediatamente, descendo uma vasta avenida alinhada de casas pesadamente fortificadas por trás de muros maiores e menores, facilmente defendíveis, depois se multiplicava num labirinto de degraus e caminhos. Depois havia outro portão e mais verificação, outro rastrilho e outro vasto fosso e novas voltas e volteios até que Blackthorne, que era um observador acurado, com uma extraordinária memória e senso de direção, se perdesse em hesitação numa confusão premeditada pelos planejadores do castelo. E o tempo todo inúmeros cinzentos os olhavam de taludes, trincheiras, ameias, parapeitos e bastiões. E havia mais deles em pé, guardando, marcando, treinando ou cuidando de cavalos em estábulos abertos. Soldados por toda parte, aos milhares. Todos bem armados e meticulosamente vestidos.