Blackthorne amaldiçoou a si mesmo por não ter sido esperto o bastante para arrancar mais coisas de Rodrigues. A parte a informação sobre o taicum e os convertidos, fornecidas já com muita vacilação, Rodrigues fora tão fechado quanto um homem deve ser - como você foi, evitando as perguntas dele.
Concentre-se. Procure indícios. O que há de especial neste castelo? É o maior. Não, alguma coisa diferente. O quê?
Os cinzentos são hostis aos marrons? Não posso dizer, são todos tão sérios.
Blackthorne observou-os cuidadosamente e se concentrou nos detalhes. A esquerda havia um jardim multicolorido, cuidadosamente tratado, com pequenas pontes e um minúsculo riacho. Os muros agora estavam mais próximos uns dos outros, as ruas mais estreitas. Estavam se aproximando do torreão. Não havia gente da cidade lá dentro, mas centenas de criados e... Nao há canhões! É isso que é diferente! Você não viu nem um canhão. Nem um.
Senhor Deus do paraíso, nenhum canhão... por isso não há armas de assédio! Se você tivesse armas modernas e os defensores não, conseguiria explodir os muros, as portas, lançar granadas no castelo, incendiá-lo e tomá-lo?
Não conseguiria atravessar o primeiro fosso.
Com armas de assédio você talvez tornasse as coisas difíceis para os defensores, mas eles poderiam resistir para sempre - se a guarnição fosse resoluta, se houvesse quantidade suficiente deles, com comida suficiente, água e munição.
Como atravessar os fossos? De barco? Balsas com torres?
Sua mente tentava delinear um plano quando o palanquim parou. Hiromatsu desceu. Estavam num estreito beco sem saída. Um imenso portão de madeira reforçada com ferro estava encravado no muro de vinte pés, que se fundia com as fortificações externas do local fortificado acima, ainda distante do torreão, que dali ficava oculto em grande parte. Ao contrário de todos os outros portões, este era guardado pelos marrons, os únicos que Blackthorne viu dentro do castelo. Era claro que ficaram mais que contentes de ver Hiromatsu.
Os cinzentos deram meia-volta e partiram. Blackthorne notou os olhares hostis que receberam dos marrons.
Então eles são inimigos!
O portão girou nos gonzos e ele seguiu o velho para dentro. Sozinho. Os outros samurais ficaram do lado de fora.
O pátio interno era guardado por mais marrons, assim como o jardim que ficava além. Cruzaram o jardim e entraram na fortaleza. Hiromatsu descalçou as sandálias e Blackthorne o imitou.
O corredor interno era ricamente atapetado com tatamis, as mesmas esteiras de junco, limpas e macias aos pés, que havia no chão de quase todas as casas, mesmo as mais pobres. Blackthorne já havia notado que eram todas do mesmo tamanho, cerca de seis pés por três.
E de se pensar, disse a si mesmo; nunca vi esteiras moldadas ou cortadas em grandes dimensões. E nunca encontrei um aposento de formato indefinido! Todos os cômodos até agora não eram exatamente quadrados ou retangulares? Claro! Isso quer dizer que todas as casas - ou cômodos - devem ser construídos para conter um número exato de esteiras. Por isso são todas de tamanho padrão! Que coisa estranha!
Subiram escadas em caracol, facilmente defendíveis, seguiram por outros corredores e mais escadas. Havia muitos guardas, sempre marrons. Raios de sol vindos das seteiras na parede traçavam desenhos intricados. Blackthorne podia ver que agora estavam bem acima dos três principais muros circundantes. A cidade e a enseada eram uma colcha desenhada lá embaixo.
O corredor dobrou uma esquina brusca e terminou cinqüenta passos à frente.
Blackthorne sentiu gosto de bile na boca. Não se preocupe, disse a si mesmo, vote já resolveu o que vai fazer. Está comprometido.
Uma multidão de samurais, com seu jovem oficial a frente, protegia a última porta — cada um deles com a mão direita sobre o punho da espada, a esquerda na bainha, todos imóveis e prontos, fitando os dois homens que se aproximavam.
Hiromatsu sentiu-se tranqüilizado pela prontidão deles. Selecionara pessoalmente aqueles guardas. Odiava o castelo e pensou novamente em como fora perigoso para Toranaga colocar-se em poder do inimigo. Assim que desembarcara, na véspera, acorrera ao encontro de Toranaga, para lhe contar o que acontecera e descobrir se ocorrera alguma coisa desfavorável na sua ausência, Mas continuava tudo tranqüilo, embora seus espiões sussurrassem sobre perigosas formações do inimigo a norte e a leste, e que seus principais aliados, os regentes Onoshi e Kiyama, os daimios cristãos mais importantes, iam se passar para Ishido. Hiromatsu trocara a guarda e as senhas, e novamente implorara a Toranaga que partisse, o que fora em vão.
A dez passos do oficial ele se deteve.
CAPÍTULO 11
Yoshi Naga, oficial do turno, era um perigoso e arisco jovem de dezessete anos. - Bom dia, senhor. Seja bem-vindo.
- Obrigado. O Senhor Toranaga está a minha espera.
- Sim. - Mesmo que Hiromatsu não fosse esperado, Naga o teria admitido do mesmo modo. Toda Hiromatsu era uma das trés únicas pessoas no mundo que tinham permissão para se dirigir à presença de Toranaga de dia ou de noite, sem audiência marcada.
- Revistem o bárbaro - disse Naga. Era o quinto filho de Toranaga com uma das consortes, e idolatrava o pai.
Blackthorne submeteu-se quietamente, entendendo o que eles estavam fazendo. Os dois samurais eram muito habilidosos. Nada lhes teria escapado.
Naga fez sinal para o resto de seus homens. Moveram-se para o lado. Ele abriu pessoalmente a pesada porta.
Hiromatsu entrou na imensa sala de audiência. Pouco além da soleira, ajoelhou-se, colocou as espadas no chão a sua frente, estendeu as mãos no chão ao lado delas e inclinou profundamente a cabeça, esperando nessa posição abjeta.
Naga, sempre vigilante, indicou a Blackthorne que fizesse o mesmo. Blackthorne avançou. A sala tinha quarenta passos quadrados e dez de altura, com tatamis da melhor qualidade, impecáveis e com quatro dedos de espessura. Havia duas portas na parede oposta. Perto do estrado, num nicho, um pequeno vaso de cerâmica com um único ramo de flor de cerejeira, que enchia o quarto de cor e perfume.
Ambas as portas estavam guardadas. A dez passos do estrado, rodeando-o, encontravam-se mais vinte samurais, sentados de pernas cruzadas.
Toranaga estava sentado sobre uma única almofada no estrado. Estava tratando de uma pena quebrada na asa de um falcão encapuzado, tão delicadamente quanto um entalhador de marfim.
Nem ele nem ninguém na sala mostrou ter notado a presença de Hiromatsu ou prestado atenção a Blackthorne quando este avançou e parou ao lado do velho. Mas ao contrário de Hiromatsu, Blackthorne se inclinou como Rodrigues lhe mostrara, depois, tomando fôlego profundamente, sentou-se de pernas cruzadas e olhou fixamente para Toranaga.
Todos os olhos faiscaram na direção de Blackthorne.
Na soleira da porta, a mão de Naga estava sobre a espada. Hiromatsu já havia agarrado a sua, embora ainda estivesse de cabeça inclinada.
Blackthorne sentiu-se nu, mas se havia comprometido e agora só podia esperar. Rodrigues dissera: "Com os japoneses, você tem que agir como um rei", e embora aquilo não fosse agir como um rei, era mais que suficiente.