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Toranaga levantou os olhos lentamente.

Uma gota de suor começou a brotar na têmpora de Blackthorne, quando tudo o que Rodrigues lhe dissera sobre os samurais pareceu se cristalizar naquele único homem. Sentiu o suor escorrer pouco a pouco pelo rosto até o queixo. Forçou-se a manter os olhos azuis firmes e sem piscar, o rosto calmo. o olhar de Toranaga era igualmente fixo.

Blackthorne sentiu o poder quase esmagador do homem estender-se até ele. Forçou-se a contar até seis, lentamente, depois inclinou a cabeça e curvou-a levemente de novo, esboçando um pequeno e calmo sorriso.

Toranaga olhou-o brevemente, o rosto impassível, depois baixou o olhar e se concentrou novamente no que estava fazendo. A tensão na sala diminuiu.

O falcão não era do país e estava na plenitude. O treinador, um velho e enrugado samurai, estava de joelhos diante de Toranaga, segurando o falcão como se fosse algodão de vidro. Toranaga cortou a pena quebrada, mergulhou a minúscula agulha de bambu na cola e inseriu-a no cabo da pena, depois delicadamente enfiou a pena recém-cortada até a outra extremidade. Ajustou o ângulo até considerá-lo perfeito e amarrou-a com um fio de seda. Os minúsculos sinos nos pés do falcão retiniram e ele acalmou-lhe o medo.

Yoshi Toranaga, senhor de Kwanto - as Oito Províncias cabeça do clã Yoshi, general-chefe dos exércitos do leste, presidente do conselho de regentes, era um homem baixo com uma grande cintura e um largo nariz. Tinha as sobrancelhas espessas e escuras, o bigode e a barba ralos e salpicados de cinza. Os olhos dominavam-lhe o rosto. Tinha cinqüenta e oito anos e era forte para a idade. Usava um quimono simples, um uniforme marrom comum, com cinto de algodão. Mas suas espadas eram as melhores do mundo.

- Aí está, minha beleza - disse ele com uma ternura de amante. - Agora você está inteira de novo. - Acariciou a ave com uma pena enquanto ela se sentava sempre encapuzada no pulso enluvado do treinador. Ela se arrepiou e se alisou com o bico, satisfeita. - Vamos fazê-la voar ainda esta semana.

O treinador curvou-se e saiu.

Toranaga voltou os olhos para os dois homens à porta.

- Bem-vindo, Punho de Aço, estou contente em vê-lo - disse. - Então esse é o seu famoso bárbaro?

- Sim, senhor. - Hiromatsu aproximou-se, deixando as espadas na soleira conforme o costume, mas Toranaga insistiu para que ele as levasse consigo.

- Eu me sentiria desconfortável se você não as tivesse nas mãos - disse Toranaga.

Hiromatsu agradeceu-lhe. Ainda assim, sentou-se a cinco passos de distância. Por costume, nenhuma pessoa armada podia sentar-se mais perto do que isso de Toranaga. Na primeira fileira dos guardas estava Usagi, marido da neta de Hiromatsu, seu parente predileto, a quem este fez um breve aceno de cabeça. O jovem curvou-se profundamente, honrado e contente por ter sido notado. Talvez eu devesse adotá-lo formalmente, pensou Hiromatsu alegremente, aquecido pela lembrança da neta favorita e do primeiro bisneto, que lhe haviam apresentado no ano anterior.

- Como estão suas costas? - perguntou Toranaga solicitamente.

- Bem, obrigado, senhor. Mas devo dizer-lhe que estou contente por me ver fora daquele navio e em terra de novo.

- Ouvi dizer que você tem um novo brinquedo aqui com que passar as horas, neh?

O velho deu uma gargalhada.

- Só posso lhe dizer, senhor, que as horas não foram ociosas. Fazia anos que eu não tinha tanto trabalho.

Toranaga riu com ele. - Então deveríamos recompensá-la. Sua saúde é importante para mim. Posso mandar a ela um símbolo dos meus agradecimentos?

- Ah, Toranaga-sama, o senhor é tão gentil. - Hiromatsu ficou sério. - Poderia recompensar a todos nós, senhor, deixando este ninho de vespas imediatamente, e voltando para o seu castelo em Yedo, onde seus vassalos podem protegê-lo. Aqui estamos vulneráveis. A qualquer momento Ishido poderia...

- Partirei. Assim que a reunião do conselho de regentes termine. - Toranaga voltou-se e chamou com um gesto o português de rosto magro que estava pacientemente sentado à sua sombra. - Quer traduzir para mim agora, meu amigo?

- Certamente, senhor. - O padre tonsurado avançou e com uma graça vinda da prática ajoelhou-se em estilo japonês junto do estrado. Tinha o corpo tão enxuto quanto o rosto, os olhos escuros e líquidos, um ar de serena concentração ao seu redor. Usava meias tabis e um quimono ondeante que, nele, parecia estar na pessoa certa. Um rosário e uma cruz de ouro entalhado pendiam-lhe do cinto. Saudou Hiromatsu como a um igual, depois olhou amavelmente para Blackthorne.

- Meu nome é Martim Alvito, da Companhia de Jesus, piloto-mor. O Senhor Toranaga me pediu que lhe servisse de intérprete.

- Primeiro diga-lhe que somos inimigos e que...

- Tudo na sua hora - interrompeu-o o Padre Alvito suavemente. E acrescentou: - Podemos falar português, espanhol ou, naturalmente, latim, o que você preferir.

Blackthorne não tinha visto o padre até que o homem avançara. O estrado o escondera, e os outros samurais. Mas estivera à espera dele, prevenido por Rodrigues, e detestou o que viu: a elegância desenvolta, a aura de força e poder natural dos jesuítas. Presumira que o padre fosse muito mais velho, considerando sua posição influente e o que Rodrigues lhe falara dele. Mas eram praticamente da mesma idade, ele e o jesuíta. Talvez o padre fosse poucos anos mais velho.

- Português - disse ele, com severidade, esperando que isso pudesse lhe dar uma leve vantagem. - Você é português?

- Tenho esse privilégio.

- É mais jovem do que eu esperava.

- O Sr. Rodrigues é muito gentil. Dá-me mais crédito do que mereço. A você descreveu com perfeição. Assim como à sua bravura.

Blackthorne viu-o voltar-se e falar fluente e afavelmente com Toranaga um instante, e isso o perturbou ainda mais. Apenas Hiromatsu, de todos os homens na sala, ouviu e observou com atenção. Os outros fitavam o vazio, como se fossem de pedra.

- Agora, capitão-piloto, começaremos. Você, por favor, ouvirá tudo o que o Senhor Toranaga disser, sem interrupções - começou o Padre Alvito. - Depois responderá. Daqui em diante estarei traduzindo o que você disser quase simultaneamente, portanto, por favor, responda com grande cuidado.

- De que se trata? Não confio em você!

Imediatamente o Padre Alvito traduziu o que ele disse, e o rosto de Toranaga se turvou visivelmente.

Tenha cuidado, pensou Blackthorne, ele está brincando com você como com um peixe! Três guinéus de ouro contra um cent mascado como ele pode acabar com você. Traduza ele corretamente ou não, você tem que criar a impressão correta em Toranaga. Pode ser a única chance que você jamais tenha tido.

- Pode confiar em mim para traduzir exatamente o que você disser, da melhor maneira que eu puder. - A voz do padre era suave, sob controle absoluto. - Esta é a corte do Senhor Toranaga. Sou o intérprete oficial do conselho de regentes, do Senhor General Toranaga e do Senhor General Ishido. O Senhor Toranaga honra-me com sua confiança há muitos anos. Sugiro-lhe que responda com sinceridade porque posso lhe garantir que ele é um homem muito sagaz. Também devo assinalar que não sou o Padre Sebastio, que, talvez, é excessivamente zeloso e, infelizmente, não fala japonês muito bem nem tem muita experiência no Japão. A sua presença repentina afastou a graça de Deus para longe dele, que, lamentavelmente, permitiu que seu passado pessoal o dominasse - seus pais, irmãos e irmãs foram massacrados do modo mais hediondo na Neerlândia pelas suas... pelas forças do Príncipe de Orange. Peço que tenha indulgência e compaixão por ele. - Sorriu benevolamente. - A palavra japonesa para "inimigo" é "teki". Você pode usá-la se quiser. Se apontar para mim e usar essa palavra, o Senhor Toranaga compreenderá claramente o que quer dizer. Sim, sou seu inimigo, Capitão-Piloto John Blackthorne. Completamente. Mas não sou seu assassino. Isso você fará por si mesmo.