Blackthorne viu-o explicar a Toranaga o que dissera e ouviu a palavra "teki" várias vezes. Perguntou a si mesmo se realmente significava "inimigo". Claro que sim, pensou. Este homem não é como o outro.
- Por favor, por um momento esqueça que eu existo - disse o Padre Alvito. - Sou meramente um instrumento para transmitir as suas respostas ao Senhor Toranaga, exatamente como farei com as perguntas dele. - O Padre Alvito se acomodou, voltou-se para Toranaga e curvou-se polidamente.
Toranaga falou brevemente. O padre começou a traduzir quase simultaneamente, poucas palavras depois, com uma voz que era um perigoso espelho de inflexão e significado secreto.
- Por que você é inimigo de Tsukku-san, meu amigo e intérprete, que não é inimigo de ninguém? - O Padre Alvito acrescentou, à guisa de explicação: - Tsukku-san é o meu apelido, porque os japoneses também não conseguem pronunciar o meu nome. A língua deles não tem o som "l" nem "th". Tsukku é uma adaptação da palavra japonesa "tsuyaku", "interpretar". Por favor, responda à pergunta.
- Somos inimigos porque nossos países estão em guerra.
- Oh? Qual é o seu país?
- A Inglaterra.
- Onde fica?
- É um reino insular, mil milhas ao norte de Portugal. Portugal é parte de uma península na Europa.
- Há quanto tempo estão em guerra com Portugal?
- Desde que Portugal se tornou um Estado vassalo da Espanha. Isso foi em 1580, vinte anos atrás. A Espanha conquistou Portugal. Na realidade estamos em guerra com a Espanha. Estamos em guerra com ela há quase trinta anos.
Blackthorne notou a surpresa de Toranaga e seu olhar inquisitivo ao Padre Alvito, que fitava a distância serenamente.
- Diz que Portugal é parte da Espanha?
- Sim, Senhor Toranaga. Um Estado vassalo. A Espanha conquistou Portugal e agora são de fato o mesmo país, com o mesmo rei. Mas os portugueses são subservientes aos espanhóis em muitas partes do mundo e seus líderes são tratados como pessoas sem importância no império espanhol.
Houve um longo silêncio. Então Toranaga falou diretamente ao jesuíta, que sorriu e respondeu detalhadamente.
- O que ele disse? - perguntou Blackthorne rispidamente.
O Padre Alvito não respondeu, mas traduziu como antes, quase simultaneamente, imitando-lhe a inflexão, continuando o seu virtuosístico desempenho de interpretação. Toranaga respondeu diretamente a Blackthorne, com voz dura e cruel.
- O que eu disse não é da sua conta. Quando quiser que você saiba alguma coisa eu lhe direi.
- Sinto muito, Senhor Toranaga, não tinha a intenção de ser rude. Posso dizer-lhe que viemos em paz...
- Não pode me dizer nada no momento. Vai conter a língua até que eu lhe solicite uma resposta. Compreendeu?
- Sim.
Erro número um. Vigie-se. Você não pode cometer erros, disse ele a si mesmo.
- Por que estão em guerra com a Espanha? E com Portugal?
- Parcialmente porque a Espanha está inclinada a conquistar o mundo e nós, ingleses, e nossos aliados, os neerlandeses, recusamo-nos a ser conquistados. E parcialmente por causa das nossas religiões.
- Ah! Uma guerra religiosa? Qual é a sua religião?
- Sou cristão. Nossa igreja...
- Os portugueses e os espanhóis são cristãos! Você disse que sua religião era diferente. Qual é a sua religião?
- É a cristã. É difícil explicar de modo simples e rápido, Senhor Toranaga. São ambas...
- Não há necessidade de ser rápido, Senhor Piloto, apenas preciso. Tenho muito tempo. Sou muito paciente. Você é um homem culto, obviamente não é um camponês, portanto pode ser simples ou complicado conforme deseje, exatamente o necessário para ser claro. Se se desviar do ponto eu o trarei de volta. Estava dizendo?
- Minha religião é cristã. Há duas religiões cristãs importantes, a protestante e a católica. A maioria dos ingleses são protestantes.
- Adoram ao mesmo Deus, à Nossa Senhora e à Criança?
- Não, senhor. Não do modo como os católicos o fazem.
- O que ele quer saber? Será que é católico? Devo responder o que acho que ele quer saber ou o que acho que é verdade? Será que é anticristão? Mas ele não chamou o jesuíta de "meu amigo"?
Será que Toranaga é um simpatizante dos católicos, será que vai se tornar católico?
- Você acredita que Jesus é Deus?
- Acredito em Deus - disse ele cuidadosamente.
- Não se esquive a uma pergunta direta! Acredita que Jesus é Deus? Sim ou não?
Blackthorne sabia que em qualquer corte católica do mundo ele já teria sido condenado há muito por heresia. E na maioria das cortes protestantes, se não em todas. O simples fato de hesitar antes de responder a uma pergunta assim já era uma admissão de dúvida. Dúvida era heresia.
- Não se pode responder a perguntas sobre Deus com um "sim" ou "não". Tem que haver gradações de "sim" ou "não". Ninguém sabe com certeza sobre Deus até que esteja morto. Sim, acredito que Jesus era Deus, mas não, não sei com certeza até estar morto.
- Por que foi que você quebrou a cruz do padre quando chegou ao Japão?
Blackthorne não esperava essa pergunta. Toranaga sabe de tudo o que aconteceu desde que cheguei?
- Eu... eu queria mostrar ao Daimio Yabu que o jesuíta, o Padre Sebastio, o único intérprete que havia lá, que ele era meu inimigo, que não merecia crédito, pelo menos na minha opinião. Porque eu tinha certeza de que ele necessariamente não traduziria com exatidão, não como o Padre Alvito está fazendo agora. Acusou-nos de sermos piratas, por exemplo. Não somos piratas, viemos em paz.
- Ah, sim! Piratas. Voltarei à pirataria num instante. Você diz que ambas as seitas são cristãs, ambas veneram Jesus, o Cristo? A essência do ensinamento dele não é "amarem-se uns aos outros"?
- Sim.
- Então como podem ser inimigos?
- O credo deles... a versão deles do cristianismo é uma falsa interpretação das Escrituras.
- Ah! Finalmente estamos chegando a alguma coisa. Então vocês estão em guerra devido a uma diferença de opinião sobre o que é Deus e o que não e?
- Sim.
- É uma razão muito estúpida para fazer guerra.
- Concordo - disse Blackthorne. Olhou para o padre. - Concordo de todo o coração.
- Quantos navios tem a sua esquadra?
- Cinco.
- E você era o primeiro-piloto?
- Sim.
- Onde estão os outros?
- Ao mar - disse Blackthorne cuidadosamente, continuando a mentira e presumindo que Toranaga tivesse sido instruído por Alvito para perguntar certas coisas. - Fomos divididos por uma tempestade e dispersamo-nos. Onde estão exatamente eu não sei, senhor.
- Seus navios eram ingleses?
- Não, senhor, holandeses. Da Holanda.
- Por que um inglês está encarregado de navios holandeses?
- Isso não é raro, senhor. Somos aliados. Pilotos portugueses às vezes comandam navios e esquadras - espanhóis. Tomei conhecimento de que pilotos portugueses comandam alguns dos seus navios oceânicos, e por lei.
- Não há pilotos holandeses?
- Muitos, senhor. Mas para uma viagem tão longa os ingleses são mais experimentados.
- Mas por que você? Por que quiseram que você conduzisse os navios deles?
- Provavelmente porque minha mãe era holandesa, falo a língua fluentemente e sou experimentado. Fiquei contente com a oportunidade.
- Por quê?
- Foi a minha primeira oportunidade para singrar estas águas. Não havia navios ingleses planejando vir tão longe. Foi uma chance de circunavegar.
- Você pessoalmente, piloto, juntou-se à esquadra por causa da sua religião e para combater seus inimigos da Espanha e Portugal?
- Sou um piloto, senhor, antes de mais nada. Nenhum inglês ou holandês jamais esteve nestes mares antes. Somos principalmente uma esquadra mercante, embora tenhamos cartas de corso para atacar o inimigo do Novo Mundo. Viemos ao Japão para fazer comércio.