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- O que são cartas de corso?

- Licenças legais emitidas pela coroa, ou governo, autorizando-nos a combater o inimigo.

- Ah, e os seus inimigos estão aqui. Planeja combatê-los aqui?

- Não sabíamos o que esperar quando chegássemos aqui, senhor. Viemos apenas para comerciar. Seu país é quase desconhecido, uma lenda. Os portugueses e espanhóis são muito sigilosos sobre esta área.

- Responda à pergunta: seus inimigos estão aqui. Planeja combatê-los aqui?

- Se eles me atacarem, sim.

Toranaga mudou de posição irritado.

- O que vocês fazem no mar ou em seus países é assunto de vocês. Mas aqui há uma lei para todos e os estrangeiros estão na nossa terra unicamente por permissão. Qualquer desordem ou rixa públicas são imediatamente punidas com morte. Nossas leis são claras e serão obedecidas. Compreendeu?

- Sim, senhor. Mas viemos em paz. Viemos para fazer comércio. Poderíamos. discutir o assunto, senhor? Preciso carenar o meu navio e fazer alguns reparos. Podemos pagar tudo. Depois há a quest...

- Quando eu quiser falar sobre comércio ou qualquer outra coisa eu lhe direi. Enquanto isso, por favor, limite-se a responder às perguntas. Portanto você se juntou à expedição para fazer comércio, por lucro, não por dever ou lealdade? Por dinheiro?

- Sim. É o nosso costume, senhor. Ser pago e ter uma parte do saq... do comércio todo e de todos os bens inimigos capturados.

- Então você é um mercenário?

- Fui contratado como primeiro-piloto para conduzir a expedição. Sim. - Blackthorne podia sentir a hostilidade de Toranaga, mas não compreendia por quê. O que foi que eu disse de errado? O padre não disse que eu assassinaria a mim mesmo? - É um hábito normal entre nós, Toranaga-sama - repetiu.

Toranaga começou a conversar com Hiromatsu e trocaram pontos de vista, ambos num acordo óbvio. Blackthorne pensou ver asco no rosto deles. Por quê? Obviamente era alguma coisa relacionada com "mercenário", pensou. O que há de errado nisso? As pessoas todas não são pagas? De que outro modo ganhar dinheiro suficiente para viver? Mesmo que se herde terra, ainda se...

- Você disse antes que veio para fazer comércio pacificamente - estava dizendo Toranaga. - Por que, então, carrega tantas armas e tanta pólvora, mosquetes e munição?

- Nossos inimigos espanhóis e portugueses são muito numerosos e fortes, Senhor Toranaga. Temos que nos proteger e ...

- Está dizendo que suas armas são meramente defensivas?

- Não. Usamo-las não só para nos proteger mas também para atacar nossos inimigos. E nós as produzimos em abundância para comércio, as armas de melhor qualidade do mundo. Talvez pudéssemos negociá-las com o senhor, ou outras mercadorias que trazemos.

- O que é um pirata?

- Um fora-da-lei. Um homem que rouba, mata ou pilha por lucro pessoal.

- Não é o mesmo que um mercenário? Não é isso que vote é? Um pirata e um chefe de piratas?

- Não. A verdade é que meus navios têm cartas de corso dos dirigentes legais da Holanda, autorizando-nos a combater em todos os mares e lugares dominados até agora pelos nossos inimigos. E a encontrar mercados para nossos produtos. Para os espanhóis e a maioria dos portugueses, sim, somos piratas, e hereges religiosos, mas, repito, a verdade é que não somos.

O Padre Alvito terminou de traduzir, depois começou a falar tranqüila mas firmemente, direto a Toranaga.

Como gostaria de poder falar assim diretamente também, pensou Blackthorne, blasfemando intimamente. Toranaga olhou para Hiromatsu e o velho fez algumas perguntas ao jesuíta, que respondeu prolixamente. Depois Toranaga se voltou para Blackthorne e sua voz tornou-se ainda mais severa.

- Tsukku-san diz que esses "holandeses", os neerlandeses, eram vassalos do rei espanhol até alguns anos atrás. É verdade?

- Sim.

- Em conseqüência, os neerlandeses, seus aliados, encontram-se em estado de rebelião contra o rei legal?

- Estão em luta contra os espanhóis, sim. Mas.. .

- Isso não é rebelião? Sim ou não?

- Sim. Mas há circunstâncias atenuantes. Sérias atenu...

- Não existem "circunstâncias atenuantes" quando se trata e rebelião contra um senhor soberano.

- A menos que se vença.

Toranaga olhou atentamente para ele. Depois riu estrondosamente. Disse alguma coisa a Hiromatsu no meio da gargalhada e Hiromatsu assentiu.

- Sim, Sr. Estrangeiro com o nome impossível, sim. Você citou o único fator atenuante. - Outra casquinada, depois o humor desapareceu de modo tão repentino como começara. Vocês vão vencer?

- Hai.

Toranaga falou novamente mas o padre não traduziu de imediato. Estava sorrindo de modo peculiar, os olhos fixos em Blackthorne. Suspirou e disse:

- Tem tanta certeza?

- Foi isso o que ele disse ou é o que você está dizendo?

- O Senhor Toranaga disse isso. Minha... ele disse isso.

- Sim. Diga-lhe que sim, tenho muita certeza. Posso explicar por quê?

O Padre Alvito falou com Toranaga muito mais tempo do que levaria para traduzir essa simples pergunta. Você está tão calmo quanto aparenta? - queria perguntar-lhe Blackthorne. Qual é a chave que o desvenda? Como o destruo?

Toranaga falou e tirou um leque da manga.

O Padre Alvito começou a traduzir novamente com a mesma descortesia sinistra, cheio de ironia.

- Sim, piloto, você pode me dizer por que acha que vencerá esta guerra.

Blackthorne tentou permanecer confiante, consciente de que o padre o estava dominando.

- Atualmente dominamos os mares da Europa, a maioria dos mares da Europa - disse, corrigindo se. Não se deixe arrebatar. Diga a verdade. Torça-a um pouco, exatamente como é certo que o jesuíta está fazendo, mas diga a verdade. - Nós, ingleses, esmagamos duas imensas armadas espanholas e portuguesas - invasões - e é pouco provável que eles sejam capazes de organizar outras. Nossa pequena ilha é uma fortaleza e estamos seguros agora. Nossa Marinha domina o mar. Nossos navios são mais rápidos, mais modernos, e mais bem armados. Com mais de cinqüenta anos de terror, Inquisição e carnificina, os espanhóis não venceram os holandeses. Nossos aliados estão ilesos e fortes e uma coisa mais: estão fazendo o império espanhol sangrar até a morte. Venceremos porque somos os donos dos mares e porque o rei espanhol, na sua vaidosa arrogância, não vai querer deixar livre um povo hostil.

- São os donos dos mares? Dos nossos também? Os que contornam nossas costas?

- Não, claro que não, Toranaga-sama. Não tive a intenção de ser arrogante. Referia-me, naturalmente, aos mares europeus, embora...

- Bom, fico contente de que isso esteja claro. Estava dizendo? Embora...?

- Apesar de que, em todos os altos-mares, logo estaremos varrendo o inimigo - disse Blackthorne claramente.

- Você disse "o inimigo". Talvez nós também sejamos seus inimigos? E então? Tentarão afundar nossos navios e nos assolar?

- Não posso conceber a idéia de ser seu inimigo.

- Eu posso, com muita facilidade. E então?

- Se o senhor viesse contra a minha terra, eu o atacaria e tentaria vencê-lo - disse Blackthorne.

- E se o seu governante ordenasse que nos atacasse aqui?

- Eu daria conselho em contrário. Veementemente. Nossa rainha daria ouvidos. Ela é ...

- Você é governado por uma rainha e não por um rei?

- Sim, Senhor Toranaga. Nossa rainha é sábia. Ela não daria... não poderia dar uma ordem tão imprudente.

- E se desse? Ou se o seu governante legal o fizesse?

- Então eu encomendaria a alma a Deus porque certamente morreria. De um modo ou de outro.

- Sim. Morreria. Você e todas as suas legiões. - Toranaga fez uma pausa. Em seguida perguntou: - Quanto tempo você levou para chegar aqui?

- Quase dois anos. Exatamente um ano, onze meses e dois dias. Uma distância marítima aproximada de quatro mil léguas, cada uma de três milhas.