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O padre traduziu, depois acrescentou alguma coisa brevemente. Toranaga e Hiromatsu interrogaram o padre, que assentiu e respondeu.

Toranaga usava o leque pensativamente.

- Converti as medidas e o tempo, Capitão-Piloto Blackthorne, para as medidas deles - disse o padre polidamente.

- Obrigado.

Toranaga falou novamente:

- Como chegou aqui? Por que rota?

- Pelo estreito de Magalhães. Se dispusesse de meus mapas e portulanos, poderia lhe mostrar com clareza, mas foram roubados... foram removidos do meu navio com as minhas cartas de corso e todos os meus papéis. Se o senhor...

Blackthorne parou quando Toranaga falou bruscamente com Hiromatsu, que estava igualmente perturbado.

- Afirma que todos os seus papéis foram removidos... roubados?

- Sim.

- Isso é terrível, se for verdade. Abominamos o roubo no Nippon... Japão. A punição para roubo é a morte. O assunto será investigado instantaneamente. Parece incrível que qualquer japonês fizesse tal coisa, embora haja infames bandidos e piratas aqui e ali.

- Talvez só tenham sido tirados do lugar - disse Blackthorne. - E colocados em segurança em alguma outra parte. Mas são valiosos, Senhor Toranaga. Sem as minhas cartas marítimas, eu seria como um homem cego num labirinto. Gostaria que eu lhe explicasse minha rota?

- Sim, mas mais tarde. Primeiro diga-me por que percorreram toda essa distância.

- Viemos para comerciar, pacificamente - repetiu Blackthorne, contendo a impaciência. - Para comerciar e voltar para casa. Para fazê-lo mais rico e a nós mais ricos. E para tentar...

- Vocês mais ricos e nós mais ricos? O que é mais importante aí?

- Ambas as partes devem lucrar, naturalmente, e o comércio deve ser justo. Estamos visando ao comércio a longo prazo; ofereceremos termos melhores do que os dos portugueses e espanhóis, e um serviço melhor. Nossos mercadores...

Blackthorne parou ao ouvir o som de vozes altas do lado de fora da sala. Hiromatsu e metade dos guardas dirigiram-se imediatamente para a soleira, e os outros se moveram para formar um cerrado aglomerado de proteção ao estrado. Os samurais diante das portas internas puseram-se de prontidão, igualmente.

Toranaga não se movera. Falou ao Padre Alvito.

- Deve vir para cá, Capitão Blackthorne, para longe da porta - disse o padre com uma premência cuidadosamente contida. - Se dá valor à vida, não se mova repentinamente nem diga nada. - Moveu-se lentamente para a porta interna à esquerda e sentou-se perto dela.

Blackthorne curvou-se inquieto para Toranaga, que o ignorou, e caminhou com cautela na direção do padre, profundamente consciente de que sob aquele ponto de vista a entrevista fora um desastre.

- O que está acontecendo? - perguntou num sussurro ao se sentar.

Os guardas em torno se retesaram ameaçadores e o padre disse rapidamente alguma coisa para tranqüilizá-los.

- Será um homem morto na próxima vez que falar - disse a Blackthorne, pensando: quanto mais depressa, melhor. Com uma lentidão compassada, pegou um lenço da manga e enxugou o suor das mãos. Exigira-lhe todo o treinamento e resistência permanecer calmo e amável durante a entrevista do herege, que fora pior do que até o padre-lnspetor esperara.

- Você terá que estar presente? - perguntara o padre-lnspetor na noite anterior.

- Toranaga solicitou-me especificamente.

- Acho que é muito perigoso para você e para todos nós. Talvez pudéssemos pretextar uma doença. Se você estiver lá, terá que traduzir o que o pirata disser, e pelo que descreve o Padre Sebastio ele é um demônio na terra, tão astucioso quanto um judeu.

- É muito melhor que eu esteja lá, Eminência. Pelo menos serei capaz de interceptar as mentiras menos óbvias de Blackthorne.

- Por que será que veio até aqui? Por que agora, quando tudo estava se tornando perfeito de novo? Será que eles realmente têm outros navios no Pacífico? É possível que tenham enviado uma esquadra contra a Manila espanhola? Não que eu me importe um nadinha com essa cidade pestilenta ou qualquer uma das colônias espanholas nas Filipinas, mas uma esquadra inimiga no Pacífico! Isso teria terríveis implicações para nós na Ásia. E se ele conseguisse que Toranaga lhe desse ouvidos, ou Ishido, ou qualquer um dos daimios mais poderosos, bem, ficaria enormemente difícil, para dizer o mínimo.

- Blackthorne é um fato. Felizmente estamos numa posição de poder lidar com ele.

- Deus é meu juiz, mas eu quase acreditaria que os espanhóis, ou mais provavelmente os seus lacaios desencaminhados, os franciscanos e os beneditinos, deliberadamente o guiaram para cá a fim de nos importunar.

- Talvez tenham feito isso, Eminência. Não há nada que os monges não fariam para nos destruir. Mas é apenas ciúme por estarmos tendo êxito onde eles fracassam. Certamente Deus lhes mostrará o erro do seu procedimento! Talvez o inglês se "remova" por si mesmo antes de causar qualquer dano. Seus portulanos provam que ele é o que é. Um pirata e um líder de piratas!

- Leia-os para Toranaga, Martim. As partes onde ele descreve o saquê de povoados indefesos da África ao Chile, e a lista do saquê e toda a matança.

- Talvez devêssemos esperar, Eminência. Sempre podemos exibir os portulanos. Esperemos que ele se condene sem isso.

O Padre Alvito enxugou as palmas das mãos novamente.

Podia sentir os olhos de Blackthorne sobre ele. Deus tenha piedade de você, pensou. Pelo que disse hoje a Toranaga, sua vida não vale um níquel falsificado, e pior ainda, sua alma está além de qualquer redenção. Será crucificado, mesmo sem a evidência dos seus portulanos. Deveríamos mandá-los de volta ao Padre Sebastio, de modo que ele possa devolvê-los a Mura? O que faria Toranaga se os papéis nunca fossem descobertos? Não, isso seria perigoso demais para Mura.

A porta na extremidade mais afastada abriu-se com um estremecimento.

- O Senhor Ishido quer vê-lo, senhor - anunciou Naga.

- Ele... ele está aqui no corredor e quer vê-lo. Imediatamente, diz ele.

- Voltem a seus lugares, todos vocês - disse Toranaga aos seus homens. Foi imediatamente obedecido. Mas todos os samurais se sentaram encarando a porta, com Hiromatsu à testa deles, as espadas afrouxadas nas bainhas. - Naga-san, diga ao Senhor Ishido que ele é sempre bem-vindo. Peça-lhe que entre.

O homem alto entrou a passos largos na sala. Dez dos seus samurais - cinzentos - o seguiram, mas permaneceram à soleira e, a um sinal dele, sentaram-se de pernas cruzadas.

Toranaga curvou-se com uma formalidade precisa e a reverência foi retribuída com a mesma exatidão.

O Padre Alvito bendisse a própria sorte por estar presente.

O conflito pendente entre os dois líderes rivais afetaria completamente o curso do império e o futuro da Mãe Igreja no Japão, portanto qualquer indício ou informação que pudesse ajudar os jesuítas a decidir onde lançar sua influência seria de uma importância incomensurável. Ishido era zen-budista e fanaticamente anticristão, Toranaga era zen-budista e abertamente simpatizante.

Mas a maioria dos daimios cristãos apoiava Ishido, temendo justificadamente, acreditava o Padre Alvito - a ascendência de Toranaga. Os daimios cristãos achavam que, se Toranaga eliminasse a influência de Ishido do conselho de regentes, usurparia o poder todo para si. E uma vez que detivesse o poder, acreditavam eles, poria em execução os editos de expulsão do taicum e arrasaria a verdadeira fé. Se, no entanto, Toranaga fosse eliminado, a sucessão, uma débil sucessão, estaria garantida e a Mãe Igreja prosperaria.

Como a fidelidade dos daimios cristãos vacilava, semelhantemente ao que ocorria com todos os outros daimios da terra, e o equilíbrio do poder entre os dois líderes flutuasse continuamente, ninguém sabia com certeza que lado era, na realidade, o mais poderoso. Nem ele, o Padre Alvito, o europeu mais bem informado do império, podia dizer com certeza que lado os daimios cristãos realmente apoiariam quando o conflito se tornasse declarado, ou que facção prevaleceria.