Viu Toranaga descer do estrado, atravessando o círculo de segurança formado por seus homens.
- Bem-vindo, Senhor Ishido. Por favor, sente-se ali. - Toranaga fez um gesto na direção da única almofada sobre o estrado. - Gostaria que se sentisse confortável.
- Não, obrigado, Senhor Toranaga. - Ishido Kazunari era magro, moreno e muito vigoroso, um ano mais novo do que Toranaga. Eram inimigos de longa data. Oito mil samurais no interior e nos arredores do Castelo de Osaka atendiam às suas ordens, pois era o comandante da guarnição - e portanto o comandante da guarda pessoal do herdeiro -, general-chefe dos exércitos de oeste, conquistador da Coréia, membro do conselho de regentes, e antigamente inspetor-geral de todos os exércitos do falecido taicum, os quais, legalmente, eram compostos por todos os exércitos de todos os daimios no reino inteiro. - Não, obrigado - repetiu. - Ficaria embaraçado de estar confortável e o senhor não, neh? Um dia eu lhe tomarei a almofada, mas não hoje.
Uma torrente de cólera percorreu os marrons ante a ameaça implícita de Ishido, mas Toranaga respondeu amavelmente.
- Veio num momento muito oportuno. Eu estava acabando de entrevistar o novo bárbaro. Tsukku-san, por favor, diga-lhe que se levante.
O padre fez conforme o solicitado. Sentiu a hostilidade de Ishido vindo do outro lado da sala. Além de ser anticristão, Ishido sempre fora veemente na sua condenação a todos os europeus e queria o império totalmente fechado para eles. Ishido olhou para Blackthorne com acentuado desagrado.
- Ouvi dizer que era feio, mas não imaginava que fosse tanto. Corre o boato de que é pirata. É mesmo?
- O senhor pode duvidar disso? E também e mentiroso.
- Então, antes de crucificá-lo, deixe-o comigo por meio dia. O herdeiro poderia achar divertido vê-lo antes com a cabeça no lugar. - Ishido riu asperamente. - Ou talvez devesse ser ensinado a dançar como um urso, então o senhor poderia exibi-lo por todo o império: "O Monstro Vindo do Leste".
Embora fosse verdade que Blackthorne tivesse, singularmente, vindo dos mares orientais - ao contrário dos portugueses, que sempre vinham do sul e por isso eram chamados de bárbaros meridionais -, Ishido estava espalhafatosamente insinuando que Toranaga, que dominava as províncias orientais, era o verdadeiro monstro.
Mas Toranaga simplesmente sorriu, como se não tivesse compreendido.
- É um homem de muito humor, Senhor Ishido - disse. - Mas concordo em que quanto mais depressa o bárbaro for eliminado, melhor. É enfadonho, arrogante, fala grosso e de modo singular, sim, mas é de pouco valor, e sem educação. Naga-san, mande alguns homens e ponha-o com os criminosos comuns. Tsukku-san, diga-lhe que os acompanhe.
- Capitão-piloto, deve seguir esses homens.
- Para onde estou indo?
O padre hesitou. Estava contente por ter vencido, mas o adversário era corajoso e tinha uma alma imortal que ainda podia ser salva.
- Vai para a prisão - disse.
- Por quanto tempo?
- Não sei, meu filho. Até que o Senhor Toranaga resolva.
CAPÍTULO 12
Enquanto observava o bárbaro deixar a sala, Toranaga desviou a mente pesarosamente da surpreendente entrevista e se atracou ao problema mais imediato de Ishido.
Toranaga havia resolvido não dispensar o padre, sabendo que isso enfureceria ainda mais Ishido, embora tivesse a certeza de que a presença contínua do padre poderia ser perigosa. Quanto menos os estrangeiros soubessem, melhor. Quanto menos qualquer pessoa souber, melhor, pensou ele. A influência de Tsukku-san sobre os daimios cristãos será a meu favor ou contra mim? Até hoje confiei nele implicitamente. Mas houve uns momentos estranhos com o bárbaro que ainda não compreendi.
Ishido deliberadamente não seguiu as cortesias habituais e foi instantaneamente ao ponto.
- Devo perguntar-lhe novamente: qual é a sua resposta ao conselho de regentes?
- Repito novamente: como presidente do conselho de regentes, não acredito que seja necessária qualquer resposta. Fiz algumas conexões de família secundárias que não têm importância. Nenhuma resposta se faz necessária.
- O senhor contratou o casamento de seu filho, Naga-san, com a filha do Senhor Masamune, o de uma de suas netas com o filho e herdeiro do Senhor Zataki, o de outra neta com o filho do Senhor Kiyama. Todos os casamentos se relacionam com senhores feudais ou com parentes próximos deles, portanto não são secundários e são absolutamente contrários às ordens de nosso amo.
- Nosso falecido amo, o taicum, morreu há um ano. Infelizmente. Sim. Lamento a morte do meu cunhado e preferiria que ainda estivesse vivo, guiando os destinos do império. - Toranaga acrescentou prazerosamente, revolvendo uma faca numa ferida permanente: - Se meu cunhado fosse vivo, não há dúvida de que aprovaria essas ligações de família. Suas instruções aplicavam-se aos casamentos que ameaçassem a sucessão da casa dele. Não ameaço a casa dele nem ao meu sobrinho Yaemon, o herdeiro. Estou satisfeito como senhor de Kwanto. Não procuro mais território. Estou em paz com meus vizinhos e desejo que a paz continue. Por Buda, não serei o primeiro a romper a paz.
Durante seis séculos o reino vivera alarmado por constantes guerras civis. Há trinta e cinco anos, um daimio menor, chamado Goroda. tomara posse de Kyoto, instigado principalmente por Toranaga. Nas duas décadas seguintes esse guerreiro miraculosamente dominara metade do Japão, erguera uma montanha de crânios e se declarara ditador - ainda sem poder suficiente para solicitar ao imperador reinante a concessão do título de shogun, embora descendesse vagamente de um ramo dos Fujimoto. Então, há dezesseis anos, Goroda fora assassinado por um de seus generais e seu poder caíra nas mãos de um príncipe vassalo e seu mais brilhante general, o camponês Nakamura.
Em quatro rápidos anos, o General Nakamura, auxiliado por Toranaga, Ishido e outros, aniquilou os descendentes de Goroda e colocou o Japão inteiro sob o seu controle absoluto e único, a primeira vez na história em que um homem dominava o reino todo. Triunfante, foi a Kyoto para se curvar diante de Go-Nijo, o Filho do Céu. Como nascera camponês, Nakamura tivera que aceitar o título menor de kwampaku, conselheiro-chefe, ao qual renunciou mais tarde em favor do filho, tomando para si o título de taicum. Mas todos os daimios se curvaram à sua frente, mesmo Toranaga. Inacreditavelmente, houvera paz completa durante doze anos. No ano passado o taicum morrera.
- Por Buda - repetiu Toranaga -, não serei o primeiro a romper a paz.
- Mas irá à guerra?
- Um homem sábio se prepara para a traição, neh? Há homens maus em todas as províncias. Alguns em altos postos. Ambos conhecemos a extensão ilimitada da traição no coração dos homens. - Toranaga retesou-se. - Onde o taicum deixou um legado de unidade, agora estamos divididos no meu leste e no seu oeste. O conselho de regentes está dividido. Os daimios estão em disputas. Um conselho não pode governar sequer uma aldeia infestada de caprichos e venetas, quanto mais um império. Quanto mais depressa o filho do taicum atingir a idade, melhor. Quanto mais depressa houver outro kwampaku, melhor.
- Ou talvez um shogun? - disse Ishido, de modo insinuante.
- Kwarnpaku, shogun ou taicum, o poder é o mesmo - disse Toranaga. - Qual e o valor real de um título? O poder é a única coisa importante. Goroda nunca se tornou shogun. Nakamura ficou mais que satisfeito como kwampaku e depois como taicum. Ele governava e isso é o que importa. Que importa que um dia meu cunhado tenha sido camponês? Que importa que minha família seja antiga? Que importa que o senhor seja de origem humilde? O senhor é um general, um suserano, até faz parte do conselho de regentes.