Importa muito, pensou Ishido. Você sabe disso. Eu sei. Cada daimio sabe. Até o taicum sabia. - Yaemon tem sete anos. Dentro de outros sete se tornará kwampaku. Até lá...
- Dentro de oito anos, General Ishido. É essa a nossa lei histórica. Quando meu sobrinho tiver quinze anos se tornará adulto e herdará. Até lá nós, os cinco regentes, governaremos em nome dele. Foi assim que nosso amo quis.
- Sim. E também ordenou que os regentes não tomassem reféns uns contra os outros. A Senhora Ochiba, a mãe do herdeiro, é refém no seu castelo de Yedo, contra a sua segurança aqui, e isso também viola a vontade dele. O senhor concordou formalmente em obedecer as cláusulas dele, assim como todos os regentes. Até assinou o documento com seu próprio sangue.
Toranaga suspirou.
- A Senhora Ochiba está visitando Yedo onde sua única irmã se encontra em trabalho de parto. A irmã dela é casada com meu filho e herdeiro. O lugar de meu filho é em Yedo enquanto eu estou aqui. Há coisa mais natural do que uma irmã visitar a outra num momento assim? Talvez eu já tenha meu primeiro neto, neh?
- A mãe do herdeiro é a senhora mais importante do império. Não deve estar em... - Ishido ia dizer "mãos inimigas", mas pensou melhor e continuou - numa cidade inabitual. - Fez uma pausa, depois acrescentou claramente: - O conselho gostaria que o senhor lhe ordenasse que voltasse para casa hoje.
Toranaga esquivou-se à armadilha.
- Repito, a Senhora Ochiba não é refém, portanto não está sob as minhas ordens, como nunca esteve.
- Então deixe-me colocar a coisa de modo diferente. O conselho solicita a presença dela em Osaka imediatamente.
- Quem solicita isso?
- Eu. O Senhor Sugiyama. O Senhor Onoshi e o Senhor Kiyama. E mais: todos concordamos em esperar aqui até que ela esteja de volta a Osaka. Eis as assinaturas deles.
Toranaga ficou lívido. Manipulara tanto o conselho para que a votação fosse sempre de dois a três e nunca fora capaz de vencer um quatro-a-um contra Ishido, mas tampouco Ishido conseguira isso contra ele. Quatro a um significava isolamento e calamidade. Por que Onoshi o desertara? E Kiyama? Ambos inimigos implacáveis, mesmo antes de se terem convertido à religião estrangeira.
E que influência tinha Ishido agora sobre eles?
Ishido sabia que abalara o inimigo. Mas faltava um movimento para tornar a vitória completa. Por isso pôs em prática o plano que havia combinado com Onoshi.
- Nós, regentes, estamos todos de acordo em que chegou o momento de acabar com aqueles que planejam usurpar o poder do meu amo e matar o herdeiro. Os traidores serão condenados. Serão exibidos nas ruas como criminosos comuns, com todos os descendentes, e depois serão executados como criminosos comuns, com todos os descendentes. Fujimoto, Takashima, origem humilde, origem ilustre - não importa quem. Até Minowara?
Um arquejo de cólera irrompeu de cada samurai de Toranaga, pois tal sacrilégio contra as famílias semi-reais era impensável. Foi quando o jovem samurai Usagi, marido da neta de Hiromatsu, pôs-se de pé, afogueado de raiva. Sacou a espada mortífera e saltou para cima de Ishido, a lâmina nua pronta para o golpe de duas mãos.
Ishido estava preparado para o golpe de morte e não fez movimento algum para se defender. Era isto o que planejara, o que esperava, e seus homens tinham ordens para não interferir até que ele estivesse morto. Se ele, Ishido, fosse morto aqui, agora, por um samurai de Toranaga, a guarnição de Osaka inteira cairia sobre Toranaga legitimamente e o liquidaria, sem se importar com a refém. Depois a Senhora Ochiba seria eliminada em retaliação, pelos filhos de Toranaga, e os regentes remanescentes seriam forçados a mover-se em conjunto contra o clã Yoshi, que, isolado, seria aniquilado. Só então a sucessão do herdeiro estaria garantida e ele, Ishido, teria cumprido seu dever para com o taicum. Mas o golpe não veio. No último momento Usagi recuperou o controle e tremulamente embainhou a espada.
- Seu perdão, Senhor Toranaga - disse, ajoelhando-se miseravelmente. - Não pude suportar a vergonha de... de vê-lo ouvindo esses. .. esses insultos. Peço permissão... peço desculpas e... peço permissão para cometer seppuku imediatamente, pois não posso viver com essa vergonha.
Embora Toranaga tivesse permanecido imóvel, estivera pronto para interceptar o golpe e sabia que Hiromatsu e os outros se encontravam igualmente prontos, e que provavelmente Ishido só ficaria ferido. Também compreendia por que Ishido fora tão insultante e incitante. Vou lhe devolver isto e com juros bem elevados, Ishido, prometeu ele silenciosamente.
Toranaga voltou a atenção ao jovem ajoelhado.
- Como se atreve a deduzir que qualquer coisa que o Senhor Ishido tenha dito signifique, de algum modo, um insulto a mim? Claro que ele nunca seria tão descortês. Como se atreve a ouvir conversas que não lhe dizem respeito? Não, você não será autorizado a cometer seppuku. Isso é uma honra. Você será crucificado hoje, como um criminoso comum. Suas espadas serão quebradas e enterradas na aldeia eta. Seu filho será enterrado na aldeia eta. Sua cabeça será espetada a um chuço e exposta ao escárnio de toda a população, com um aviso: "Este homem nasceu samurai por engano. Seu nome cessou de existir!"
Com um esforço supremo, Usagi controlou a respiração, mas o suor o encharcava e a vergonha por isso o torturava. Inclinou-se para Toranaga, aceitando seu destino com calma aparente.
Hiromatsu avançou e arrancou as duas espadas da cintura do neto por afinidade.
- Senhor Toranaga - disse gravemente -, com a sua permissão verificarei pessoalmente que as suas ordens sejam cumpridas.
Toranaga assentiu.
O jovem curvou-se uma última vez e começou a se levantar, mas Hiromatsu o empurrou de volta ao chão.
- Os samurais andam - disse. - Os homens também. Mas você não é uma coisa nem outra. Vai rastejar para a morte.
Silenciosamente Usagi obedeceu.
E todos na sala se sentiram reconfortados pela força da autodisciplina do jovem agora, e pela dimensão da sua coragem. Ele renascerá samurai, disseram a si mesmos, satisfeitos.
CAPÍTULO 13
Naquela noite Toranaga não conseguiu dormir. Isso era raro nele, porque normalmente podia adiar o problema mais premente para o dia seguinte, sabendo que, se estivesse vivo no dia seguinte, resolveria o problema com o melhor de sua habilidade. Descobrira há muito tempo, já, que o sono tranqüilo podia oferecer a resposta a muitos enigmas, e se não podia, que importância tinha, na realidade? A vida não era apenas uma gota de orvalho dentro de outra gota de orvalho?
Mas naquela noite havia uma infinidade de questões desconcertantes a ponderar.
O que vou fazer com relação a Ishido?
Por que Onoshi passou para o inimigo?
Como vou lidar com o conselho?
Será que os padres cristãos se intrometeram de novo?
De onde virá a próxima tentativa de assassinato?
Quando devo tratar de Yabu?
E que devo fazer com o bárbaro?
Será que disse a verdade?
Curioso que o bárbaro tenha vindo dos mares orientais bem nesta época. Será um presságio? Será que é o karma dele ser a faísca que acenderá o barrilete de pólvora?
"Karma" era uma palavra indiana adotada pelos japoneses, parte da filosofia budista que se referia ao destino de uma pessoa nesta vida, seu destino imutavelmente fixado pelos feitos realizados numa vida prévia, dando os bons atos uma posição melhor nestes estratos de vida e os maus, o inverso. Exatamente como os feitos desta vida afetariam o renascimento seguinte. Uma pessoa estava sempre renascendo neste mundo de lágrimas até, finalmente, depois de padecer, sofrer e aprender ao longo de muitas vidas, se tornar perfeito, quando ia para o nirvana, o Lugar da Paz Perfeita, e não precisava sofrer o renascimento nunca mais.