Estranho que Buda ou algum outro deus ou talvez apenas o karma tivesse trazido o Anjin-san para o feudo de Yabu. Estranho que tivesse aportado na aldeia exata onde Mura, o líder secreto do sistema de espionagem de Izu, se instalara tantos anos atrás, bem às vistas do taicum e do pai de Yabu, corroído de sífilis. Estranho que Tsukku-san estivesse ali em Osaka para interpretar e não em Nagasaki, onde normalmente se encontraria. Que também o padre chefe dos cristãos estivesse em Osaka, assim como o capitão-mor dos portugueses. Estranho que o piloto, Rodrigues, também estivesse disponível para levar Hiromatsu a Anjiro, a tempo para capturar o bárbaro com vida e tomar posse das armas. Depois há Kasigi Omi, filho do homem que me dará a cabeça de Yabu a um simples dobrar de dedinho meu.
Como a vida é bela e como é triste! Como é fugaz, sem passado nem futuro, apenas um infindável agora.
Toranaga suspirou. Uma coisa é certa: o bárbaro nunca partirá. Nem vivo nem morto. É parte do reino para sempre.
Seus ouvidos perceberam o som quase imperceptível de passos se aproximando e sua espada se preparou. Todas as noites ele mudava de quarto de dormir, mudava os guardas e a senha ao acaso, prevenindo-se contra os assassinos que estavam à espera. Os passos se detiveram do lado de fora da shoji. Então ouviu a voz de Hiromatsu e o começo da senha:
- Se a verdade já está clara, para que serve a meditação?
- E se a verdade estiver oculta? - disse Toranaga.
- Já está clara - respondeu Hiromatsu corretamente. A citação era do velho professor de tantrismo, Saraha.
- Entre. - Só quando Toranaga viu, realmente, que se tratava do seu conselheiro foi que a espada descansou. - Sente-se.
- Disseram-me que o senhor não estava dormindo. Pensei que pudesse precisar de alguma coisa.
- Não. Obrigado. – Toranaga observou os sulcos mais acentuados em torno dos olhos do velho. – Estou contente que esteja aqui, velho amigo.
- Tem certeza de que está bem?
- Oh, sim.
- Então vou deixá-lo. Sinto tê-lo perturbado, senhor.
- Não, por favor, entre, estou contente de que tenha vindo. Sente-se.
O velho se sentou ao lado da porta, as costas eretas.
- Redobrei a guarda.
- Ótimo.
Pouco depois Hiromatsu disse:
- Quanto àquele louco, foi tudo executado conforme o senhor ordenou. Tudo.
- Obrigado.
- A mulher dele, minha neta, logo que ficou sabendo da sentença, pediu-me permissão para se matar, para acompanhar o marido e o filho ao Grande Vazio. Recusei e ordenei-lhe que esperasse, aguardando a sua aprovação. - Hiromatsu sangrava por dentro. Como a vida é terrível!
- Agiu corretamente.
- Peço-lhe formalmente permissão para pôr fim à vida. O que ele fez colocou o senhor em perigo mortal, mas o erro foi meu. Deveria ter descoberto a nulidade dele. Falhei ao senhor.
- Você não pode cometer seppuku.
- Por favor. Peço-lhe permissão formalmente.
- Não. Você é necessário vivo.
- Obedecerei. Mas por favor aceite as minhas desculpas.
- Suas desculpas estão aceitas.
Depois de um instante Toranaga disse:
- E quanto ao bárbaro?
- Muitas coisas, senhor. Primeiro: se o senhor não tivesse estado à espera do bárbaro hoje, estaria falcoando desde a primeira luz do dia, e Ishido nunca o teria enredado num encontro tão repulsivo. O senhor não tem escolha agora, senão declarar guerra a ele. Isso se conseguir sair deste castelo e voltar a Yedo.
- Segundo?
- E terceiro e quadragésimo terceiro e centésimo quadragésimo terceiro? Não sou de modo algum tão inteligente quanto o senhor, mas até eu pude ver que tudo em que fomos induzidos a crer pelos bárbaros meridionais não é verdadeiro. - Hiromatsu estava contente por falar. Ajudava a mitigar a dor. - Mas se há duas religiões cristãs que se odeiam mutuamente, e se os portugueses são parte de uma nação espanhola maior, e se o país deste novo bárbaro - seja lá como se chame - está em guerra com ambos e os vencer, e se esse mesmo país é uma nação insular como a nossa, e, o maior "se" de todos, se ele estiver dizendo a verdade e o padre tiver dito exatamente o que o bárbaro disse... Bem, o senhor pode reunir todos esses "se" e extrair-lhes um sentido, e um plano. Eu não consigo, sinto muito. Só sei o que vi em Anjiro e a bordo do navio. Que o Anjin-san é muito forte de cabeça - fraco de corpo atualmente, embora isso talvez se deva à longa viagem - e no domínio do mar. Não compreendo nada sobre ele. Como poderia ser todas essas coisas e, no entanto, permitir que um homem lhe urinasse nas costas? Por que salvou a vida de Yabu depois do que o homem lhe fez, e também a vida do seu inimigo confesso, o português Rodrigu? Minha cabeça roda com tantas perguntas como se eu estivesse encharcado de saquê. - Hiromatsu fez uma pausa. Estava absolutamente exausto. - Mas acho que devíamos mantê-lo em terra, e a todos como ele, se outros o seguirem, e matá-los a todos muito rapidamente.
- E quanto a Yabu?
- Ordene que ele cometa seppuku esta noite.
- Por quê?
- Não tem boas maneiras. O senhor previu o que ele faria quando eu chegasse a Anjiro. Ia roubar a sua propriedade. E é um mentiroso. Não se de ao trabalho de recebê-lo amanhã, conforme foi combinado. Ao invés disso, deixe-me levar-lhe sua ordem agora. O senhor terá que matá-lo mais cedo ou mais tarde. Melhor agora quando ele está acessível, sem nenhum de seus vassalos a rodeá-lo. Aconselho-o a não perder tempo.
Houve uma batida suave na porta interna.
- Tora-chan?
Toranaga sorriu como sempre fazia ao ouvir aquela voz muito especial, com aquele diminutivo especial.
- Sim, Kiri-san?
- Tomei a liberdade, senhor, de trazer chá para o senhor e seu convidado. Posso entrar?
- Sim.
Os dois homens retribuíram-lhe a reverência. Kiri fechou a porta e se ocupou em servir a bebida. Tinha cinqüenta e três anos, uma pessoa farta, responsável pelas damas de companhia de Toranaga. Kiritsubo-noh-Toshiko, apelidada de Kiri, a dama mais velha da sua corte. Tinha o cabelo com salpicos grisalhos, o peito generoso, mas o rosto cintilante com uma alegria eterna.
- Não devia estar acordado, não, não a esta hora da noite, Tora-chan! Logo vai amanhecer e suponho que aí o senhor sairá para as colinas com seus falcões, neh? Precisa dormir!
- Sim, Kiri-chan! - Toranaga deu-lhe um tapinha no vasto traseiro afetuosamente.
- Por favor, não me chame de Kiri-chan! - Kiri riu. - Sou uma velha e preciso de muito respeito. Suas outras damas já me dão problemas suficientes. Kiritsubo-Toshiko-san, se lhe apraz, meu Senhor Yoshi Toranaga-noh-Chikitada!
- Aí está, Hiromatsu. Depois de vinte anos ela ainda tenta me dominar.
- Desculpe, mas são mais de trinta anos, Tora-sama - disse ela com orgulho. - E o senhor era tão manejável na época quanto é agora!
Quando Toranaga estava na casa dos vinte anos, fora retido como refém pelo despótico Ikawa Tadazaki, senhor de Suruga e Totomi, pai do atual Ikawa Jikkyu, inimigo de Yabu. O samurai responsável pelo bom comportamento de Toranaga acabara de tomar Kiritsubo como segunda esposa. Ela estava com dezessete anos então. O samurai, assim como a esposa, havia tratado Toranaga com generosidade, dera-lhe sábios conselhos, e depois, quando Toranaga se rebelara contra Tadazaki e se juntara a Goroda, seguira-o com muitos guerreiros e lutara bravamente ao lado dele. Mais tarde, no combate pela capital, o marido de Kiri fora morto. Toranaga pedira-lhe que se tornasse uma de suas consortes e ela aceitara, contente. Naqueles dias ela não era gorda. Mas era igualmente protetora e igualmente sábia. Tinha dezenove anos, ele vinte e quatro, e desde então se tornara o centro da sua vida doméstica. Kiri era muito perspicaz e muito eficiente. Dirigia-lhe a casa e mantinha-a sem problemas.