Tão sem problemas quanto qualquer casa com mulheres poderia ser, pensou Toranaga.
- Está engordando - disse ele, sem se importar com que ela estivesse gorda.
- Senhor Toranaga! Na frente do Senhor Toda! Oh, sinto muito, tenho que cometer seppuku, ou no mínimo raspar a cabeça e me tornar monja! E eu que pensei que ainda fosse jovem e esbelta! - Ela explodiu numa gargalhada. - Na realidade concordo em que tenho um traseiro gordo, mas o que posso fazer? Simplesmente gosto de comer e isso é problema de Buda e o meu karma, neh? - Ela ofereceu o chá. - Aqui está. Agora me retiro. Gostaria que eu mandasse a Senhora Sazuko?
- Não, minha zelosa Kiri-san, não, obrigado. Vamos conversar um pouco, depois vou dormir.
- Boa noite, Tora-sama. Um sono suave e sem sonhos.
- Ela se curvou para ele, para Hiromatsu, e saiu.
Eles sorveram o chá, degustando-o.
- Sempre lamentei - disse Toranaga - que não tivéssemos tido um filho, Kiri-san e eu. Uma vez ela concebeu, mas abortou. Foi quando estivemos na batalha de Nagakudé.
- Ah, aquela.
- Sim.
Isso foi pouco depois de o ditador Goroda ser assassinado, quando o General Nakamura - o futuro taicum - tentava consolidar todo o poder nas próprias mãos. Naquela época a questão ainda estava pendente, e Toranaga apoiava um dos filhos de Goroda, o herdeiro legal. Nakamura investiu contra Toranaga perto da pequena aldeia de Nagakudé, seu exército foi rechaçado e dispersado e ele perdeu a batalha. Toranaga recuou inteligentemente, perseguido por um novo exército, agora comandado para Nakamura por Hiromatsu. Mas Toranaga evitou a armadilha e escapou para as suas províncias, com o seu exército intacto, pronto para lutar de novo. Cinqüenta mil homens morreram em Nagakudé, muito poucos dos quais eram de Toranaga. Na sua sabedoria, o futuro taicum susteve a guerra civil contra Toranaga, embora tivesse condição de vencer. Nagakudé foi a única batalha que o taicum jamais perdeu e Toranaga o único general que jamais o derrotou.
- Estou contente por nunca termos travado combate, senhor - disse Hiromatsu.
- Sim.
- O senhor teria vencido.
- Não. O taicum era o maior general e o mais sábio, o homem mais inteligente que jamais houve.
Hiromatsu sorriu.
- Sim. Com exceção do senhor.
- Não. Engano seu. Foi por isso que me tornei vassalo dele.
- Lamento que tenha morrido.
- Sim.
- E Goroda? Era um excelente homem, neh? Tantos homens bons mortos. - Hiromatsu inconscientemente virou e torceu a bainha gasta. - O senhor terá que investir contra Ishido. Isso forçará cada daimio a tomar posição de uma vez por todas. Acabaremos vencendo a guerra. Então o senhor poderá dissolver o conselho e tornar-se shogun.
- Não busco essa honra - disse Toranaga de modo cortante. - Quantas vezes preciso dizer-lhe?
- Seu perdão, senhor. Mas sinto que seria melhor para o Japão.
- Isso é traição.
- Contra quem, senhor? Contra o taicum? Ele está morto. Contra suas últimas vontades e testamento? É um pedaço de papel. Contra o menino Yaemon? Yaemon é o filho de um camponês que usurpou o poder e a herança de um general cujos herdeiros ele massacrou. Éramos aliados de Goroda, depois vassalos do taicum. Sim. Mas estão ambos completamente mortos.
- Você aconselharia isso se fosse um dos regentes?
- Não. Mas não sou um dos regentes, e estou muito contente. Sou apenas seu vassalo. Tomei posição há um ano. Fiz isso voluntariamente.
- Por quê? - Toranaga nunca lhe perguntara isso antes.
- Porque o senhor é um homem, porque é Minowara e porque fará o que for mais sábio. O que disse a Ishido é verdade: não somos um povo para ser governado por um comitê. Necessitamos de um líder. A quem, dos cinco regentes, eu deveria ter
escolhido para servir? Ao Senhor Onoshi? Sim, é um homem muito sábio, e um bom general. Mas é cristão e um mutilado, tem a carne tão apodrecida pela lepra que cheira mal a cinqüenta passos. Ao Senhor Sugiyama? É o daimio mais rico, de uma família tão antiga quanto a sua. Mas é um vira-casaca sem entranhas e nós o conhecemos há uma eternidade. Ao Senhor Kiyama? Sábio, corajoso, um grande general, e um velho camarada. Mas também é cristão, e acho que já temos deuses bastantes nesta Terra dos Deuses para não sermos arrogantes ao ponto de adorar a apenas um. Ishido? Detesto esse lixo camponês traiçoeiro desde que o conheço e a única razão por que nunca o matei é que ele era o cão do taicum. - Seu rosto coriáceo fendeu-se num sorriso. - Então, o senhor ve, Yoshi Toranaga-noh-Minowara, o senhor não me deixou escolha.
- E se eu for contra o seu conselho? Se manipular o conselho de regentes, até Ishido, e puser Yaemon no poder?
- Qualquer coisa que o senhor faça é sábia. Mas todos os regentes gostariam de vê-lo morto. A verdade é essa. Sou pela guerra imediata. Imediata. Antes que o isolem. Ou, mais provavelmente, o assassinem.
Toranaga pensou em seus inimigos. Eram poderosos e abundantes.
Precisaria de três semanas inteiras para regressar a Yedo, viajando pela estrada Tokaido, a principal, que acompanhava a costa entre Yedo e Osaka. Ir de navio era mais perigoso, e talvez consumisse mais tempo, exceto de galera, que podia viajar contra o vento e a maré.
A mente de Toranaga deteve-se de novo no plano pelo qual se decidira. Não via defeito algum nele.
- Ouvi dizer em segredo, ontem, que a mãe de Ishido está visitando o neto em Nagoya - disse, e Hiromatsu imediatamente se pôs atento. Nagoya era uma imensa cidade-estado, ainda não comprometida com nenhum lado. - A senhora poderia ser "convidada" pelo prior a visitar o Templo Johji. Para ver as flores de cerejeira.
- Imediatamente - disse Hiromatsu. - Por pombo-correio. - O Templo Johji era famoso por três coisas: sua avenida de cerejeiras, a militância de seus monges zen-budistas, e a sua fidelidade declarada e perene a Toranaga, que, anos antes, pagara a construção do templo e se responsabilizava pela sua manutenção desde então. - As flores já terão passado do auge, mas ela estará lá amanhã. Não duvido que a veneranda senhora quererá ficar alguns dias, o lugar é tão calmante. O neto deveria ir também, neh?
- Não, apenas ela. Isso faria o "convite" do prior parecer óbvio demais. Em seguida, mande uma mensagem secreta a meu filho, Sudara: "Deixo Osaka no momento em que o conselho concluir esta sessão - dentro de quatro dias". Mande-a por mensageiro e confirme por pombo-correio amanhã.
A desaprovação de Hiromatsu era flagrante.
- Então posso ordenar a vinda de dez mil homens imediatamente? Para Osaka?
- Não. Os que estão aqui bastam. Obrigado, velho amigo, acho que vou dormir agora.
Hiromatsu levantou-se e estirou os ombros. A soleira da porta, disse:
- Posso dar a Fujiko, minha neta, permissão para se matar?
- Não.
- Mas Fujiko é samurai, senhor, e o senhor sabe como são as mães em relação aos filhos. A criança era o primeiro filho dela.
- Fujiko pode ter muitos filhos. Que idade tem? Dezoito, quase dezenove? Encontrarei um novo marido para ela.
Hiromatsu balançou a cabeça.
- Não aceitará nenhum. Conheço-a bem demais. Seu desejo mais profundo é pôr fim à vida. Por favor?
- Diga à sua neta que não aprovo mortes inúteis. A permissão está recusada.
Finalmente Hiromatsu se curvou, e começou a se retirar.
- Quanto tempo o bárbaro viveria na prisão? - perguntou Toranaga.
Hiromatsu não se voltou.
- Depende de quão violento lutador ele é.
- Obrigado. Boa noite, Hiromatsu. - Quando teve certeza de estar sozinho, disse calmamente: - Kiri-san?
A porta interna se abriu, ela entrou e se ajoelhou.
- Mande uma mensagem a Sudara imediatamente: "Está tudo bem". Mande por pombos de corrida. Solte três ao mesmo tempo ao amanhecer. Ao meio-dia faça o mesmo novamente.