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- Sim, senhor. - Ela saiu.

Um conseguirá passar, pensou. Pelo menos quatro serão abatidos por flechas, espiões ou falcões. Mas a menos que Ishido tenha desvendado o nosso código, a mensagem não vai significar nada para ele.

O código era muito particular. Quatro pessoas o conheciam. O filho mais velho, Noboru; o segundo filho e herdeiro, Sudara; Kiri; e ele mesmo. Decifrada, a mensagem significava: "Ignorar todas as outras mensagens. Acionar o plano 5". Conforme arranjos prévios, o plano 5 continha ordens de reunir todos os líderes do clã Yoshi e seus conselheiros mais dignos de confiança imediatamente na capital, Yedo, e de mobilizar para a guerra. A expressão em código que indicava a guerra era "Céu Carmesim". Caso ele fosse assassinado, ou capturado, Céu Carmesim tornava-se inexorável e desencadeava a guerra - um imediato e fanático assalto contra Kyoto, conduzido por Sudara, o herdeiro, com todas as legiões, para tomar posse daquela cidade e do imperador fantoche. Isso seria acompanhado de insurreições secretas e meticulosamente planejadas em cinqüenta províncias que tinham sido preparadas ao longo dos anos para tal eventualidade. Todos os alvos, caminhos, cidades, castelos, pontes, tinham sido selecionados há muito tempo. Havia armas, homens e determinação suficientes para levar a coisa a efeito.

É um bom plano, pensou Toranaga. Mas fracassará se eu mesmo não o comandar. Sudara falhará. Não devido à falta de empenho, coragem, inteligência, nem por causa de traição. Meramente porque Sudara ainda não tem conhecimento ou experiência suficientes e não vai conseguir levar consigo um número suficiente de daimios não comprometidos. E também porque o Castelo de Osaka e o herdeiro, Yaemon, erguem-se invioláveis no caminho, o ponto de fusão de toda a inimizade e inveja que mereci em cinqüenta e dois anos de guerra.

A guerra de Toranaga começara quando ele tinha seis anos o fora mantido como refém num acampamento inimigo, depois libertado, depois capturado por outros inimigos, novamente feito refém, e isso até ter doze anos. Aos doze comandara sua primeira patrulha e vencera sua primeira batalha.

Tantas batalhas. Nenhuma perdida. Mas tantos inimigos. Que agora estão se agrupando.

Sudara falhará. Você é o único que poderia vencer com Céu Carmesim, talvez. O taicum poderia fazê-lo, totalmente. Mas seria melhor não ter que pôr em prática Céu Carmesim.

CAPÍTULO 14

Para Blackthorne foi um amanhecer infernal. Estava travando uma luta de morte com um prisioneiro. O prêmio era uma xícara de sopa de aveia. Os dois homens estavam despidos. Sempre que um condenado era colocado naquela vasta cela de madeira o de um único andar, suas roupas eram levadas embora. Um homem vestido ocupava mais espaço e as roupas podiam esconder armas.

A sala escura e sufocante tinha cinqüenta passos de comprimento e dez de largura, e estava abarrotada de japoneses nus e transpirando. A luz se filtrava escassamente através das pranchas o vigas que compunham os muros e o teto baixo.

Blackthorne mal e mal conseguia ficar ereto. Tinha a pele machucada e arranhada pelas unhas quebradas do homem e pelo madeirame das paredes. Finalmente foi de cabeça contra o rosto do homem, agarrou-o pelo pescoço e martelou-lhe a cabeça contra as vigas, até fazê-lo perder os sentidos. Depois atirou o corpo para o lado, investiu por entre a massa transpirando, para o lugar que reclamara no canto, e se preparou para outro ataque.

Acontecera que ao amanhecer fora hora de refeição e os guardas começaram a passar as xícaras de sopa de aveia e água pela pequena abertura. Era o primeiro alimento que lhes era dado desde que ele fora posto ali ao crepúsculo da véspera. A fila para comida e água fora excepcionalmente calma. Sem disciplina ninguém comeria. Então aquele homem simiesco - barba por fazer, imundo, coberto de piolhos - lhe dera um soco nos rins e lhe tomara a ração, enquanto os outros esperavam para ver o que ia acontecer. Mas Blackthorne já participara de um sem-número de rixas no mar para ser derrotado com um golpe traiçoeiro, portanto fingiu estar indefeso, depois deu um pontapé com maldade e a luta se travou.

Agora, no canto, Blackthorne viu, para espanto seu, que um dos homens lhe oferecia a xícara de sopa e a de água que ele presumira perdidas. Pegou-as e agradeceu ao homem.

Os cantos eram as áreas mais escolhidas. Uma viga corria ao longo do chão de terra, dividindo a sala em duas seções. Em cada seção havia três fileiras de homens, duas se encarando mutuamente, as costas contra a parede ou a viga, a terceira entre elas. Apenas os fracos e os doentes ficavam na fileira central. Quando os homens mais fortes, nas fileiras externas, queriam esticar as pernas, tinham que fazê-lo por cima dos que estavam no meio.

Blackthorne viu dois cadáveres, inchados e cobertos de moscas, numa das filas do meio. Mas os homens enfraquecidos e moribundos ao redor pareciam ignorá-los. Não conseguia enxergar à distância na escuridão abafada. O sol já estava ressecando a madeira. Havia latrinas mas o mau cheiro era terrível porque os doentes se haviam sujado e aos lugares onde se acotovelavam.

De vez em quando guardas abriam a porta de ferro e chamavam nomes. Os homens curvavam-se para os companheiros e saíam, mas logo eram trazidos outros e o espaço era novamente ocupado. Todos os prisioneiros pareciam ter aceitado a sua sorte e tentavam, da melhor maneira que podiam, viver altruisticamente em paz com os vizinhos imediatos.

Um homem contra a parede começou a vomitar. Foi rapidamente empurrado para a fileira do meio e tombou, meio sufocado, sob o peso das pernas.

Blackthorne teve que fechar os olhos e lutar para controlar o próprio terror e claustrofobia. Bastardo de Toranaga! Rezo para ter a oportunidade de pô-lo aqui dentro um dia.

Guardas bastardos! Na noite anterior, quando lhe ordenaram que se despisse, lutara com amargo desespero, sabendo que estava derrotado e lutando só porque se recusava a capitular passivamente. E depois fora empurrado porta adentro.

Havia quatro blocos de celas como aquele. Ficavam nos limites da cidade, numa construção por trás de altos muros de pedra. Fora dos muros havia uma área isolada de terra batida, à margem do rio. Cinco cruzes erguiam-se ali. Vários homens e uma mulher, todos nus, tinham sido amarrados de pernas abertas às traves pelos pulsos e tornozelos, e Blackthorne, enquanto caminhava pelo perímetro, seguindo seus guardas samurais, vira executores com longas lanças enfiá-las no peito das vítimas, enquanto a multidão escarnecia.

Depois os cinco foram descidos, mais cinco foram içados, alguns samurais avançaram e picaram os cadáveres em pedaços com as longas espadas, rindo o tempo todo em que faziam isso.

Bastardos sanguinários, podres, ralé!

Sem que ninguém notasse, o homem com quem Blackthorne lutara estava voltando a si. Jazia na fila do meio. O sangue coagulara de cada lado do rosto dele e o nariz estava esmagado. Repentinamente pulou para cima de Blackthorne, ignorando os homens no seu caminho. Blackthorne viu-o no último momento, aparou freneticamente a investida furiosa e o prostrou por terra. Os prisioneiros sobre quem ele caiu amaldiçoaram-no e um deles, lerdo e com a compleição de um buldogue, atingiu-o violentamente na nuca com o lado da mão. Houve um estalo seco e a cabeça do homem cedeu.

O homem buldogue levantou a cabeça meio raspada pelo topete eriçado e infestado de piolhos e deixou-a cair. Levantou os olhos para Blackthorne, disse alguma coisa guturalmente, sorriu com as gengivas nuas, desdentadas, e sacudiu os ombros.

- Obrigado - disse Blackthorne, lutando para respirar, grato por seu atacante não ter a habilidade de Mura no combate desarmado. - Meu namu Anjin-san - disse, apontando para si mesmo. - Você?

- Ah, so desu! Anjin-san! - O buldogue apontou para si mesmo e tomou fôlego. - Minikui.