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- Minikui-san?

- Hai - e acrescentou uma torrente de palavras em japonês.

Blackthorne sacudiu os ombros, cansado.

- Wakarimasen. Não entendi.

- Ah, so desu! O buldogue conversou brevemente com os vizinhos. Depois também sacudiu os ombros, Blackthorne o imitou e juntos ergueram o morto e o colocaram com os outros cadáveres. Quando voltaram ao canto, ninguém lhes tomara o lugar,

A maioria dos prisioneiros estava dormindo ou espasmodicamente tentando dormir.

Blackthorne sentiu-se imundo, péssimo e às portas da morte. Não se preocupe, disse a si mesmo, você ainda tem um longo caminho pela frente antes de morrer... Não, não vou poder viver muito tempo neste buraco do inferno. Há homens demais. Oh, Deus, faça-me sair! Por que a sala está subindo e descendo assim, o aquele é Rodrigues que vem flutuando das profundezas com tenazes movendo-se no lugar dos olhos? Não consigo respirar, não consigo respirar. Tenho que dar o fora daqui, por favor, por favor, não ponham mais lenha na fogueira e o que você está fazendo aqui, jovem Croocq, pensei que o tivessem deixado ir. Pensei que tivesse voltado para a aldeia, mas agora estamos aqui na aldeia, o como foi que cheguei aqui - está tão frio e há aquela garota, tão bonita, lá embaixo, perto do cais, mas por que a estão arrastando para a praia, o samurai nu, Omi, rindo, lá? Por que para a areia, marcas de sangue na areia, todos nus, eu nu, feiticeiras, aldeães e crianças, e há o caldeirão e estamos no caldeirão e não, não ponham mais lenha, não ponham mais lenha, estou me afogando num líquido imundo, oh, Deus, oh, Deus, oh, Deus, estou morrendo, morrendo, morrendo "In nomine Patris et Filii et Spiritui Sancti". Este é o último sacramento e você é católico, somos todos católicos, e você vai arder ou se afogar em mijo e arder no fogo, o fogo, o fogo, o logo...

Arrastou-se para fora do pesadelo, os ouvidos explodindo com o tranqüilo caráter decisivo do último sacramento. Por um momento não soube se estava desperto ou adormecido porque seus incrédulos ouvidos ouviram a bênção em latim novamente e seus incrédulos olhos estavam vendo um velho e enrugado espantalho de europeu dobrado sobre a fileira do meio, a quinze passos de distância. O velho desdentado tinha um longo cabelo imundo, uma barba emaranhada,' unhas quebradas e usava um camisolão puído o sujo. Tinha uma mão levantada como uma garra de abutre e segurava a cruz de madeira acima do corpo meio oculto. Um raio de sol iluminou-o momentaneamente. Depois ele fechou os olhos do homem, murmurou uma prece e levantou os olhos. Viu Blackthorne olhando-o fixamente.

- Mãe de Deus, você é real? - disse o homem, numa voz baixa e áspera, falando um espanhol grosseiro, de camponês, e persignando-se.

- Sim - disse Blackthorne em espanhol. - Quem é você?

O velho aproximou-se às apalpadelas, resmungando consigo mesmo. Os outros deixaram-no passar, pisando-os ou pulando-os, sem dizer palavra. Ele sustentou o olhar de Blackthorne com olhos reumosos, o rosto verruguento.

- Oh, Virgem abençoada, o señor é real. Quem é? Sou... Sou o Frei... Frei Domingo... Domingo... Domingo da Sagrada... Sagrada Ordem de São Francisco. .. a Ordem. .. - por um instante suas palavras se tornaram uma confusão de japonês, latim e espanhol. A cabeça dele estremeceu e ele enxugou a saliva sempre presente que lhe escorria para o queixo. - O señor é real?

- Sim, sou real. - Blackthorne se sentiu aliviado.

O padre murmurou outra ave-maria, as lágrimas correndo-lhe pelas faces.

Beijou a cruz repetidamente e se teria posto de joelhos se houvesse espaço. O buldogue sacudiu o vizinho para acordá-lo e ambos se puseram de cócoras para dar espaço suficiente para que o padre se sentasse.

- Pelo abençoado São Francisco, minhas preces foram atendidas. Pensei estar vendo outra aparição, señor, um fantasma. Sim, um mau espírito. Vi tantos, tantos... há quanto tempo o señor está aqui? É difícil ver na escuridão e meus olhos não são bons... Há quanto tempo?

- Desde ontem. E o senhor?

- Não sei, señor. Muito tempo. Fui posto aqui em setembro, no ano do Senhor de 1558.

- Estamos em maio agora. De 1600.

- 1600?

Um gemido distraiu a atenção do monge. Levantou-se e abriu caminho por sobre os corpos como uma aranha, encorajando um homem aqui, tocando outro ali, no seu japonês fluente. Não conseguiu encontrar o moribundo, de modo que sussurrou os últimos ritos na direção daquela parte da cela e abençoou a todos, com o que ninguém se importou.

- Venha comigo, meu filho.

Sem esperar, o monge coxeou ao longo da prisão, através do amontoado de homens, na escuridão. Blackthorne hesitou, não querendo sair do seu lugar. Mas acabou se levantando e o seguiu. A dez passos, olhou para trás. Seu lugar desaparecera. Parecia impossível que ele alguma vez tivesse estado ali.

Continuou por todo o comprimento do barraco. No canto oposto havia, inacreditavelmente, um espaço aberto. Exatamente o espaço suficiente para um homem pequeno se deitar. Continha alguns potes e tigelas e uma velha esteira de palha.

Frei Domingo avançou por entre os homens até o espaço o chamou-o com um gesto. Os japoneses ao redor olhavam silenciosos, deixando Blackthorne passar.

- E o meu rebanho, señor. São todos meus filhos em Jesus abençoado. Converti a tantos aqui... este, João, aquele, Marcos, o Matusalém... - O velho parou para tomar fôlego. - Estou muito cansado. Cansado. Tenho que... tenho... - Suas palavras foram-se arrastando e ele adormeceu.

Ao crepúsculo chegou mais comida. Quando Blackthorne começou a se levantar, um dos japoneses das proximidades fez-lhe sinal que ficasse sentado e trouxe-lhe uma tigela bem cheia. Outro homem gentilmente acordou o padre com um tapinha, oferecendo a comida.

- Iyé - disse o velho, balançando a cabeça, um sorriso no rosto, e empurrou a tigela de volta às mãos do homem.

- Iyé, Farddah-sama.

O padre permitiu-se ser persuadido e comeu um pouco, depois se levantou, as juntas estalando, e estendeu a tigela a um dos que estavam na fileira do centro. Esse homem tocou a mão do padre com a testa e foi abençoado.

- Estou tão contente por ver outra pessoa da minha espécie - disse o padre, sentando-se novamente ao lado de Blackthorne, sua voz de camponês abafada e sibilante. Apontou debilmente para a outra extremidade da cela. - Uma de minhas ovelhas disse que o señor usou a palavra "piloto", "anjin". O señor é piloto?

- Sim.

- Há outros da sua tripulação aqui?

- Não, estou só. Por que está aqui?

- Se está só... o señor veio de Manila?

- Não. Nunca estive na Ásia antes - disse Blackthorne cuidadosamente, num excelente espanhol. - Foi minha primeira viagem como piloto. Fui... fui desviado da rota. Por que o senhor está aqui?

- Os jesuítas me puseram aqui, meu filho. Os jesuítas e suas imundas mentiras. O señor se desviou da rota? Não é espanhol, não... nem português... - O monge perscrutou-o desconfiado, e Blackthorne foi rodeado pela sua respiração malcheirosa. - O navio era português? Diga a verdade, diante de Deus!

- Não era, padre. Não era português. Diante de Deus!

- Oh, Virgem abençoada, obrigado! Por favor, desculpe-me, señor. Tive medo... sou velho, doente e estúpido. Seu navio era espanhol, vindo de onde? Estou tão contente... de onde o señor e, originalmente? Da Flandres espanhola? Ou do ducado de Brandenburgo, talvez? De algum lugar nos nossos domínios na Germania? Oh, é tão bom falar minha abençoada língua materna de novo! O señor naufragou como nós? Depois foi perfidamente atirado nesta prisão, falsamente acusado por aqueles diabólicos jesuítas? Que Deus os amaldiçoe e lhes mostre o erro de sua traição!